Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR, Deus dos Exércitos. Jeremias 15:16

Mostrando postagens com marcador Discernimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Discernimento. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de julho de 2014

Alma restaurada - Sl 19:7

IPC em Pda. de Taipas
Domingo, 13 de julho de 2014
Pr. Plínio Fernandes

BAIXE EM PDF      BAIXE EM EPUB                                                                                                           
Meus queridos irmãos, vamos ler o Salmo 19
Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.  2 Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.  3 Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; 4 no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol, 5 o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho.  6 Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor.  7 A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices.  8 Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos.  9 O temor do SENHOR é límpido e permanece para sempre; os juízos do SENHOR são verdadeiros e todos igualmente, justos.  10 São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos.  11 Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa.  12 Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas.  13 Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão.  14 As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu!
Neste salmo o Espírito Santo nos ensina a amar a Palavra de Deus, nos mostrando o quanto ela é poderosa em trazer bênçãos para nossa vida: ela restaura nossa alma, nos dá sabedoria, alegra nosso coração, ilumina os nossos olhos, isto é, nos dá discernimento, compreensão.
Ela é mencionada de diversas formas, e cada uma delas revela um dos seus aspectos.
É a lei do Senhor: literalmente, “instrução”, a orientação de Deus, sobre como devemos viver.
Ela é “o testemunho do Senhor”: nos fala dele, nos revelando quem ele é, o seu caráter, as suas obras.
Também é chamada “os preceitos do Senhor”: o que ele estabeleceu como norma para nossa vida. É “o mandamento do Senhor”.
E “o temor do Senhor”: ela nos ensina amar e respeitar a Deus
A lei do Senhor, além de ser perfeita, restaura a nossa alma: restaura nossa alma porque nos conduz à fé em Jesus Cristo, nos dá novas esperanças, nova razão de viver, nos ensina a enxergar as coisas do ponto de vista de Deus, aquele cujos pensamentos são melhores, cujo entendimento é perfeito; a palavra do Senhor nos ensina a amar a Deus.
A lei do Senhor restaura nossas almas. Para nosso aproveitamento, quero fazer algumas considerações acerca desta restauração da alma.
1. O que é “alma”?
Esta palavra é empregada com diversos sentidos na Bíblia:
Em Dt 12:23, a palavra se refere ao sangue de todos os animais, porque no sangue é que está a vida, ele é o veículo através do qual a vida corre pelo nosso corpo. Em Gn 46:22,27 se refere ao ser humano como pessoa. Em Lv 22:3, refere-se à vida. Em 1ª Ts 5:23, à nossa capacidade intelectual.
Mas na maior parte das vezes, a palavra alma se refere àquele aspecto espiritual, imaterial do nosso ser:
Ap 6:9,10
9 Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam.  10 Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?
“Alma é a parte imaterial de nosso ser”, o nosso homem interior, imortal, a sede de nossos pensamentos, de nossos sentimentos, de nossa vontade, que, conforme o livro do Apocalipse, e Lucas, e Paulo, todos transmitindo o ensino de Jesus, vai morar na presença de Deus, após a nossa morte.
Ela é a fonte, a habitação de todos os aspectos interiores de nossa natureza: a sede da vontade, das decisões, dos sentimentos, da capacidade intelectual.
Se está escrito que a lei do Senhor restaura nossa alma, isto quer dizer que, sem a Palavra de Deus, a nossa alma está precisando de restauração. Sem a Palavra de Deus, que é perfeita, a nossa alma é imperfeita, incompleta. Sem a Palavra de Deus, nossa psique está enferma. Há feridas interiores carentes de serem pensadas. O óleo curador do Espírito precisa ser derramado.
Ora, todos os seres humanos, em maior ou menor medida, têm suas feridas interiores: seus sentimentos de infelicidade, de culpas pelos pecados cometidos, seus sentimentos de ansiedade, de depressão, de rejeição, até mesmo de autorrejeição, de solidão, de abandono.
