Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR, Deus dos Exércitos. Jeremias 15:16

domingo, 27 de setembro de 2026

Triunfantes - 2ª Co 2.12-17

 Mensagem de Domingo, 27 de setembro de 2026, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos

Pr. Plinio Fernandes

Amados irmãos, leiamos 2ª Co 2.3-17

Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, 13 não tive, contudo, tranquilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito; por isso, despedindo-me deles, parti para a Macedônia. 14 Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. 15 Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. 16 Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas? 17 Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus.

Intr.

v. 14 – Graças porém, a Deus, que em Cristo, sempre nos conduz em triunfo...

Estou lendo um livro sobre interpretação bíblica em que no prefácio o autor diz que escreveu “com feridas”.1

Fico pensando como, o que ele diz ali, pode ser dito quase que em cada empreendimento humano que valha a pena.

A nossa carreira como seres humanos, e especialmente como crentes em Cristo, destinados à eternidade, é escrita com muitos ferimentos.

A nossa própria salvação foi conquistada por Jesus em meio a muitos ferimentos.

Desde o cap. 1, versículo 18, Paulo vinha escrevendo aos coríntios sobre várias tribulações pelas quais havia passado: a luta com feras em Éfeso – não sabemos se literal, ou figurada (essa semana alguém nos disse que muitas vezes temos que lidar com “verdadeiros quadrúpedes humanos”), as acusações de alguns contra o seu caráter, contra o seu ministério, as investidas de Satanás, a sua preocupação com a igreja e com Tito, seu cooperador no reino de Deus; preocupações tão intensas que mesmo tendo uma porta aberta para pregar, simplesmente não aproveitou.

A princípio podemos pensar que tudo isso é um tanto deprimente.

Mas Paulo também havia escrito, nos vs. 3 a 7, ainda no cap. 1, que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é cheio de misericórdias, e nos consola em toda e qualquer angústia pela qual estivermos passando.

Assim, mesmo depois de mencionar tantas contrariedades pessoais, Paulo inicia o v. 14 descrevendo algo que o consolava:

Graças, porém, a Deus, que em Cristo sempre nos conduz em triunfo...

Que contraste enorme! Quando falamos sobre triunfo, estamos falando de vitória, de comemoração, de alegria.

O crente sofre muitos ferimentos. Mas também é sempre triunfante!

Prop.

Mas como, ao mesmo tempo em que falamos de tantas tribulações, podemos dizer que somos conduzidos em triunfo?

Divs.

Usando a conhecida frase...

1. Somos soldados de Cristo

Sem dúvida, quando ouviram a leitura desse trecho, uma imagem muito vívida foi trazida à mente dos coríntios.

O triunfo era uma procissão militar que acontecia na capital do império; a mais alta honraria que se podia dar a um general vitorioso.

E já fazia quase dois séculos, Corinto era uma colônia romana.

Muitos soldados romanos moravam lá, e paradas militares, assim como notícias de marchas triunfais faziam parte da vida cotidiana da cidade.

Mas o triunfo não era uma honraria dada a qualquer general, que tivesse qualquer vitória.

Ele deveria ter sido o comandante em chefe no campo de batalha, vencido um grande exército inimigo (pelo menos cinco mil inimigos mortos), conquistado um território, e pacificado e submetido os vencidos ao domínio de Roma.

Assim vitorioso, depois de algumas semanas de volta a Roma, a marcha era realizada.

Acho que a descrição mais completa que li sobre uma marcha triunfal foi dada por William Barclay.

Ele diz que no triunfo a procissão passava pelas ruas de Roma desde a entrada, em direção ao templo dedicado a Júpiter, o patrono da cidade.

Primeiro, iam os funcionários do Estado e o senado. Em seguida os trompetistas.

Depois se levava o despojo da guerra; os objetos valiosos obtidos da terra conquistada, modelos e mapas das cidades, dos portos e dos territórios ocupados.

Seguia o touro branco que seria sacrificado a Júpiter.

Depois, os infelizes cativos, os príncipes inimigos, os líderes e generais acorrentados, que em pouco tempo seriam, alguns jogados nas prisões e executados, e outros, vendidos como escravos.

Atrás deles ia uma escolta, e os músicos com suas liras. Mais atrás iam os sacerdotes balançando seus incensários nos quais se queimava o doce perfume.

Um perfume que se espalhava para todos os lados: para os vencedores, aquele perfume era comemoração, vida; porém, para os cativos, aquele incenso era cheiro de morte.

Depois ia o general em pessoa, em pé num carro puxado por quatro cavalos; vestido com uma túnica e sobre ela uma toga púrpura, roupas adornadas com palmas e estrelas douradas.

Um cetro de marfim na mão, com a águia romana em sua parte superior, e sobre a cabeça do general, uma coroa de louros.

Atrás dele, em outra carruagem, sua família.

E finalmente ia o exército, carregando todas as suas condecorações e gritando: “o triunfo! O triunfo!”. Era o grito de vitória.

A procissão caminhava através das ruas, decoradas e adornadas com grinaldas, entre a multidão que gritava e saudava. 2

Agora, imagine esses soldados alegres e vitoriosos.

Imagine quantas batalhas, quantas lutas corpo a corpo, quantas regiões inóspitas, quanta tensão haviam suportado, quantos inimigos enfrentados, ferimentos e cicatrizes no corpo e na alma, quanta exaustão, quantas noites mal dormidas, e quanta coragem, perseverança, sob a liderança do seu general que os conduziu à vitória.

É assim que Paulo se via, como soldado sempre conduzido em triunfo, não porque sua vida fosse um desfile, mas porque as lutas, as adversidades, o desgaste, a chuva e o sol, as distâncias percorridas, a guerra, tudo isso faz parte da vitória e do prêmio por sermos soldados de Cristo.

v. 14 – Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento...

– Nós somos sempre conduzidos por Deus...

– Nós sempre somos conduzidos em triunfo...

E é sempre assim em virtude da nossa união com Jesus Cristo.

É assim que todo o crente em Jesus se enxerga. É assim também que cada igreja se enxerga.

Jesus, o general do Reino do céu, e seu evangelho de salvação está em marcha pelo mundo conquistando, redimindo os que creem e se arrependem, e também julgando os que permanecem em seus pecados.

E faz de cada discípulo um soldado do seu exército.

Eu gosto muito de uma frase de A. W. Tozer. Não me lembro agora em qual dos seus livros, mas ele diz:

“Para o crente, esse mundo não é um parque de diversões. É um campo de batalha”.

Mas não um campo de batalha levada adiante carnalmente. Como está escrito no profeta Zacarias:

Não por força; nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.3

No capítulo 10, Paulo destaca as armas com as quais lutamos, e o nosso propósito.

2ª Co 10.3-5 - Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. 4 Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas 5 e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo…

Nossas armas não são espada, filosofias sociológicas, políticas, coach, nenhuma estratégia de sabedoria terrena.

Nossas armas são poderosas em Deus, pois são a oração, a comunhão, a Bíblia, o Evangelho que é poder de Deus para a nossa salvação, e de todo aquele que crê.

O evangelho que leva cativo todo o pensamento altivo e falacioso à obediência de Cristo; e ao mesmo tempo condena os que se opõe.

Isso nos leva ao segundo ponto...

2. Também somos o bom perfume de Cristo

vs. 14-16 – Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. 15 Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. 16 Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida.

Na mensagem anterior, eu usei o conceito de perfume em sua acepção de fragrância para o corpo. É uma analogia que cabe perfeitamente.

Mas agora, desejo me aproximar mais do sentido da palavra aqui nessa alegoria de Paulo.

Dissemos que nessa procissão triunfal os sacerdotes sacudiam seus incensários cheios de perfume, e o aroma se espalhava por todos os lados.

Para o general e os soldados vitoriosos, esse perfume era de alegria e vida.

Mas para os derrotados era o perfume da morte. Logo seriam executados.

Somos o bom perfume de Cristo.

Porque, em todo o lugar, Deus espalha, por meio de nós, a fragrância do conhecimento dele.

Agora, na antiguidade entre os hebreus, o incenso era feito assim: a pessoa tomava algumas especiarias, misturava e depois esmagava bem. Em seguida a colocava para secar e depois usava queimando, para que o perfume se espalhasse.

Entre os romanos era feito com resina de árvores.

Mas veja: a primeira coisa é amassar, triturar. Já nesse processo o aroma da especiaria é exalado.

Você, irmão, é bom perfume de Cristo.

Na maneira como você reage diante dos problemas da vida; na maneira como você toma decisões; na maneira como você trabalha, na maneira como você fala, e o que fala, você testemunha o conhecimento de Deus.

Isso porque a sua vida é unida à vida de Jesus Cristo; ao seu Evangelho.

E o evangelho de Jesus é assim: para todos os que o aceitam, é o perfume da vida.

Veja a certeza maravilhosa que Jesus dá a todos os que se deixam cativar pelo evangelho.

Jo 5.24 - Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.

