Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR, Deus dos Exércitos. Jeremias 15:16

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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Daniel: o custo de ser um imitador de Jesus

Igreja Evangélica Presbiteriana
Sexta feira, 20 de janeiro de 2012 – Noite de vigília
Pr. Plínio Fernandes
Queridos irmãos, vamos ler alguns versículos em Daniel
Dn 7:28
Aqui, terminou o assunto. Quanto a mim, Daniel, os meus pensamentos muito me perturbaram, e o meu rosto se empalideceu; mas guardei estas coisas no coração.
Dn 8:27
Eu, Daniel, enfraqueci e estive enfermo alguns dias; então, me levantei e tratei dos negócios do rei. Espantava-me com a visão, e não havia quem a entendesse. 
Dn 9:3, 4
3 Voltei o rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza. 
4 Orei ao SENHOR, meu Deus, confessei e disse: ah! Senhor! Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos
Dn 10:2, 3
2 Naqueles dias, eu, Daniel, pranteei durante três semanas. 
3 Manjar desejável não comi, nem carne, nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas inteiras.
Dn 10:8, 9
8 Fiquei, pois, eu só e contemplei esta grande visão, e não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não retive força alguma.
 9 Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo-a, caí sem sentidos, rosto em terra.
Nos últimos quatro meses, desde o primeiro domingo de setembro, o Senhor nos tem abençoado com sua Palavra dada através do livro de Daniel.
Este homem tem sido usado por Deus para nos falar de Jesus, através das visões proféticas que recebeu e registrou.
Também nos tem demonstrado de forma viva, irrefutável mesmo, que a Bíblia é a Palavra de Deus, pois ela se cumpriu nos dias do profeta, cumpriu-se nos tempos posteriores, até à primeira vinda de Jesus, e por isto sabemos que se cumprirá, até à sua volta.
Este livro tem nos demonstrado, de forma clara, a respeito de Deus: de seu poder, sua grandeza, sua majestade, sua santidade e justiça, seu amor e sua graça.
Tem nos ensinado que o Deus a quem servimos é o Rei do universo, Senhor Soberano sobre tudo e sobre todos.
Javé é quem governa a História, quem controla todos os acontecimentos das nações e os eventos da vida particular de cada ser humano. Ele forma até mesmo os pensamentos do coração de cada um de nós.
De forma livre, mas não injusta; de forma poderosa, sábia e bondosa, ele exalta a quem quer, e humilha a quem quer.
Em suas mãos estão a vida e a morte, a saúde e a enfermidade, a riqueza e a pobreza, e conforme seus inescrutáveis propósitos ele as distribui a cada um.
Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Quem foi o seu conselheiro? E quem pode lhe perguntar: “Que fazes?”. Porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas.[i]
Mas, ao mesmo tempo, e “sem nos pedir desculpas” por nossa incapacidade de entender certos paradoxos, este livro também nos ensina que somos seres livres para agir de acordo com a nossa natureza.
Somos seres morais, responsáveis diante de nosso Criador.
Não somos robôs, e em nosso dia a dia fazemos escolhas de acordo com nossa vontade. Escolhas que podem ser boas ou más, certas ou erradas, que agradam ou não ao Soberano Senhor do universo.
E há um dia especial, preparado por Deus, em que todos nós compareceremos perante ele, a fim de prestarmos contas de toda a nossa vida.
Este livro também nos ensina que nós, responsáveis diante de Deus, não podemos fazer bem algum, se não for pela assistência da graça divina.
Pois somos fracos, limitados, pecadores, inclinados ao mal, violadores de sua aliança, desobedientes às suas leis, desde o mais íntimo do nosso coração, e por isto merecedores da ira, do justo juízo de Deus.
Mas que o Senhor, por sua graça, na morte do seu Ungido, propiciou a expiação dos nossos pecados e a justiça e eterna.
Ele nos ensina que se buscarmos a Deus, de toda a nossa alma, não somente somos perdoados, mas recebemos dele o poder espiritual necessário para uma vida que lhe seja agradável, santa, justa, vitoriosa sobre o mal que existe em nós e no mundo.
Pois aquele que conhece o seu Deus se torna forte e ativo. Como Daniel.
Não entendemos, irmãos, que devamos desejar ser como Daniel no sentido de ter o mesmo temperamento, os mesmos dons miraculosos, as mesmas experiências místicas, mas no sentido de, assim como ele, conhecer a Deus, andar com Deus, viver com Deus, e assim ser um imitador de Cristo.