Pois nossa alma é extremamente sensível, e a cada dia, os nossos próprios pecados, os pecados de outras pessoas contra nós e contra a vida, todo o mal que nos cerca, nos ferem interiormente, nos desintegram por dentro, nos separam de Deus e de nosso semelhante.
Falando a respeito de sua própria experiência, o apóstolo Paulo escreveu:
“o bem que desejo fazer, não faço, o mal que não desejo, esse faço...miserável homem que sou...” [1]
Jeremias, acerca do juízo que estava para vir sobre o seu povo rebelde contra o Senhor escreveu:
“Ah, meu coração... as paredes do meu coração...” [2]
Feridas da alma. Mas veja: há remédio para a alma enferma: a lei do Senhor restaura a alma A Palavra de Deus é o meio através do qual ele penetra em nosso coração para nos curar.
E quando a Palavra de Deus começa a penetrar, é como um tratamento que se inicia, de sorte que a cada dia nossa alma vai se tornando mais robusta, vigorosa, resistente. Ela se torna feliz, satisfeita, capaz de enfrentar as vicissitudes da vida.
Porque a Palavra de Deus cura as feridas e nos torna melhores interiormente.
2. Eu gostaria de mencionar algumas características de almas restauradas pela Palavra de Deus
Num certo sentido, este assunto é inesgotável, pois existem muitos aspectos nos quais nossa alma precisa restauração, e portanto, são muitos os aspectos nos quais a Palavra do Senhor restaura nossa vida. Mas eu quero me deter nalguns poucos exemplos ilustrativos.
2.1. Alma restaurada, alma sadia, é aquela que sabe lidar com as frustrações que a vida oferece
Porque, o que é frustração? É desapontamento, é decepção causada pela privação de um desejo ou de uma necessidade. É quando desejamos ou necessitamos algo que não acontece. É quando nossas expectativas não são alcançadas.
Ora, neste sentido, todos nós somos pessoas sujeitas constantemente às frustrações: às vezes a frustração do desemprego; às vezes a frustração de uma enfermidade; às vezes a frustração de um relacionamento mal resolvido; e muitas outras coisas.
E quando nossa alma não está sadia, a nossa reação também é insana – é a murmuração, é a amargura, é o ressentimento, é a depressão.
Amados, Deus não quer isso para nossa vida. Jesus morreu na cruz, Jesus foi ferido em nosso lugar para que nossas almas sejam sadias, fortes. Ele morreu por nós, não para que vivamos cheios de dores na alma, de problemas não resolvidos. Ele se entregou por nós para que tenhamos vida em abundância.[3]
Quero citar um exemplo da alma sadia neste sentido
Fp 1:15-18
15 Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; 16 estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; 17 aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias.  18 Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei.
Quando Paulo escreveu estas coisas, os irmãos sabem, ele estava preso, acusado do “crime de pregar o evangelho”.
E isto motivou muitas pessoas de boa índole a ter coragem para pregar também. Mas nem todos o fizeram de boa mente. Havia daqueles que, movidos de inveja e partidarismo, o faziam para de alguma deixar o apóstolo atribulado, pois poderia parecer que Paulo fracassava, enquanto eles prevaleciam no ministério.
Mas Paulo não se deixou manipular por estes estratagemas de Satanás. Ao contrário, viu nisto mais uma maneira de o seu grande desejo se cumprir: o nome de Jesus estava sendo pregado, e assim, honrado. E isto é o que lhe importava. Isto é ter uma alma sadia: enxergar as vicissitudes, do ponto de vista de Deus.
Fp 4:11-13
11 Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.  12 Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; 13 tudo posso naquele que me fortalece.
Alma contentada. Mesmo na prisão, mesmo passando por privações, desconforto e necessidades, uma alma satisfeita, em toda e qualquer situação, que não se sentia derrotada.
E isto nos conduz ao próximo pensamento...