Digo que é uma certeza, uma posse, pois Jesus afirma que o crente já passou da morte para a vida. Já venceu. Já está marchando triunfantemente.

Mas a outra face da verdade é que todo o homem tem o dever de se render a Cristo.

Jo 12.48-49 - Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia. 49 Porque eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar.

A palavra de Deus não volta vazia. Ela prospera naquilo para o qual foi designada.4

Percebe o valor da tua vida no avanço do Evangelho no mundo, tanto para a salvação como para juízo do mundo?

Percebe como tua vida tem significado, propósito, razão de ser?

Nem o mundo inteiro, nem anjos, nem principados e potestades, e todas as forças de Satanás juntas, não podem derrotar Jesus Cristo, e não podem derrotar todo aquele que está em Cristo.

Paulo termina o v. 16 com uma pergunta:

– Quem, porém é suficiente para estas coisas?

Então vejamos o terceiro ponto.

3. Nós vivemos em Cristo

v. 17 – Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus.

Mais uma vez, o eco de comentários maldosos: alguns diziam que Paulo fazia do evangelho um comércio, uma desculpa para encher os bolsos.

Mas como ele ainda terá outras coisas para falar a esse respeito, por ora vamos deixá-los de lado, e nos concentrar nesta oração: “em Cristo é que falamos, na presença de Deus...”.

Em Cristo é uma expressão chave, que explica toda a realidade da nossa vida com Deus; ou melhor, da nossa vida em Deus, e da vida de Deus em nós.

Quero citar dois versículos nessa mesma carta que afirmam esta realidade.

2ª Co 5.17 - E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.

Estar em Cristo resulta em ser, e fazer parte, como nova criatura, de uma nova realidade, uma nova criação.

É ser uma pessoa transformada, de entendimento e sentimentos transformados.

2ª Co 13.5 - Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.

Examine-se a si mesmo, olhe para o seu interior; olhe para os seus pensamentos, seus sentimentos, os movimentos e inclinações da sua alma; examine o seu comportamento, as suas obras. Veja se você realmente crê em Jesus Cristo.

Ou você não consegue reconhecer se realmente Jesus Cristo está em você? Essas coisas recordam as palavras de Jesus:

Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós... Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós...5

Por um lado, dizemos que Cristo está em nós. Por outro, dizemos que nós estamos em Cristo.

Mas não é apenas “dizer”. É a realidade da nossa existência; a nossa união pela fé com Jesus Cristo, tão certo como o ar que nós respiramos.

Paulo não mede esforços para descrever o poder dessa realidade.

Em Romanos 6, ele diz que fomos unidos a Cristo na semelhança da sua morte, e também o seremos na semelhança da sua ressurreição. Em Cristo estamos vivos para Deus.6

Em Gálatas 2, lemos que “estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”.7

Em nossa união a Cristo como nosso representante na cruz, nós fomos justificados.

Em Cristo somos santificados.8

Em nossa união com Cristo, nós, que éramos inimigos de Deus em nosso entendimento, fomos reconciliados.9

Em nossa união com o Cristo ressurreto e entronizado no céu, nós, que estávamos mortos em nossos delitos e pecados, recebemos vida; fomos feitos reino e sacerdotes.10

Em Cristo temos acesso ao Pai celestial em oração.11

Em Cristo temos o Espírito Santo habitando em nós.12

Em Cristo temos paz no coração. 13

Todas essas coisas são tão reais que em Efésios ele diz: “Deus nos tem abençoado com toda a sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo Jesus”.

Assim como as aves voam no céu, e os peixes vivem na água, nós vivemos em Cristo, em união com ele.14

Conclusão e aplicação

Então voltemos ao v. 14.

Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo.

Crente em Jesus Cristo, você percebe o poder da tua vida? O significado e o propósito da tua vida?

Você é um soldado, e o teu general é Cristo.

Então, não importa quantos ferimentos e cicatrizes você traga na alma, no coração e no corpo. São marcas por estar na batalha de Cristo e com Cristo.

Ele diz:

No mundo, tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.15

Entenda que nada pode fazer de você um soldado derrotado.

Também não importa o quanto você seja moído, pilado; quanto mais isso acontece, mais você mostra ao mundo o que é conhecer a Deus.

Você é bom perfume de Cristo.

Onde quer que você esteja, em todo o lugar, a vida de Deus é vista em você.

Cristo habita em você, e você habita nele.

Você é um templo, um santuário vivo, a morada do Espírito de Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, do céu se manifestar, então seremos manifestados com ele, plenamente, e para sempre.

Avante!

_____________________________

Notas.

1 Smith, James K. A., A queda da interpretação (Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2021), pág. 25

2 Barclay, William, Comentário do Novo Testamento, (Ed. Eletrônica, sem data).

3 Zc 4.6, ARC

4 Is 55.11

5 Jo 15.4, 7

6 Rm 6.11

7 Gl 2.19, 20

8 1ª Co 1.2

9 Rm 5.10

10 Ef 2.1-10

11 Ef 2.18

12 Rm 8.9

13 Rm 5.1

14 Conf. o comentário de Francis Foulkes, Efésios, Introdução e Comentário, Série Cultura Bíblica, vol. 10 (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, s.d.)

15 Jo 16.33

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

As decisões de Rute - Rt 1

Mensagem de Domingo, 2 de março de 2024

Pr. Plinio Fernandes

Nos dias em que julgavam os juízes, houve fome na terra; e um homem de Belém de Judá saiu a habitar na terra de Moabe, com sua mulher e seus dois filhos. 2 Este homem se chamava Elimeleque, e sua mulher, Noemi; os filhos se chamavam Malom e Quiliom, efrateus, de Belém de Judá; vieram à terra de Moabe e ficaram ali. 3 Morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela com seus dois filhos, 4 os quais casaram com mulheres moabitas; era o nome de uma Orfa, e o nome da outra, Rute; e ficaram ali quase dez anos. 5 Morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando, assim, a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido. 6 Então, se dispôs ela com as suas noras e voltou da terra de Moabe, porquanto, nesta, ouviu que o SENHOR se lembrara do seu povo, dando-lhe pão. 7 Saiu, pois, ela com suas duas noras do lugar onde estivera; e, indo elas caminhando, de volta para a terra de Judá, 8 disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o SENHOR use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo. 9 O SENHOR vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido. E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz 10 e lhe disseram: Não! Iremos contigo ao teu povo. 11 Porém Noemi disse: Voltai, minhas filhas! Por que iríeis comigo? Tenho eu ainda no ventre filhos, para que vos sejam por maridos? 12 Tornai, filhas minhas! Ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: tenho esperança ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos, 13 esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas! Porque, por vossa causa, a mim me amarga o ter o SENHOR descarregado contra mim a sua mão. 14 Então, de novo, choraram em voz alta; Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. 15 Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. 16 Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. 17 Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti. 18 Vendo, pois, Noemi que de todo estava resolvida a acompanhá-la, deixou de insistir com ela. 19 Então, ambas se foram, até que chegaram a Belém; sucedeu que, ao chegarem ali, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres diziam: Não é esta Noemi? 20 Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. 21 Ditosa eu parti, porém o SENHOR me fez voltar pobre; por que, pois, me chamareis Noemi, visto que o SENHOR se manifestou contra mim e o Todo-Poderoso me tem afligido? 22 Assim, voltou Noemi da terra de Moabe, com Rute, sua nora, a moabita; e chegaram a Belém no princípio da sega da cevada.

Intr.

Depois que os israelitas conquistaram a terra prometida, e Josué faleceu, houve um período na história deles, que se tornou conhecido como o tempo dos juízes.

Isto porque não havia um governo central, e as tribos tinham uma autonomia muito grande. Elas só foram unidas muito tempo mais tarde, quando Davi foi coroado rei de Israel.

A Bíblia diz que neste período dos juízes, cada tribo, ou mais precisamente, cada um, fazia o que achava mais reto (Jz 21:25).

O que tornava Israel uma terra sem lei – quero dizer, a lei de Deus, era mui vagamente conhecida, e muito menos obedecida – sacerdotes corruptos, interesseiros, idolatrias, invasões inimigas, guerras e disputas entre as tribos, desordens, castigos divinos, eram a vida comum daqueles dias.

Mas o conhecimento de Deus não era totalmente ausente.

Pois quando o povo se arrependia dos seus pecados e se convertia ao Senhor, vinham tempos de refrigério.

O Senhor levantava um juiz, alguém para defender e governar o seu povo.

Só que o coração humano é terrível, e frequentemente, depois da morte do juiz, os israelitas voltavam aos seus pecados.

Bem, nós lemos aqui no v. 1, que nalgum período dos juízes, houve fome na terra de Israel – não sabemos se por razões climáticas, ou por invasões inimigas, o fato é que o povo estava passando fome.

Então, na pequena aldeia de Belém, também chamada Efrata, um homem decidiu tomar sua esposa, seus dois filhos, e migrar para o território de Moabe; uma nação a leste do Jordão, e onde as condições estavam melhores.