O apóstolo Paulo escreveu: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” [ii]. 
Devemos ser imitadores dos santos do passado, no sentido de que eram imitadores de Cristo.
Dizemos que Daniel era um imitador de Cristo porque, ainda que tenha vivido vários séculos antes, era um homem que conhecia e amava profundamente a Deus e sua Palavra (a Bíblia que ele tinha, isto é, a lei e os profetas – porque Deus e sua Palavra são duas coisas inseparáveis).
Ele confiava, ele obedecia, ele era fiel. E por causa disto, e da mesma forma, Daniel também era inseparável da igreja, como Cristo e sua igreja são inseparáveis.
Daniel amava profundamente a Igreja Antiga. Orava por ela, chorava por ela, identificava-se com ela, confessava seus pecados perante o Senhor, jejuava por ela, buscava a graça de Deus em seu favor, gastava-se, dava a ela seu coração, sua vida.
É sobre isto que desejo meditar com os irmãos nesta noite: o preço de ser parecido com Jesus.
Pois se você procura ser um imitador de Jesus, há um preço que se paga.
1. Daniel, para viver a vida que desejava, pagava um preço emocional, psicológico – por ser um homem ligado ao céu
Eu sei que nalguns círculos, fazer a afirmação de que devemos “pagar o preço” é uma “verdadeira heresia”.
Pois nos dizem que Jesus já pagou o preço, e nós não precisamos fazer nada para pagar. Que no tempo da lei, sim, havia necessidade de obras, mas que agora é diferente, porque estamos no tempo da graça.
Então não é mais tempo de jejuar. Não é mais tempo de fazer sacrifícios. Nem mesmo é mais tempo de sofrer.
Há um sentido, irmãos, em que estar no reino de Deus não custa nada. Pois nada além do sangue de Jesus é necessário. E o sangue de Jesus é o pagamento suficiente, ao qual nada pode ser acrescentado.
Mas há um sentido em que fazer parte do reino de Deus custa tudo. É como o tesouro achado no campo, a pérola de grande valor, os quais, para se conseguir, é necessário que se entregue tudo.[iii]
Ora, o ensino bíblico é que nem Daniel, nem qualquer outro homem, em toda a História da Redenção, em qualquer época, conheceu a Deus, teve comunhão com ele, andou nos seus caminhos, a não ser pela graça de Deus.
Nunca foi através de uma vida sem pecado, mas somente através da graça mediante a fé.
Daniel foi salvo, andava com Deus e vivia em santidade, pela graça mediante a fé. E Davi, e Moisés, e Abraão, e todos os outros.
Mas cada um destes homens se esforçava nas coisas de Deus, lutava pelas coisas de Deus, muitas vezes até à exaustão.
Por isto que vemos Daniel dizendo que diante das palavras das Escrituras, e diante das revelações angélicas, por vezes ele ficava perturbado por semanas, ficava amedrontado e atônito, a ponto de desfalecer.
Eu quero citar para você o exemplo de Asafe. De muitas maneiras este servo de Deus nos abençoa através dos seus salmos.
Vamos ler o Salmo 77
1 Elevo a Deus a minha voz e clamo, elevo a Deus a minha voz, para que me atenda.
2 No dia da minha angústia, procuro o Senhor; erguem-se as minhas mãos durante a noite e não se cansam; a minha alma recusa consolar-se.
 3 Lembro-me de Deus e passo a gemer; medito, e me desfalece o espírito.
4 Não me deixas pregar os olhos; tão perturbado estou, que nem posso falar.
5 Penso nos dias de outrora, trago à lembrança os anos de passados tempos.
6 De noite indago o meu íntimo, e o meu espírito perscruta.
7 Rejeita o Senhor para sempre? Acaso, não torna a ser propício?
8 Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações?
9 Esqueceu-se Deus de ser benigno? Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias?
10 Então, disse eu: isto é a minha aflição; mudou-se a destra do Altíssimo.
11 Recordo os feitos do SENHOR, pois me lembro das tuas maravilhas da antiguidade.
12 Considero também nas tuas obras todas e cogito dos teus prodígios.
13 O teu caminho, ó Deus, é de santidade. Que deus é tão grande como o nosso Deus?
14 Tu és o Deus que operas maravilhas e, entre os povos, tens feito notório o teu poder.
15 Com o teu braço remiste o teu povo, os filhos de Jacó e de José.
16 Viram-te as águas, ó Deus; as águas te viram e temeram, até os abismos se abalaram.
17 Grossas nuvens se desfizeram em água; houve trovões nos espaços; também as suas setas cruzaram de uma parte para outra.