2.2. Uma alma que aprendeu a amor incondicionalmente, ou, colocado de outro modo, que sabe lidar com a rejeição
Quero citar outro exemplo: Samuel
1º Sm 8:6,7
6 Porém esta palavra não agradou a Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei, para que nos governe. Então, Samuel orou ao SENHOR.  7 Disse o SENHOR a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele.
Este capítulo está nos contando o que aconteceu depois que Samuel, homem de Deus, juiz e profeta em Israel, se tornou idoso.
Depois de muitos anos servindo fielmente ao seu povo, os israelitas, vendo que ele estava velho, e que seus filhos não seguiam nos mesmos caminhos que o pai, pediram que Samuel lhes desse um rei para que o governasse.
Samuel ficou muito contrariado, pois a motivação dos israelitas estava errada. Eles queriam um rei para serem iguais aos outros povos (v.5). E orou a Deus buscando orientação.
E a resposta do Senhor foi esta: “Faça o que eles estão pedindo; pois não é a você, mas a mim que eles estão rejeitando”.
E Samuel atendeu. Saul foi ungido rei sobre Israel.
Algum tempo depois, quando convencidos que haviam pecado contra Deus, os israelitas pediram que Samuel orasse por eles. A resposta do profeta está em 1º Sm 12:23
Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o SENHOR, deixando de orar por vós; antes, vos ensinarei o caminho bom e direito.
Uma alma sadia é uma alma que ama sem se destruir. Veja o comportamento de Jesus:
Mc 10:21,22
21 E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me.  22 Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades.
O evangelho está nos contando aqui sobre um homem que procurou a Jesus desejoso de conhecer o caminho da salvação. E Jesus lhe mostrou.
Com muito amor o Senhor lhe disse: “Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, ajunte tesouros no céu. E siga-me”.
Mas o homem tinha muitos bens, e era nestas coisas que estava o seu coração. Então ele se afastou e não seguiu a Jesus.
Amados, sabem o que Jesus fez diante disto? Lamentou e comentou com seus discípulos sobre o triste estado espiritual dos que amam as coisas deste mundo.
Mas não se sentiu culpado pelo desamor do homem rico. Não correu atrás, como um evangelista frustrado que sente que deve ceder diante das pessoas, para ganhá-las para o reino de Deus.
Simplesmente continuou a ensinar com o mesmo amor de sempre, mas sem “desmoronar interiormente”.
2.3. Uma alma que sabe que está neste mundo, servindo a Deus sem se preocupar com a competição com os outros
Vivemos numa sociedade altamente competitiva, na qual as pessoas são estimuladas constantemente a se comparar com as outras, e incentivadas a se colocarem acima das outras.
Mas a alma daquele que está satisfeito, que está bem com Deus, não sente necessidade de estar acima dos outros, não sente necessidade de competir – sua satisfação é a de estar no lugar onde Deus quer.
De novo, o exemplo de Paulo
2ª Co 10:12
Porque não ousamos classificar-nos ou comparar-nos com alguns que se louvam a si mesmos; mas eles, medindo-se consigo mesmos e comparando-se consigo mesmos, revelam insensatez.
2.4. Uma alma que sabe dizer não às tentações: José
Gn 39:6-12
6 Potifar tudo o que tinha confiou às mãos de José, de maneira que, tendo-o por mordomo, de nada sabia, além do pão com que se alimentava. José era formoso de porte e de aparência.  7 Aconteceu, depois destas coisas, que a mulher de seu senhor pôs os olhos em José e lhe disse: Deita-te comigo.  8 Ele, porém, recusou e disse à mulher do seu senhor: Tem-me por mordomo o meu senhor e não sabe do que há em casa, pois tudo o que tem me passou ele às minhas mãos.  9 Ele não é maior do que eu nesta casa e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?  10 Falando ela a José todos os dias, e não lhe dando ele ouvidos, para se deitar com ela e estar com ela, 11 sucedeu que, certo dia, veio ele a casa, para atender aos negócios; e ninguém dos de casa se achava presente.  12 Então, ela o pegou pelas vestes e lhe disse: Deita-te comigo; ele, porém, deixando as vestes nas mãos dela, saiu, fugindo para fora.