Elimeleque era o nome deste homem que, ou ficou endividado, ou hipotecou seu campo e saiu em busca de tempos mais tranquilos para os seus.

Partiram ele, sua esposa Noemi, e seus dois filhos Malom e Quiliom. Eram uma família temente a Deus.

Mas em Moabe, as coisas pioraram. Elimeleque faleceu, deixando Noemi e seus dois filhos.

Depois disso, cada um dos filhos se casou com uma mulher moabita: Malom se casou com Rute, e Quiliom se casou com Orfa.

Mas ambos também morreram, ficando as três viúvas, pobres e desamparadas.

Algum tempo depois, ouviram que o Senhor havia “se lembrado” do seu povo, e a terra de Israel tornara a ser produtiva.

Então a idosa Noemi decidiu voltar para Belém.

Saindo as três de casa, Noemi abençoou às suas noras, dizendo:

– Vão, minhas filhas, voltem cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor seja bondoso com vocês, como vocês foram com os que morreram e comigo. O Senhor conceda que se casem novamente, e sejam felizes, cada uma em casa de seu marido.

E beijou-as. Mas elas choraram em alta voz e lhe responderam:

– Não! Nós iremos contigo ao teu povo.

– Voltem, minhas filhas! Não tenho como dar a vocês novos maridos. Como iríamos nos sustentar?

– Fico triste demais que o SENHOR tenha descarregado contra mim a sua mão, e vocês, minhas filhas, estejam comigo nesta situação.

E choraram muito.

Então Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra; mas Rute se apegou a ela, e vendo Noemi que ela estava firme em sua decisão, foram residir em Belém.

Em Belém, Rute conheceu Boaz, um parente de Elimeleque, que as resgatou, pagando as dívidas da família e casando-se com ela.

Rute e Boaz tiverem um filho chamado Odede.

Odede teve um filho chamado Jessé.

Jessé teve um filho chamado Davi, que se tornou rei de Israel.

E Davi foi ancestral de Jesus, o nosso Rei.

Assim, quando mais tarde, Mateus conta o Evangelho, entre os ancestrais de Jesus figuram Rute e Boaz, cuja história de amor é contada aqui.

Por que devemos ler o livro de Rute?

Se não houvesse outra razão, este livro merece ser lido por si só, por ser uma história de amor familiar muito bonita, e muito bem contada.

Mas, além desta beleza literária, o livro de Rute deve ser lido, porque é Palavra de Deus, revelação de Deus, inspirada pelo Espírito, para que o conheçamos mais.

Na história de Rute nós vemos como a presença de Deus, em sua Providência, mesmo que quase invisível aos olhos humanos, pode ser discernida pelos eleitos.

Eles não deixam de crer em sua bondade, em sua fidelidade, em sua justiça e sabem que ele governa tudo no mundo inteiro, e não apenas em Israel.

Continuam a esperar naquele que é o Deus dos órfãos e das viúvas, que conduz as estações do ano, que alimenta ou retém o alimento das nações, em outras palavras, que conduz a história e segue com o seu plano de Salvação no mundo.

Também nos mostra que, mesmo sendo provados, podemos continuar temendo ao Senhor, e não fazer de nossos infortúnios motivos para descrer ou nos tornarmos rebeldes contra ele.

Outro motivo, é que este livro faz parte da história da Redenção.

Em Boaz, resgatando Rute e sua sogra, nós vemos um tipo, uma figura de Cristo, que nos resgataria dos nossos pecados, que cancelou nossas dívidas para com a justiça divina.

Na conversão de Rute, nós constatamos que o verdadeiro israelita, como diria Paulo, não são propriamente aqueles filhos de Abraão de acordo com a descendência humana, mas sim aqueles que são da fé.

Assim, Rute é um vislumbre de que, entre os judeus e os moabitas, entre os cananeus e os egípcios, entre todos os povos, Deus tem os seus escolhidos.

Mas hoje eu quero destacar a personagem que dá nome a este livro.

“Rute” significa “amizade”.

E ela mostra que o seu caráter não fugiu ao significado do seu nome. Eu quero voltar com vocês ao momento da despedida entre Noemi e suas noras.

vs. 14-17 – Então, de novo, choraram em voz alta; Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. 15 Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. 16 Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. 17 Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.

Prop.

Além de todos os motivos que já mencionei, quero mencionar mais dois motivos, pelos quais estou trazendo este capítulo de Rute para a nossa meditação de hoje.

Estamos no mês de março, em que oficialmente lembramos os direitos, as lutas, o valor do gênero feminino – Rute é uma das nossas heroínas, um exemplo digno para mulheres e homens.

Além disso, após a nossa meditação, e antes de celebrarmos nossa união com Jesus e sua igreja, através da santa ceia, iremos receber novos irmãos como membros da igreja.

Pessoas que têm dito: teu povo é meu povo; teu Deus é o meu Deus,

Vamos meditar sobre as fiéis decisões de Rute.

Divs.

1. Rute escolheu ficar com o povo do Senhor

– Rute, minha filha; faça como tua cunhada, e volte para sua mãe. Seja feliz.

– Não insista, Rute reponde. Onde a senhora for, eu irei também. Onde a senhora descansar, descansarei também. Onde for sepultada, eu também. Teu povo é meu povo...

Por um lado, Noemi era apenas uma viúva desamparada, nada tinha para oferecer a Rute, a não ser pobreza, necessidades, incertezas quanto ao futuro, numa terra desconhecida.

Por outro, Rute estava na sua terra, ainda tinha pai e mãe, um lar para o qual poderia voltar, como fizera Orfa, sua cunhada.

Também é patente que, em contraste com sua idosa sogra, Rute ainda era jovem, e poderia casar-se novamente.

Estou dizendo que Rute poderia voltar para os pais, casar-se novamente? Ela tinha esse direito.

Mas irmãos, acho que, por causa de uma coisinha só, ela não poderia.

O v. 14 diz que Rute se apegou a Noemi, isto é, o seu coração estava ligado à sogra. Ela amava à sua sogra.

E este apego de coração, levou-a também apegar-se ao povo do qual Noemi fazia parte.

Como Moisés, que diz o Espírito Santo, “pela fé preferiu ser maltratado com o povo de Deus, do que usufruir os prazeres transitórios deste mundo”, Rute preferiu deixar sua terra e sua parentela, e fazer parte do povo escolhido.

No caminho e no descanso. Na vida e na morte. Em todas as circunstâncias.

Um exemplo tão belo, que precisamos não nos esquecer, neste mundo de amores líquidos, de relacionamentos fáceis de serem descartados, de compromissos fáceis de serem dissolvidos, de superficialidades e mesquinhez.

É um sentimento digno, quando nos apegamos uns aos outros como irmãos no Senhor.

É um comportamento digno, quando não abandonamos o povo do Senhor, mas andamos juntos em nossa caminhada para a casa do Pai.

É um compromisso digno, quando dizemos à igreja do Senhor:

– Vocês são o meu povo, haja o que houver...

Ora, ser povo do Senhor naturalmente tem implicações muito fortes, sem as quais nada teria sentido.

E a maior de todas, nó vemos nesta outra escolha de Rute...

2. Rute escolheu o Senhor

– Teu povo é o meu povo. Teu Deus é o meu Deus...

Acho que algumas pessoas poderiam pensar:

– Mas isto não quer dizer que Rute tenha sido uma crente no Senhor. É que, naquele tempo, as nações, que eram politeístas, pensavam que em cada terra havia o seu “deus territorial”, que deveria ser adorado pelos moradores.

– Então, assim como em Canaã havia o “deus Baal”, em Amon, o “deus Moloque”, em Moabe havia o deus “Quemos”, assim em Israel havia o deus “Jeová”.

Mas não era assim que Rute pensava, nem a família da qual fazia parte.

Porque veja: em todo o livro, em todo o tempo, o Senhor é Deus de toda a terra.

Nos vs. 8 e 9 aqui, Noemi confessa que, mesmo em seus infortúnios, o nosso Deus é quem colocava a mão sobre ela.

No v. 13, que Jeová abençoaria suas noras, e as faria felizes na terra de Moabe.

No v. 17, Rute invocou o nome do Senhor como sua testemunha dizendo

– Faça o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte, me separar de ti...

A Bíblia nos ensina, irmãos, que antes de nós escolhermos a Deus, foi ele quem nos escolheu primeiro, quem nos amou primeiro, e nos atraiu para si, para pertencermos a ele.

Mas também nos ensina que, por causa deste amor, amor que muda o nosso coração, que quebra todas as nossas resistências, que nos converte a ele, nós o escolhemos também.

E é o que vemos refletido nas escolhas de Rute.

Ainda que fosse uma moabita, era uma escolhida do Senhor.

Como também Raabe, a ex-prostituta cananita. E Naamã, o sírio.

Um prenúncio daquela promessa de Jesus que diz:

– Muitos virão, do oriente e do ocidente, e tomarão lugares à mesa no reino dos céus, com Abraão, Isaque e Jacó (Mt 8:11).

Jesus, com o seu sangue, comprou para nosso Deus, gente de todas as tribos, línguas, povos e nações (Ap 5:9).

Rute, pois com Noemi, tornou-se uma adoradora do Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo.

Em Israel, foi resgatada por Boaz, amou e foi amada, amparou sua querida sogra, tornou-se célebre ancestral de Davi, e herdeira do reino dos céus.

Conclusão e aplicação

Como será bela a história do mundo, se por meio da fé em Jesus, os povos transformarem suas espadas e lanças em relhas, arados e podadeiras (Is 2:4).

Como será prazerosa esta vida, quando a terra se encher do conhecimento do Senhor Jesus.

Pois como diz o apóstolo Paulo, se a transgressão atual de Israel redundou em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude! (Rm 11:12).

E assim esperamos.

Mas nenhum de nós deve cruzar os braços, esperando a chegada deste dia.

Cada um de nós siga o exemplo de Rute, a moabita.

Cada um de nós tenha o povo de Deus como seu povo; a igreja de Jesus como sua família.

Cada um de nós tenha Jesus, como seu único e suficiente Senhor e Salvador.

domingo, 20 de setembro de 2026

A influência cristã no mundo - At 17.1-10

Pr. Plinio Fernandes

Mensagem de Domingo, 20 de setembro de 2026, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulos


Amados irmãos, vamos ler Atos 17.1-10

Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. 2 Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, 3 expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio. 4 Alguns deles foram persuadidos e unidos a Paulo e Silas, bem como numerosa multidão de gregos piedosos e muitas distintas mulheres. 5 Os judeus, porém, movidos de inveja, trazendo consigo alguns homens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba, alvoroçaram a cidade e, assaltando a casa de Jasom, procuravam trazê-los para o meio do povo. 6 Porém, não os encontrando, arrastaram Jasom e alguns irmãos perante as autoridades, clamando: Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui, 7 os quais Jasom hospedou. Todos estes procedem contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei. 8 Tanto a multidão como as autoridades ficaram agitadas ao ouvirem estas palavras; 9 contudo, soltaram Jasom e os mais, após terem recebido deles a fiança estipulada. 10 E logo, durante a noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia; ali chegados, dirigiram-se à sinagoga dos judeus.

Intr.

v. 6 – Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui.

Essa foi a artimanha difamatória que alguns judeus incrédulos, na cidade de Tessalônica, lançaram contra Paulo e Silas, pregadores do Evangelho.

Embora tenham falado por inveja, para caluniá-los e provocar tumultos, mentindo, dizendo que eram rebeldes contra o governo, o fato que eles deixam implícito aqui é que, onde a mensagem de Jesus chegava, as coisas mudavam, tanto individualmente, para os que recebiam a Palavra de Deus com fé, como na maneira como eles começavam a viver daí para frente.

E como uma pedra que jogada na água provoca ondas, assim também essas vidas transformadas inevitavelmente provocavam mudanças no mundo à sua volta.

Por exemplo, em Filipos os missionários expulsaram o demônio de uma jovem escrava que tinha um espírito de adivinhação.

Para a jovem, isso foi libertação, mas para “os senhores dela”, foi prejuízo econômico; então eles fizeram um tumulto tão grande na cidade que os missionários foram presos.

Em Éfeso, com a conversão do povo, os fabricantes de imagens é que tiveram prejuízo, o que novamente causou alvoroço, gritarias e perseguições.

Paulo e seus auxiliares, aonde chegassem, anunciavam o evangelho: ao povo comum, às autoridades judaicas e gentias, a ricos e pobres, a escravos e livres, a homens e mulheres.

E não havia como a Palavra de Deus voltar vazia: por um lado, muitos eram convertidos, deixavam seus ídolos, passavam a se reunir como um rebanho, em nome de Jesus para adorá-lo como Deus, para aprender uma vida nova.

Por outro lado, havia os que se sentiam prejudicados com isso, pois inevitavelmente, a presença da fé cristã estava mudando a ordem das coisas.

Nas igrejas, escravos e senhores sentavam-se juntos, lado a lado, e se chamavam de irmãos. As mulheres eram recebidas em pé de igualdade com os homens. O mesmo entre judeus e gentios. Em Cristo aprendiam a não mais fazer diferenças.

Transtornavam o mundo, pois mudavam maus costumes cultural e socialmente estabelecidos. Não com revoluções, não com rebeldia, não por força, nem por violência, mas pelo Espírito de Deus.

Na visão de muitos, a fé cristã prejudicava a sociedade; mas quando olhamos de longe, percebemos quão influente para o bem do mundo, tem sido a mensagem de Jesus.

Há muitos livros escritos a respeito disso: muitos, inclusive, acusando a Cristandade até hoje.

No primeiro e segundo séculos, pessoas que não entendiam a santa ceia diziam que os crentes eram canibais, pois comiam carne e sangue humanos; outros acusavam de incesto, pois os crentes se casavam com irmãs.

E é verdade que maus cristãos sempre existiram também, mas não por causa da Bíblia, e sim por falsas conversões, por perversões dos ensinos bíblicos.

Mas ao mesmo tempo, é claro como um dia ensolarado, que a fé cristã fez e faz bem para o mundo.

Prop.

Eu desejo focalizar apenas um aspecto doutrinário da nossa fé que tem transformado o mundo: o valor da vida humana.

No mundo greco-romano, “o indivíduo era considerado valioso apenas se fizesse parte do tecido político e pudesse contribuir para seus usos, como se a finalidade do ser humano fosse engrandecer o Estado. “ 1

Mas a fé evangélica mudou drasticamente essa visão. O homem passou a ser valorizado em si mesmo, como alguém que foi criado à imagem de Deus.

Hoje quase não conseguimos imaginar o poder dessa mensagem, mas creio que ele precisa ser relembrado, especialmente nesses dias sombrios, em que o autoritarismo ideológico e estatal se estabeleceu em muitas nações.

Quero citar apenas alguns exemplos de como a Palavra de Deus tem abençoado o mundo.

Divs.

1. O evangelho transforma a maneira de pensar sobre o valor das crianças

Várias práticas contra crianças, hoje reconhecemos serem criminosas; mas eram consideradas normais no mundo greco-romano.

A mudança no pensamento geral se deu pela influência do povo convertido a Jesus Cristo.

Uma das práticas malignas consideradas normais era o infanticídio de recém-nascidos

Então, se uma criancinha nascesse com alguma deficiência física, e considerada inútil para a sociedade, podia ser imediatamente estrangulada, ou atirada num precipício, ou afogada.

Isso era visto como natural e civilizado até mesmo por grandes filósofos como Cícero, Sêneca, Platão, Aristóteles.

O abandono de crianças – outra prática diabólica, mas comum e permitida, era o abandono de crianças indesejadas: eram abandonadas nos depósitos de lixo, nas florestas, nos desertos, para que fossam devoradas por animais e aves.

A prática do aborto também era aceita com naturalidade.

Naqueles dias, o que hoje chamamos “imoralidade sexual” fazia parte da vida com naturalidade.

Algum tempo atrás eu li sobre a pornografia (os comentaristas modernos chamam de arte erótica) na forma de afrescos na cidade de romana de Pompéia (aquela que o vulcão destruiu).

As cenas de relações sexuais de todos os tipos, as piadas sujas, espalhadas nas entradas e no interior das casas, nos muros da cidade, nos banhos públicos, os muitos bordéis. Tudo à vista de qualquer pessoa.

E não eram coisas tidas como imorais. Então a gravidez indesejada se multiplicava, e os abortos também.

Outra crueldade era a castração de meninos, para que fossem vendidos como escravos.

Agora, nós ficamos estarrecidos em constatar que essas, e muitas outras formas de crueldade com as crianças; mas não foram exclusividade da sociedade greco-romano.

Também acontecia em tribos africanas, em países da Ásia, entre os indígenas norte e sul-americanos, entre os astecas, os maias, entre os bárbaros da Europa.

Isso sem mencionar os sacrifícios humanos ao deus Moloque, na antiga Canaã.

Mas entre o povo da Antiga Aliança, e seus herdeiros da nova, cada criança, desde o momento da sua concepção, é considerada um ser criado à imagem e semelhança de Deus.

E o grande Deus, autor e consumador da Aliança, quando veio ao mundo disse:

Deixai vir a mim os pequeninos; não os embaraceis, porque dos tais é o reino dos céus.

E impondo as mãos, abençoava as criancinhas.

Por isso, desde cedo, todas essas coisas horrendas, essas depravações abomináveis, forma combatidas pelos crentes em Jesus.

Um dos livros mais antigos usados no discipulado, em preparação para o batismo no segundo século, é o chamado “Didaquê “. E nele se ordena aos discípulos do Senhor:

“Não mate a criança no seio de sua mãe, nem depois que ela tenha nascido. “2

Irmãos, a bem da verdade, esses crimes nunca foram totalmente erradicados do mundo. Assim como as coisas que apresentarei como exemplo depois.