Uma alma que não precisa provar nada prá ninguém, que não cede diante das pressões, que resiste ao tempo.
3. Como ter uma alma assim
3.1. Conheça a Palavra de Deus
O segredo de José
Gn 41:15,16
15 Este lhe disse: Tive um sonho, e não há quem o interprete. Ouvi dizer, porém, a teu respeito que, quando ouves um sonho, podes interpretá-lo.  16 Respondeu-lhe José: Não está isso em mim; mas Deus dará resposta favorável a Faraó.
José ainda não tinha a Bíblia, mas buscava suas respostas em Deus.
O segredo de Samuel
1º Sm 3:10
10 Então, veio o SENHOR, e ali esteve, e chamou como das outras vezes: Samuel, Samuel! Este respondeu: Fala, porque o teu servo ouve.
Samuel ouvia a Palavra de Deus
O segredo de Paulo
1ª Co 2:12,13
12 Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente.  13 Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais.
O segredo de Jesus
Jo 8:55
Entretanto, vós não o tendes conhecido; eu, porém, o conheço. Se eu disser que não o conheço, serei como vós: mentiroso; mas eu o conheço e guardo a sua palavra.
Todos eles tinham isto em comum: contato íntimo com a Palavra de Deus. Nem sempre no mesmo sentido do Salmo 19, a lei do Senhor por escrito, pois alguns viveram em épocas nas quais a revelação ainda não estava escrita, mas sempre em contato com a Palavra de Deus, e assim o Deus da Palavra.
Este também era o segredo de Daniel, e Elias, e Davi, e os apóstolos...
3.2. Pense de acordo com a Palavra de Deus
2ª Co 10:4,5
4 Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas 5 e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo…
Pensar de acordo com o mundo é pecado. Conduza seus pensamentos à obediência de Cristo.
Uma das frases que mais ouço é: “Não posso”. Outra: “Não consigo”. Não duvido da sinceridade destas pessoas, mas preciso dizer que estão acreditando numa mentira.
O Espírito Santo nos ensina a dizer: “posso todas as coisas naquele que me fortalece...”.
3.3. Pratique a Palavra de Deus
Hb 5:14
Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.
1ª Tm 4:7
Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas caducas. Exercita-te, pessoalmente, na piedade.
Exercite-se na obediência à Palavra do Senhor. Exercite-se na oração. Exercite-se no amor. Exercite-se na adoração.




[1] Veja Rm 7:19 e segs.
[2] Jr 4:19
[3] Jo 10:10

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Não julgueis, para que não sejais julgados - Mt 7:1-5

Igreja Evangélica Presbiteriana
Domingo, 22 de julho de 2012
Pr. Plínio Fernandes
Amados, vamos ler Mateus 7:1-5
1 Não julgueis, para que não sejais julgados. 2 Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. 3 Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? 4 Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? 5 Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão.
Estamos chegando agora à última parte do “Sermão do Monte”, este maravilhoso conjunto de ensinamentos que Jesus, o nosso Senhor e Salvador, o Deus que se fez carne, ministrou aos seus discípulos nos primeiros dias de seu ministério.
E neste sermão o Senhor está apresentando o que é ser um cristão, um discípulo dele. Ele mostra, antes de qualquer coisa, que ser cristão é justamente isto: uma questão de “ser”. Não é tanto uma questão de “fazer”, ou de “ter”, é antes um modo de ser. E descreve então seus discípulos como pessoas muito especiais, porque são pessoas muitos especiais para Deus – são pessoas a quem Deus alcançou com sua graça infinita. Pessoas a quem foram dados os dons da humildade, do arrependimento, da fé, da misericórdia, da paz, da mansidão, da busca pela santidade, da pureza, da alegria mesmo em meio ao sofrimento.