Mas o modo de vida cristão, a doutrina acompanhada de ações concretas, foi determinante para que a sociedade como um todo viesse gradativamente a entender o pecado das várias formas de infanticídio e outros maus-tratos.

Primeiramente (a não ser em situações dificílimas, em que por exemplo, a mãe corre risco de vida), os cristãos bíblicos não praticam aborto. Digo bíblicos, pois há muitos que se dizem cristãos e não seguem a Bíblia.

Os cristãos condenam o aborto e qualquer forma de infanticídio.

Cada ser humano, mesmo que não plenamente desenvolvido, continua sendo humano, com uma alma eterna, criado à imagem de Deus.

Em segundo lugar, as famílias cristãs desenvolveram o hábito de adotar crianças rejeitadas.

Desde os primeiros séculos, as igrejas cristãs passaram até mesmo a criar programas de adoção; depois orfanatos.

Terceiro, os cristãos passaram a militar diligentemente, através de escritos teológicos e influência sobre os governos, para que essas práticas fossem proibidas.

Isso finalmente só foi proibido por lei no império romano quando, sob a influência do Bispo Basílio de Cesaréia, o imperador Valentiniano assinou um decreto.

E até hoje, em cada lugar do mundo em a mensagem de Jesus chega, ao constatar a prática de abusos contra crianças, os missionários ensinam, protestam, denunciam, cuidam das crianças, tirando muitas da prostituição, buscam a mudança das leis e costumes depravados.

Você deve se lembrar, por exemplo, da história que já estudamos aqui, de Amy Carmichael, a corajosa missionária que libertou muitíssimas crianças da escravidão na Índia.3

2. O evangelho transforma a maneira de se entender o valor das mulheres 4

As maiores vítimas de infanticídio na antiguidade eras meninas, cujo valor para o Estado era considerado secundário.

Assim, desde os mais influentes filósofos até o pai de família comum, a crença era de que as mulheres eram um tipo inferior de seres humanos.

Platão acreditava que as mulheres deviam de estar confinadas ao lar, enquanto os homens cuidavam dos negócios do Estado e do comércio.

Aristóteles ensinava que as mulheres eram inferiores aos homens, incapazes de pensamento abstrato e emocionalmente instáveis. Por essa razão, os maridos e os pais deviam governar as suas esposas e filhas.

Este pensamento reflete a atitude básica em relação às mulheres, durante o período da filosofia clássica.

Uma jovem grega, geralmente, era casada com um homem mais velho. O seu marido era livre para ter uma concubina, e o amor romântico não era esperado no casamento. O papel da esposa era gerar e criar filhos e administrar a casa.

Raramente saía de casa, e a sua educação limitava-se a aprender as tarefas domésticas. Não tinha permissão para possuir propriedades. E porque haveria de ter?

Eurípides, um dramaturgo, escreveu que “uma mulher é deficiente pelo intelecto “ e, Tucídides, um historiador, disse que “o nome de uma mulher decente, bem como a sua pessoa, deve ser trancado em casa “.5

Se um homem casado tivesse relações fora do casamento, isso não era considerado adultério dele. Mas se uma mulher fizesse isso, era considerada adúltera.

Por outro lado, a poligamia e o concubinato era aceitáveis até mesmo para os judeus.

Nós podemos observar, ainda que de modo menos escancarado, alguma atitude neste sentido até mesmo entre os discípulos de Jesus, quando, por exemplo, em Samaria, eles se admiram de que Jesus falava em público com uma mulher.

Mas ele não somente conversava; ele as tinha como discípulas; as tratava com respeito e compaixão, assim como fazia com todos os humildes de coração.

Jesus estabeleceu claramente que o casamento é entre um homem e uma mulher, e que o divórcio não é a perfeita vontade de Deus, a não ser quando houver infidelidade.

Na congregação de Jesus, as mulheres foram recebidas através do batismo. A igreja aprendeu a tratá-las com dignidade. Embora não possam ser pastoras, podem ministrar a Palavra de Deus, podem orar, coisas que antigamente eram proibidas.

E não somente mulheres infiéis são consideradas adúlteras, mas também os homens infiéis, pois não tem mais direitos do que elas.

Não tem sido, através dos tempos, uma mudança sem dificuldades, mas é inegável que a fé cristã mudou a visão da sociedade sobre o valor, a dignidade e os direitos da mulher.

Em muitos lugares do mundo, as mulheres ainda são vistas apenas como objeto de satisfação masculina.

Por isso, nalguns lugares da África a igreja continua lutando contra a prática da mutilação genital feminina.

Em algumas culturas, como um rito de passagem, mutilam cortando e costurando as mulheres, para que elas não tenham prazer sexual, e se mantenham puras.

Uma das práticas mais chocantes era o costume cultural indiano do sati, no qual as viúvas eram queimadas vivas juntamente com o marido morto.

Esperava-se que ela fizesse isso voluntariamente, mas se recusasse, muitas vezes era enviada à força para lá, até mesmo por seus filhos.

Se conseguisse escapar dessa instituição pagã, sua vida social era arruinada. Ela era tratada como uma “não-pessoa” – não apenas porque evitara a pira, mas também porque, entre os hindus na Índia, a vida de viúva era cultural e religiosamente desprezada.

Uma viúva só podia comer uma refeição por dia, realizar apenas tarefas simples e usar as roupas mais antiquadas; não podia mais dormir em uma cama; sua cabeça precisava ser raspada mensalmente para que ela fosse visível e indesejável para homens promíscuos; cerimônias religiosas e casamentos eram proibidos para ela; ela não podia ser vista por uma mulher grávida porque seu olhar poderia trazer uma maldição.

Como na Índia havia o costume de se noivar crianças com homens velhos, crianças viúvas, entre cinco e quinze anos estavam entre as queimadas vivas.

Em alguns casos, quando viúvas não eram queimadas vivas, eram enterradas vivas com seus maridos.

Mas a Índia não foi um caso isolado. A história mostra que viúvas também foram queimadas na Escandinávia, na China, na Finlândia, na Nova Zelândia, e por alguns índios americanos antes da chegada de Colombo.

Mas como diferente e humana é a visão sobre viúvas na Bíblia.

Jesus teve compaixão pela viúva de Naim, e ressuscitou o filho dela.

Repreendeu os fariseus, por se aproveitarem financeiramente das viúvas; elogiou a viúva pobre, que deu apenas duas moedinhas em sua oferta.

Paulo ordenou que os cristãos, especialmente os filhos e netos, honrassem suas mães viúvas.

Tiago escreveu que “a religião que Deus nosso Pai aceita como pura e sem falhas é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas aflições”.

Após a era do Novo Testamento, a preocupação com as viúvas na igreja continuou.

No início do século II, Inácio, bispo de Antioquia, escreveu:

“Não deixes que as viúvas sejam negligenciadas. Sê tu, depois do Senhor, seu protetor e amigo.”6

Após muitos anos de trabalho, os missionários cristãos conseguiram que a prática do sati fosse proibida na Índia.

Houve muitos protestos dos hindus. Quando a proibição entrou em vigor, muitos “gritaram que os alicerces da sociedade hindu seriam abalados se as viúvas não fossem queimadas vivas.”

Outros argumentaram que a proibição violava o Artigo 25 da constituição indiana, que concedia liberdade religiosa ao povo.

A proibição do sati ainda está em vigor hoje, mas há registros de que continua sendo praticado nalguns lugares. E há quem defenda a prática, com base nos direitos humanos de liberdade religiosa.

E o que dizer de certos “movimentos culturais”, que tratam as mulheres como animais e como objetos sexuais?

Por isso a luta continua.

3. O valor da liberdade

Eu quero destacar somente duas práticas culturais antigas que a fé evangélica levou séculos combatendo, e nalguns lugares, em suas variadas formas, combate até hoje.

O horroroso espetáculo dos gladiadores. A palavra “gladiador” vem de “gladio”, espada, e se refere aos que lutavam até a morte para a diversão das plateias.

Os jogos dos gladiadores eram espetáculos horrorosos patrocinados pelo Estado, ou por comerciantes influentes, para entreter à sociedade depravada no mundo antigo.

Um costume que teve início entre povos bárbaros, mas que ganhou um enorme apoio e se desenvolveu no império romano.

[Esses jogos] de gladiadores eram uma oportunidade para imperadores e patrícios ricos exibirem sua riqueza para a população, para comemorar vitórias militares, saudar a visita de autoridades importantes, celebrar aniversários ou simplesmente para distrair a população dos problemas políticos e econômicos do dia. 7

Além do coliseu em Roma, havia uns duzentos outros teatros espalhados pelo império, em que a população se reunia para assistir os homens lutarem uns com outros até à morte. E também lutas com feras.

Os gladiadores, na sua imensa maioria, eram homens escravizados, ou soldados derrotados em guerra, ou endividados. E alguns eram profissionais, que faziam por dinheiro.

Agora, você consegue imaginar homens e mulheres convertidos a Jesus convivendo tranquilamente com essa desgraça cultural e social?

Por isso não tardou, e os crentes começaram a combater, mas não com espada que mata, mas com a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.

Primeiro, é claro, os cristãos desprezavam esses espetáculos.

Em segundo lugar, não demorou para que escritores cristãos começassem a condenar a prática.

E terceiro, imperador Constantino, que se declarou cristão, no ano 325 fez um edito aos governadores dizendo:

“Em tempos em que há paz e calma política interna, não queremos manifestações sangrentas. É por isso que decretamos que não pode haver mais gladiadores. Aqueles que anteriormente foram condenados a se tornarem gladiadores por causa de seus crimes agora devem trabalhar nas minas. Desta forma, pagarão a pena pelos seus crimes sem ter que derramar o seu sangue.” 8

Finalmente em 404 d.C., o imperador Honório proibiu os jogos de gladiadores em todo império.

De acordo com o historiador Teodoreto, isso aconteceu quando Telêmaco, um monge cristão da Síria, saltou entre dois gladiadores para impedir o derramamento de sangue.

A multidão ficou indignada e apedrejou o monge até a morte.

Em consequência, o imperador proibiu definitivamente as disputas de gladiadores.

O terrível pecado da escravização. Essa tem sido uma das piores ervas daninhas na história da humanidade.

Mas ainda que até mesmo muitos cristãos esse é um pecado demorou a ser entendido como tal, há vários ensinamentos bíblicos que apontam desde cedo para o fim da escravidão.

O primeiro que desejo citar está num texto de Paulo a Timóteo, quando ele explica que a lei de Deus condena certos tipos de pessoas.

1ª Tm 1.8-10 - Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo, 9 tendo em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para transgressores e rebeldes, irreverentes e pecadores, ímpios e profanos, parricidas e matricidas, homicidas, 10 impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros e para tudo quanto se opõe à sã doutrina,

A expressão que desejo destacar é “raptores de homens”. No grego é uma palavra só. Algumas versões traduzem como “sequestradores”.

Agora me parece que a melhor versão é uma da Sociedade Bíblica de Portugal, que diz “traficantes de escravos”, pois na antiguidade o objetivo dos sequestros era fazer escravos.

Além disso, o evangelho ensina os senhores de escravos a tratá-los como irmãos. E por isso desde cedo, nas igrejas, não se considerava a classe social de alguém, para que pudesse fazer parte do povo de Deus.

Na igreja, escravos e livres eram batizados, tomavam a santa ceia juntos. E havia até mesmo escravos que eram pastores, presbíteros e diáconos.

Talvez uma das figuras mais proeminentes na história da abolição da escravatura no mundo ocidental tenha sido William Wilberforce. Ele não é um caso isolado, pois muitos crentes em Jesus, através dos séculos, têm lutado contra esse mal terrível.

Mas eu estou citando como exemplo, pois é um dos mais fortes.

Ele foi um parlamentar inglês nascido em 1759. Com trinta e um anos, tornou-se político. Em 1785, declarou-se cristão, na ala evangélica da Igreja Anglicana.

Dois anos depois começou sua parte na luta contra a escravidão. Digo sua parte porque muitos crentes abolicionistas trabalhavam juntos, comprando e libertando escravos, buscando a persuasão de parlamentares, pregando contra a escravidão.

Para Wilberforce, foram 41 anos de luta.

Em 1833, o parlamento inglês aprovou o Ato de Abolição da Escravidão. Três dias depois Wilberforce faleceu.

Mas como eu disse, ele não foi o único. Centenas de crentes, desde a antiguidade, ao entender o valor de cada vida humana, combateram e tem combatido a escravidão do homem pelo homem.

Conclusão

Quando o apóstolo João estava concluindo o seu Evangelho, ele disse que Jesus fez muitas coisas mais do que foram relatadas; mas que se fossem, nem todos os livros do mundo inteiro seriam suficientes. O que ele escreveu era suficiente para que nós creiamos que Jesus é o Cristo, e crendo, tenhamos vida em seu nome.

Acho que posso fazer um paralelo com a história das bênçãos que a doutrina de Jesus trouxe para o mundo.

A influência da fé cristã na educação, nas artes, nas ciências, na filosofia, na política, na criação de hospitais, é enorme e benéfica.

Não existe como escrever um livro que narre todo o bem que a fé cristã tem promovido.

Mas esse bem só se expande, essa influência só acontece, na medida em que o povo de Deus, seja como comunidade, seja individualmente, entende que deve submeter todas as esferas da vida humana ao senhorio de Cristo.

Aplicações

Eu quero fazer umas poucas, mas significativas aplicações para nós que aqui estamos.

Vou apenas citar sem comentar muito, três passagens bíblicas.

A primeiro delas está no livro de Daniel, um dos muitos jovens judeus que foram levados para o exílio na Babilônia, quando Jerusalém foi conquistada.

Daniel se mostrou uma pessoa muito santa, consagrada ao Senhor, e reconhecidamente sábio. Tanto que no exílio foi elevado à condição de conselheiro do rei Nabucodonosor.

Anos depois, no reinado de Ciro, o persa, também agiu como seu conselheiro. A história de Daniel cobre um período de mais de 60 anos.

O versículo que iremos ler retrata Daniel aconselhando o rei Nabucodonosor a praticar a justiça; do contrário Deus iria puni-lo.

Dn 4.27 – Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade.

O segundo texto está no livro de Ester: a história de uma rainha que foi instrumento de Deus para a salvação do povo judeu em tempos de perseguição na Pérsia.

Ester era uma judia que, pela providência divina tornou-se, nos tempos do exílio, esposa do rei Assuero, também chamado Xerxes.

Em seus dias, um homem ímpio, um certo Hamã, movido pelo ódio, quis exterminar o povo judeu, e fez colocou em ação várias armadilhas legais para alcançar seus intentos.

Mas o primo de Ester, Mordecai, avisou a rainha, pedindo que ele intervisse junto ao rei, para livrar seu povo.

A princípio Ester teve medo de se apresentar perante o rei para intervir, pois de acordo com a lei dos medo-persas, ninguém poderia comparecer sem ter sido chamado.

Então Mordecai insistiu, dizendo que a posição em que ela estava era estratégica.

Ester jejuou, pediu que jejuassem, e iria falar com o rei.

Nós conhecemos bem como, através de uma série de reviravoltas na história, o povo judeu pode se defender, e Hamã foi punido.

Et 4.13-14 - Então, lhes disse Mordecai que respondessem a Ester: Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus. 14 Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?

E o terceiro texto é uma orientação divina dada através do livro de Provérbios.

Pv 24.11-12 - Livra os que estão sendo levados para a morte e salva os que cambaleiam indo para serem mortos. 12 Se disseres: Não o soubemos, não o perceberá aquele que pesa os corações? Não o saberá aquele que atenta para a tua alma? E não pagará ele ao homem segundo as suas obras?

O que esses textos têm em comum?

Os primeiros dois falam a respeito de um homem e uma mulher de Deus que foram providencialmente colocados em posições de influência oficial diante de reis pagãos (uma palavra arcaica mas de claro sentido para nós: pessoas que desconheciam o Deus a quem servimos).

O terceiro se dirige a todos os crentes, isto é, a pessoas comuns, mas que têm conhecimento de alguém que esteja sendo oprimido, que precisa ser livrado. É dever de todo o crente fazer algo em favor dessa pessoa.

Mesmo num mundo pagão, os crentes podem ser expressivamente influentes na política, na vida cotidiana, na promoção da glória de Deus e na valorização do ser humano, criado à sua imagem.


________________________________

Notas

1 Richard Frothingham, The Rise of the Republic of the United States (Boston: Little, Brown, 1910), 6., citado em Schmidt, Alvin J., How Christianity changed the world (Grand Rapids, Mich.: Zondervan, ed. Epub 2009), cap. 2. Tradução minha.

2 Didaquê 2.2, em Coleção Patrística (São Paulo: Paulus, 1995, 2ª edição, formato eletrônico) vl. 1

3 Benge, Geoff e Janet, Heróis cristãos ontem e hoje, Amy Carmichael (São Paulo: Shedd Publicações, 2018).

4 Toda esta parte foi quase integralmente transcrita de Schmidt, Alvin J., op. cit. cap. 4. Tradução minha.

6 Inácio a Policarpo, 4.1, em Coleção Patristica (São Paulo: Paulus, 1995, 2ª edição, formato eletrônico) vl. 1

8 Id.

domingo, 13 de setembro de 2026

O senhorio de Cristo e as eleições - Rm 13.1-10

Mensagem anunciada em 13 de setembro de 2026, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos

Pr. Plinio Fernandes

Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. 2 De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. 3 Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, 4 visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. 5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. 6 Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. 7 Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. 8 A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei. 9 Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 10 O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor.

    Intr.

   Daqui a três semanas nós, povo brasileiro deveremos comparecer às urnas para a eleição do presidente da república, de senadores e deputados federais que comporão o congresso nacional, de governadores e deputados estaduais.