E depois de, nos primeiros momentos de sua mensagem o Senhor expor aquilo que seus seguidores são em seu ser interior, ele passa a explicar o estilo de vida, o comportamento que irá manifestar aquilo que os discípulos são interiormente. Através de muitas ilustrações, exemplos e mandamentos, o Senhor nos diz a maneira como devemos viver, à altura de nossa vocação.
É dentro deste contexto, falando com gente agraciada, abençoada, perdoada, que ele acrescenta esta injunção: “Não julgueis, para que não sejais julgados...” Nestas duas orações, o Senhor nos ensina sobre nosso relacionamento uns com os outros e também o nosso relacionamento com Deus.
Não é que o “não julgar” seja a base para sermos ou não julgados por Deus. É que o “julgar” ou “não julgar” são atitudes, ou mesmo expressões de comportamento, que revelam o tipo de pessoas que somos – se somos realmente pessoas que vivem na graça de Deus, ou se somos pessoas que estão afastadas de Deus; revelam o nosso relacionamento com Deus, conforme veremos mais detalhadamente
Então hoje nós iremos meditar nestas palavras de Jesus – “Não julgueis”. Desejo tecer três considerações a respeito do assunto.
1. O que significa julgar, ou julgamento
As palavras julgar, ou julgamento, são traduções de palavras que têm um significado bem aproximado da maneira como são usadas em nossa língua portuguesa.
Julgar pode ser traduzido, conforme o contexto, como avaliar, discernir, examinar, compreender, peneirar, separar. E também pode ser traduzida como julgar, acusar, falar injuriosamente, criticar, condenar, menosprezar, desprezar.
Vejam: elas podem ser usadas nas Escrituras com duas denotações diferentes – tanto positiva quanto negativamente; isto é, há um sentido em que é certo, correto e desejável que julguemos; e também há um sentido em que julgar é uma atitude completamente errada e pecaminosa.
1.1 - Vejamos rapidamente alguns exemplos de seu uso positivo
1ª Co 2:13-15
13 Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais.14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.15 Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém.
1ª Co 14:29
“Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem”.
Note as palavras que denotam avaliação: “conferindo”, “entendê-las”, “discernem”, “julga”.Então “julgar”, no sentido de avaliar, conferir, discernir, fazer diferença entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, “usar a cabeça” é algo que se espera do crente.
O crente não é um “crédulo”, alguém tão simples que simplesmente aceita tudo, sem critérios. O próprio Jesus, logo em seguida à instrução de não julgar, acrescenta, no v. 6 - “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os as vossas pérolas...”. Depois, a partir do v. 15, nos instrui no sentido de que devemos tomar cuidado com os falsos profetas. Sem considerar o fato de que, desde começo do sermão, Jesus nos adverte várias vezes que a nossa vida não deve ser como a dos escribas e fariseus, nem como a dos gentios que não conhecem a Deus.
Todas estas instruções que Jesus nos dá implicam o uso da faculdade do discernimento, do uso de nossa mente de maneira crítica, analítica. Como iremos saber diante de quem devemos ou não lançar as preciosidades da doutrina e da vida cristã, sem ter o discernimento?  Como iremos nos acautelar dos falsos profetas, se não tivermos a capacidade de avaliar?
1.2 - Mas, naturalmente que, quando nosso Senhor está ordenando: “Não julgueis”, ele não está usando a palavra em seu sentido positivo
“Não julgueis”, não significa “não avalie, não pense, não tenha discernimento”. Antes, significa: “Não assuma a posição de juiz”.
2. Vejamos algumas instâncias desta denotação negativa
2.1 - Julgar é errado quando se trata de levar em conta apenas o que é aparente
Is 11:3
“Deleitar-se-á no temor do SENHOR; não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos”.
Esta é uma das mais belas descrições do governo justo de nosso rei; do Messias. Não julgará segundo a vista dos seus olhos: não julgará segundo as aparências. Nem repreenderá segundo o ouvir de seus ouvidos, mas julgará com justiça. Isto porque nosso Senhor tem a capacidade de ir mais longe do que é apenas aparência. Ele chega ao coração. Veja o que ele disse a Samuel, numa ocasião em que profeta estava inclinado a julgar o valor dos homens pela sua aparência:
1º Sm 16:7
“Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração”.
Ele sabe o motivo, o porquê dos comportamentos, a visão que a pessoa está tendo da vida, o discernimento que lhe foi dado, de tal modo que ela age como age.
Agora a pergunta que eu faço é: “Temos esta mesma capacidade de nosso Senhor? Temos a capacidade de sondar e saber o que se passa no coração do nosso irmão, ou do nosso próximo?” Não temos; ao contrário. Mas o que muitas vezes temos, irmãos, é muita presunção, muita falta de amor, e somos então capazes de rotular logo as pessoas – “hipócritas”, “fariseus”, “legalistas”, “libertinos”. Mas as aparências enganam.
Um pastor que eu conheço me contou que, em certa ocasião sua esposa pediu que ele comprasse uma latinha de cerveja, que ela queria usar numa receita de frango. Então, em obediência ao mandamento de ir ao supermercado comprar cerveja, ele foi. Quando seu filhinho o viu com a latinha, perguntou: “Pai, o senhor é pastor! Tomando cerveja!?” Então ele explicou o porque. Nem sempre as coisas são como parecem aos nossos olhos, não é? Nem sempre as coisas são como ouvimos os outros dizerem.
As aparências enganam.
2.2 - Julgar também é errado quando se trata de difamar, ou falar injuriosamente
Tg 4:11,12
11 Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal do irmão ou julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; ora, se julgas a lei, não és observador da lei, mas juiz. 12 Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és, que julgas o próximo?
Tg 5:7-10
7 Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas. 8 Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima. 9 Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas.
Tiago associa o pecado do julgamento com os pecados do falar mal e da impaciência. Quando diz que falar mal do irmão é falar mal da lei, naturalmente está se referindo à lei do Antigo Testamento, onde, por exemplo, está escrito “Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo... Eu sou o Senhor” (Lv 19:16). É uma maneira de dizer: “A palavra de Deus não presta para ser obedecida”.
Veja a sentença do Senhor contra os que praticam isto:
Sl 50:20, 21
20 Sentas-te para falar contra teu irmão e difamas o filho de tua mãe. 21 Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista.
Lembram-se do que o Senhor fez a Miriam, por ter falado contra Moisés? Lembram-se de que ela ficou leprosa, e que a nação inteira foi impedida em sua jornada por sete dias, mesmo depois que Moisés orou por ela, pedindo a Deus que perdoasse? Deus não tem prazer na fala condenatória, no falar injurioso.
2.3 - Julgar também é errado quando se trata de “condenar”, de não ter misericórdia.
Tg 2:12,13
12 Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade. 13 Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo.
O juízo é apresentado como contrário à misericórdia e à liberdade. Então neste contexto julgar é não ter misericórdia, é condenar. Também é colocar sobre alguém um jugo, uma lei que Deus não colocou, privá-lo de sua liberdade.
Por exemplo, a atitude que os fariseus tinham para com Jesus, e também para com os notórios pecadores, era uma atitude de julgamento condenatório, sem misericórdia. Em João 8:1-6, na história da mulher que foi apanhada em flagrante adultério, os judeus, aparentemente, estavam manifestando zelo pela lei de Deus. Então lemos que eles levaram a mulher adúltera até o Senhor Jesus. Mas o grande propósito que eles tinham era arranjar alguma desculpa para acusarem a Jesus de alguma coisa errada. O alvo deles era a acusação; não a vontade de Deus.