   Por isso, irmãos, eu achei por bem voltar-me para esse texto da Palavra do Senhor, pois, ao contrário do que muitos poderiam pensar, entendemos que como crentes em Jesus, sal da terra e luz do mundo, temos um papel importantíssimo nessa hora também.

   Desde o início do cap. 12 aqui desta carta, o apóstolo Paulo está nos ensinando sobre o modo de vida que devemos cultivar, uma vez que conhecemos as misericórdias de Deus por meio do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

   Então, começando com o nosso relacionamento com Deus, a quem nos oferecemos para servir, depois, sobre o uso dos nossos dons e nossos relacionamentos uns com os outros como igreja, e também com os de fora, aqui no cap. 13 ele ensina sobre a nossa atitude em relação às autoridades governamentais.

  Não é necessário abordar as várias formas de governo que existem, pois as orientações de Paulo sempre seriam as mesmas; então iremos direto aos ensinos que ele nos transmite aqui, e suas implicações para nós como crentes, não de modo geral, mas mais especialmente nesses dias cruciais em que estamos vivendo.

  O célebre teólogo reformado, Abraão Kuyper sintetizou a nossa visão cristã sobre o senhorio de Cristo naquela conhecida frase:

“Não há um único centímetro quadrado em toda a extensão da vida humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: É meu!”

   Prop.

E o que ele disse concorda com o ensino que temos nesse texto: que os governos das nações estão sob o senhorio de Cristo.

Embora não tenhamos como abordar tudo o que a Bíblia nos ensina sobre esse tema, eu quero destacar pontos importantes para esta hora.

   Divs.

   1. Devemos entender que as autoridades governamentais são estabelecidas por Deus

v. 1 – Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas.

   Esse é um ensino fundamental de nossa atitude diante dos governos.

   O senhorio de Cristo não é limitado aos crentes, ou à igreja, isto é não é somente na esfera da salvação eterna.

  Jesus Cristo é Senhor sobre todos, sobre tudo o que existe, nos céus e na terra, as coisas visíveis e as invisíveis.

   Inclusive Jesus Cristo é o governador supremo de todas as nações. É o rei das nações.

   É certo que as afirmações de Paulo aqui, em relação às autoridades descrevem o que pode ser aplicado a todas as nossas instituições sociais: a família, a escola, a igreja.

   Mas nesse texto ele está se referindo mais especificamente às autoridades governamentais.

   A autoridade é uma decorrência natural da própria sociedade e socialização humanas; desde a criação, quando o Senhor disse que o ser humano deveria governar a terra.

   E o Senhor também estabeleceu que, entre os seres humanos, governadores da terra, em suas famílias, os de sexo masculino seriam os líderes, e os de sexo feminino, as auxiliadoras.

  Mais tarde, o apóstolo Paulo explica que o homem deve ser o líder, porque Deus criou primeiro o homem, e depois a mulher; a mulher por causa do homem, e não o homem por causa da mulher.

   Isso nada tem a ver com machismo, despotismo ou dominação de um sexo sobre o outro, pois ambos são à imagem de Deus, igualmente dignos, idôneos, e complementares: os homens não vivem sem as mulheres, e as mulheres, não sem os homens.

   E assim como a mulher procede do homem, assim o homem da mulher.

   Mas é que toda a organização social, começando com a família, necessita ordem, direção, propósito.

  Onde existe anarquia, isto é, onde cada um faz o que acha melhor, o resultado é desintegração relacional e social.

   Então, desde o começo do mundo, na medida em que as sociedades se desenvolveram e organizaram (os dois ao mesmo tempo), sempre houve uma hierarquia de autoridade, visando o bem comum.

   Mesmo que não houvesse pecado, existiria governos.

   E naturalmente esses governos estariam submissos à autoridade maior, que é o Senhor.

  Mas depois que o pecado passou a ser parte da natureza humana, a necessidade de autoridades se tornou maior ainda.

   Por isso, assim como, mesmo depois do pecado, Deus não anulou a autoridade na família, também não o fez na sociedade.

   Mas passou a descrever com clareza quais os deveres das autoridades, para restabelecer a ordem.

   Uma das coisas que o Senhor fez ao estabelecer Israel como uma luz para as nações; foi dizer que os reis de Israel não deveriam ser como os demais: deveriam meditar e ser obedientes à lei; não poderiam se enriquecer, multiplicando para si cavalos, nem ter muitas esposas, nem ser déspotas tiranos sobre o povo; não deveriam ser parciais, não poderiam aceitar subornos nem subornar alguém, não deveriam ser orgulhosos, mas governar com justiça, defender os humildes, defender a nação.

   Neste sentido, o Antigo Testamento chama os reis e juízes de pastores de Israel, que governavam em nome de Deus.

   Eles deveriam ser modelos que tipificavam o próprio Senhor Jesus Cristo, nosso grande rei-pastor.

   É com fundamento na revelação de Deus sobre o assunto, que Paulo diz: “toda a autoridade procede de Deus”.

   Toda as autoridades foram instituídas por Deus.

   Toda autoridade é ordenação de Deus.

   Essa linha de pensamento nos conduz então, à segunda afirmação do apóstolo aqui em nosso texto.

   2. Devemos entender que as autoridades são ministros de Deus

   Nos vs. 4 a 6, Paulo usa a frase “ministros de Deus” três vezes.

...visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. 5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. 6 Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço.

   Três observações aqui.

   A primeira é que as autoridades são ministros, isto é, servos de Deus, gente colocada a serviço dele, para fazer o que Deus quer.

  Mesmo na antiguidade do Oriente Médio, na qual a democracia não era conhecida, sempre havia dois sustentáculos para que alguém governasse com legitimidade: a ordenação de Deus (ou deuses, entre os povos pagãos) e o assentimento do povo.

   Vocês se lembram, por exemplo, que Davi foi ungido pelo Senhor como rei de Israel ainda bem jovem; mas somente se tornou efetivamente rei anos mais tarde, depois que Saul morreu e o povo, primeiro as tribos do sul, e oito anos depois as tribos do norte, reconheceram ele como rei.

   O que eu quero destacar é que, embora hoje o nosso sistema de governo seja algo diferente, a teologia é a mesma: embora o regime seja republicano, isto é, o povo esteja envolvido mais diretamente na eleição, quem estabelece as autoridades é o Senhor. De acordo com essa visão bíblica, o povo é instrumento de Deus.

   A segunda observação: as autoridades são estabelecidas para promover o bem do povo.

   É ministro de Deus para o teu bem.

   Para promover a justiça em todos os aspectos da vida da sociedade.

   Em nosso país, mesmo sendo simplistas, descrevemos assim.

   O poder legislativo compete ao congresso nacional (deputados e senadores) discutem estabelecem ou alteram as leis, tendo como fundamento a constituição.

   O poder executivo (a presidência da república com todos os seus ministérios e secretarias) faz executar as leis.

   E o poder judiciário vigia para que as leis sejam cumpridas.

  Os três poderes se complementam e zelam para que a lei seja cumprida e a ordem seja mantida.

  Eles têm como objetivos o bem-estar social, garantir a dignidade humana, o desenvolvimento da nação.

  Isso inclui a qualidade da vida intelectual e profissional, a saúde, a segurança pública, a defesa da nação.

   Agora, tudo isto deve ser produzido, cultivado, desenvolvido, à luz da perspectiva divina.

   Terceira observação: outra função das autoridades como ministros de Deus é refrear a injustiça.

v. 4 - Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.

   Vejam, irmãos, que o apóstolo diz que o governo, como ministro de Deus, é vingador contra os que praticam o mal.

   Nós, como cristãos, somos proibidos de nos vingar.

Rm 12.19 - não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor.

   Nós não devemos fazer justiça com as nossas próprias mãos.

   Por isso, entre outras coisas, a menos que a lei estabeleça certas condições, nós crentes, não devemos andar portando armas.

   Já pensou se nós andássemos cada um andando com uma arma na cintura?

   A Bíblia diz que o poder da espada é dado às autoridades.

   Quando Paulo diz aqui que as autoridades têm o poder da espada, não está simplesmente falando que ele era a favor da pena de morte, o que aliás é algo a respeito do qual muitas pessoas ficam confusas, mas que não temos como abordar no momento.

   O que Paulo ensina é que as autoridades têm o dever e o poder coercitivo para impedir os que praticam o mal. Não somente impedir, mas também punir.

   A função primária é promover o bem-estar social de todos os cidadãos; mas aqueles cidadãos que, ao contrário, promovem a desordem, o crime, que cometem o mal, o governo tem o dever e o poder de refrear.

   Significa que os criminosos têm que ser punidos. Significa que os honestos têm que viver seguros.

  O Senhor Deus ama a justiça e odeia o crime.

   – Pastor, essas coisas são bonitas como um ideal, mas, alô, pastor, planeta terra chamando.

   – O problema é que muitos governos, se não a maioria, não são o que deveriam ser. Não têm o temor de Deus. São injustos, corruptos, maus. Como lidar com isso?

   E respondendo a essa pergunta, irmãos, quero abordar o terceiro ensino de Paulo aqui.