O que Jesus diz ser a vontade de Deus:
Mt 9:10-13
10 E sucedeu que, estando ele em casa, à mesa, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e seus discípulos. 11 Ora, vendo isto, os fariseus perguntavam aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? 12 Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. 13 Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento.
 3. Três razões pelas quais não devemos julgar
3.1 - Quando julgamos, estamos nos condenando a nós mesmos
Rm 2:1
“Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas”.
NVI - “... você, que julga os outros é indesculpável, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas”.
Nós podemos ampliar o significado deste versículo a partir do significado da palavra julgar:
Você, que julga... Você, que não tem misericórdia do seu irmão... Você, que condena seu irmão... Você que fala mal de seu irmão... Você que não tem paciência por causa das falhas do seu irmão, por causa das fraquezas dele, por causa dos pecados dele, você pratica as mesmas coisas... pois você também é pecador, de uma forma ou de outra...
3.2 - Quando julgamos, nos tornamos tropeço para nossos irmãos
Rm 14:13
“Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão”.
Em todo o contexto, Paulo está discutindo a questão de nossa liberdade em Cristo, a necessidade de amor uns pelos outros, o deixar de lado toda a atitude de nos julgarmos uns aos outros, o deixar o nosso irmão viver para Deus de acordo com sua fé e sua consciência. Alguns são mais fortes na fé; outros são mais fracos; alguns impõem certas leis para si mesmos; outros não – mas a intenção de todos é servir ao Senhor. Sendo assim , devemos nos acolher uns aos outros, não para ficar com discussões.
Rm 14:1
“Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões”.
Também não podemos nos desprezar uns aos outros.
Rm 14:10
“Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus”.
Julgamento e desprezo: um se julga superior aos outros. Devemos não ser tropeço na vida uns dos outros.
3.3 - Quando julgamos, estamos querendo assumir o lugar de Deus
Tg 4:11,12
11 Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal do irmão ou julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; ora, se julgas a lei, não és observador da lei, mas juiz. 12 Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és, que julgas o próximo?
Qual foi o pecado do diabo? Querer assumir o lugar de Deus. Não existe nada mais diabólico do que querer ser igual a Deus. Um crente, quando julga ao seu próximo, está querendo assumir o lugar de Deus. Está se tornando diabólico. A religião nunca se torna tão diabólica como quando deseja ser mais bíblica do que a Bíblia. Quando os homens impõem sobre seus irmãos um jugo que Deus não colocou.
Conclusão e aplicação
No v. 6, Jesus nos diz que “não devemos dar as coisas santas aos cães”. Depois, a partir do v. 15, ele nos ensina que devemos julgar os profetas, isto é, avaliar se eles realmente estão nos ensinando da parte de Deus, ou se são mestres em quem não devemos confiar e cujas doutrinas não podemos seguir.
Além disto, Jesus não nos diz que, se algum irmão estiver vivendo em pecado não podemos falar com ele sobre isto. Mais tarde, em Mateus 18, ele diz que se nosso irmão estiver persistindo em seu pecado nós devemos arguí-lo.
Como fazer estas coisas, como exercer o juízo, sem cairmos no pecado condenado aqui por Jesus? A resposta está no v. 5:
Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão
Aqui Jesus nos dá a solução para não cairmos no pecado da condenação, tornando-nos assim pessoas hipócritas: que nós estejamos primeiramente tratando com os nossos próprios pecados.
Como disse Paulo no contexto da santa ceia, se nós tomarmos o cuidado de nos julgarmos a nós mesmos, não seremos condenados (1ª Co 11:31, 32).
Quando nós nos julgamos a nós mesmos estamos nos humilhando na presença do Senhor, estamos nos corrigindo e aprendendo a graça de Deus. Ensinados pela graça, podemos ajudar a outras pessoas, sem condenar.

Assim nos tornamos instrumentos da graça de Deus. Promovemos o reino do céu no coração das pessoas que Deus coloca em nossa vida.
▲Topo