   3. Devemos entender nossas responsabilidades diante das autoridades

   Além do nosso entendimento do papel dos governantes

  O nosso papel é de submissão. E por submissão quero dizer apoio, obediência, sustento, e também influência cristã, para que a autoridade possa cumprir a missão dada por Deus.

   Eu quero começar pelo versículo 7

v. 7 – Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.

   A palavra honra, valor, também pode ser entendida como honorários, pagamento pelo serviço realizado.

  As duas coisas são necessárias: as autoridades devem ser respeitadas como tal, reconhecidas, e são dignas de remuneração à altura das suas responsabilidades.

   Por isso pagar impostos e taxas é justo, e dever de todos nós, de acordo com as leis.

“Dai a césar o que é de césar.”

   Agora, voltando ao v. 1, Paulo ordena sujeição, submissão, obediência.

 Se não houver submissão às autoridades, a alternativa é a anarquia. Aliás, há muitos que são declaradamente anarquistas. E não percebem que a filosofia deles, eles mesmos não querem que os outros pratiquem.

   A sujeição ao governo é necessária para a manutenção da lei e da ordem.

  Mas é necessário também, irmãos, que essa sujeição, ou submissão, ou obediência, seja bem entendida.

   Submissão não é obediência cega. É estar sob a missão da autoridade.

   Já tenho enfatizado que a autoridade é estabelecida por Deus com a missão de cuidar do povo.

   E nós, povo, temos o dever de ajudar as autoridades no cumprimento da sua missão.

   Isso implica, além de honrar, reconhecer, sustentar, obedecer.

   Mas uma vez que submissão não é obediência cega, se as autoridades se desviarem da sua missão, o nosso dever é ajudá-las a voltar, ou então, se não houver remédio, a trocar.

   Eu quero fazer analogias com duas outras instituições sociais: a família e a igreja.

   Primeiro consideremos a família.

   Deus estabeleceu que o marido seja o líder (a menos, é claro, que esteja ausente, o que não deixa de trazer sofrimento); a esposa se submete à liderança do marido, e os filhos, à liderança dos pais. O que Deus uniu, o homem não deve separar. O casamento é uma instituição permanente. Deus odeia o divórcio.

   Mas, e se o marido, ou pai, apesar a fidelidade da esposa, ultrapassar os limites de sua autoridade e for um devasso, cruel, déspota?

   Se o marido for, repetidas vezes, infiel à sua esposa? Ela tem a obrigação de continuar casada?

   E se ele desejar se separar? A mulher fiel tem a obrigação de continuar casada?

   Ou se ele for violento com ela ou com os filhos? E se for um abusador? Ou um ladrão, sequestrador, ou traficante?

   Deus ainda assim ordena que a família permaneça em sujeição?

   Agora pensemos na igreja.

   A Bíblia diz que os fiéis devem honrar, obedecer e se submeter aos seus pastores. Mas a condição é que os pastores sejam fiéis à Bíblia sagrada, a Palavra de Deus.

   Se não for assim, a igreja tem o direito e o dever de corrigi-lo; se não conseguir a correção, buscar outro pastor. Se não houver remédio, o crente tem o direito e o dever de procurar outra igreja.

   Da mesma forma, o crente diante das autoridades governamentais.

   O crente tem o dever de apoiar, obedecer, cumprir seu papel como cidadão, influenciar para o bem, e se for sua vocação, sendo também alguém no governo.

   Primeiro, o crente deve, na medida do possível, influenciar positivamente para que o governo promova o bem-estar e a justiça.

   Como Daniel influenciou tão beneficamente as cortes da Babilônia, e depois Medo-persa.

   Mas se o governo impõe leis que contrariem a Palavra de Deus, o dever do crente é resistir a essas leis.

   Se por um lado Daniel dava bons conselhos, por outro, desobedecia quando as leis contrariavam a lei do Senhor.

   Por isso é que foi parar na cova dos leões. Por isso seus amigos foram jogados na fornalha.

   Não estou falando de resistência generalizada, mas especificamente naquelas coisas que contrariam a Palavra de Deus.

   No que contraria, o crente deve resistir, na proporção que for necessária.

“Antes importa obedecer a Deus do que aos homens.”

   Mas eu preciso acrescentar: em nosso país, assim como em todos os países que se prezam, a autoridade máxima não está no presidente, nem no parlamento, nem no judiciário. Está na Constituição. O que eu quero dizer é que se as autoridades instituídas violam a constituição, estão cometendo crime. E devem ser tratadas de acordo com a constituição.

   Então é direito e dever do povo denunciar, protestar, e reivindicar que as autoridades sejam punidas.

    Há uma história no Antigo Testamento que ilustra bem o que desejo dizer.

    Ela está registrada em 2º Crônicas 26, e trata de Uzias, rei de Judá.

    Os vs. 3 a 5 o descrevem como um jovem rei que começou muito bem, pois fez o que era reto perante o Senhor, e levou o reino à prosperidade.

    No v. 15, que Uzias foi maravilhosamente ajudado, e se tornou forte.

    Mas veja a partir do v. 16. Vamos ler até o v. 19.

2ª Cr 26.16-19 -  6 Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração para a sua própria ruína, e cometeu transgressões contra o SENHOR, seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso. 17 Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, com oitenta sacerdotes do SENHOR, homens da maior firmeza; 18 e resistiram ao rei Uzias e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o SENHOR, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para este mister; sai do santuário, porque transgrediste; nem será isso para honra tua da parte do SENHOR Deus. 19 Então, Uzias se indignou; tinha o incensário na mão para queimar incenso; indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu na testa perante os sacerdotes, na Casa do SENHOR, junto ao altar do incenso.

   Conclusão

  Eu quero concluir, irmãos, mencionando duas grandes motivações para nosso interesse nessas eleições.

   O primeiro, no v. 5.

É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência.

  A nossa consciência, atendendo o mandamento de Deus, exige que reconheçamos, honremos, mantenhamos e sejamos submissos às autoridades. O que implica votar conscientemente, buscando que nossos governantes sejam o mais plenamente possível instrumentos de Deus na vida da nação.

  O segundo, no v. 8.

A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei.

   Nós temos uma dívida de amor para com todas as pessoas. Uma dívida de amor para com a igreja, e devemos buscar o seu bem-estar, que só pode acontecer se o país estiver em paz, com ordem e progresso.

   Uma dívida de amor com a nossa mãe Pátria, pela qual oramos.

   Uma dívida de amor para com o governo.

   Acima de tudo, uma dívida de amor para com Jesus Cristo, nosso Rei, que deseja ser reconhecido por todos.

   Aplicações

   Eu quero concentrar nossa aplicação neste momento que estamos vivendo.

   Daqui a três semanas, dia 4 de outubro, deveremos comparecer às urnas.

   Ao votar, irmão, leve algumas coisas em consideração, fazendo as seguintes perguntas para si mesmo:

   Esse partido, esse candidato, que leis ele tem proposto, que projetos ele tem proposto, de que maneira ele tem se portado? A maioria deles é bem conhecida por sua vida pública, de modo que podemos sim, avaliar.

   Ele é a favor da lei e da ordem? Alguns partidos e políticos são contrários à existência da força policial. Paulo era a favor ou contra?

   Esse partido ou candidato, o que ele pensa sobre o aborto? Sobre a ideologia de gênero?

   Esse partido, ou candidato, o que faz em favor dos trabalhadores, e dos que precisam de emprego?

   O que faz, em favor do sistema de saúde? Da segurança nacional? Da educação?

   Suas medidas estão conforme a Palavra de Deus?

    E no que diz respeito a questões morais, por que deveríamos levar isso em conta na hora de votar? Se o governo deve servir democraticamente, não deve permitir que cada um faça o que achar melhor? Não seria impor nossos próprios valores sobre os outros?

  Irmãos, estamos falando da vontade de Deus, e não simplesmente a nossa; se Deus não for considerado, e ele é sempre bom e justo, a vontade de Satanás se imporá – e não tem como o ser humano se comportar como se Deus não existisse.

   É que tudo aquilo que desagrada a Deus o faz se afastar.

   Irmãos, eu sei que, quando Nabucodonosor conquistou Judá, isso procedeu de Deus.

   Mas porque Deus entregou Jerusalém nas mãos de Nabucodonosor? Por causa dos pecados do povo. Se o povo não fizesse o que é mal aos olhos do Senhor, Nabucodonosor não os conquistaria.

   Nós elegeremos os legisladores do próximo mandato.

  Elegeremos o presidente da república. O presidente, por sua vez, indicará, o Congresso examinará e aprovará ou não, para que o presidente nomeie 4 novos ministros do Supremo Tribunal Federal.

   Eu não quero “Nabucodonosores” em nosso governo. Mas pra isso, preciso fazer minha parte.

  Se, apesar de eu fazer minha parte, Nabucodonosor for colocado no governo, então, deverei assim mesmo amar e ser bom cidadão. Mas sei que a nação sofrerá.

   Oremos e votemos com muita seriedade.

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