18 O ribombar do teu trovão ecoou na redondeza; os relâmpagos alumiaram o mundo; a terra se abalou e tremeu.
19 Pelo mar foi o teu caminho; as tuas veredas, pelas grandes águas; e não se descobrem os teus vestígios.
20 O teu povo, tu o conduziste, como rebanho, pelas mãos de Moisés e de Arão.
Observe a luta emocional deste homem.
Asafe está nos dizendo que ele anelava por ver a obra de Deus se realizando em seus dias.
Nos primeiros quatro ou cinco versículos nos diz que de dia e de noite não se cansava de orar. Levantava suas mãos e sua voz, e clamava para que o Senhor o atendesse.
Pensava nas coisas de Deus e ficava gemendo. Meditava, e o seu coração desfalecia.
Sua alma recusava-se a ser consolada com as coisas do mundo.
Às vezes, para nos livra-nos das nossas aflições, recorremos a expedientes ordinários, com algo que nos distraia – isto às vezes pode ser bom, mas se nos distraem de buscar a Deus, se tornam saídas demoníacas.
Nos vs. 6-9 ele diz que seu coração ficava tão perturbado, pois parecia que Deus havia mudado.
Ele não queria sossegar enquanto Deus não atendesse. Ficava perturbado.
De noite indago o meu íntimo, e o meu espírito perscruta.
Rejeita o Senhor para sempre? Acaso, não torna a ser propício?
Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações?
Esqueceu-se Deus de ser benigno? Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias?
Mas será que Deus muda?
A partir do v. 10 ele diz que se estava pensando assim, sua mente estava doente.
E passa a se lembrar de quem Deus é:
v. 13 – O teu caminho, ó Deus, e de santidade...
Deus não muda. Ele não nos rejeita (Veja Is 41:9). Ele não deixa de ser propício (não deixa de expiar nossos pecados). Ele não afasta a sua graça. A sua ira dura só um instante (Sl 30:5)
Mas veja: até chegar a isto ele sofreu, ficou perturbado, lutou com Deus.
Pense em Lutero, em Spurgeon, em “todos” os que foram e são usados por Deus.
Então havia o desgaste psicológico, o sofrimento emocional.
2. Além disto, havia o preço de “uma vida de luta”.
Apartava-se das coisas cotidianas, simples e gostosas da vida, jejuava por semanas inteiras, meditava nas Escrituras, orava três vezes ao dia, separava-se de coisas que até mesmo inocentemente, poderiam atrapalhar a sua busca de Deus.
Vamos ler sobre alguns outros:
Jacó – Gn 32:22-31
22 Levantou-se naquela mesma noite, tomou suas duas mulheres, suas duas servas e seus onze filhos e transpôs o vau de Jaboque.
23 Tomou-os e fê-los passar o ribeiro; fez passar tudo o que lhe pertencia,
24 ficando ele só; e lutava com ele um homem, até ao romper do dia.
25 Vendo este que não podia com ele, tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a junta da coxa de Jacó, na luta com o homem.
26 Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares.
27 Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó.
28 Então, disse: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste.
29 Tornou Jacó: Dize, rogo-te, como te chamas? Respondeu ele: Por que perguntas pelo meu nome? E o abençoou ali.
30 Àquele lugar chamou Jacó Peniel, pois disse: Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva.
31 Nasceu-lhe o sol, quando ele atravessava Peniel; e manquejava de uma coxa.
Segundo o apóstolo Paulo, em Romanos 9[iv], Jacó é um dos mais claros exemplos da soberana graça de Deus em nossa salvação. Pois Jacó nem havia nascido ainda, e Deus disse que já o escolhera.
Com efeito, irmãos, se Jacó dependesse de sua bondade para ser salvo, estaria perdido, assim como cada ser humano.
Pois Jacó bem merecia o nome que tinha: Jacó – enganador, usurpador. Mas o texto nos conta como um homem chamado Jacó foi transformado num homem chamado Israel – Campeão com Deus, Príncipe com Deus (se Deus é rei, Israel é príncipe).
Veja novamente os versículos 26-28:
26 Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares.
27 Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó.
28 Então, disse: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste.
Eu acho linda a maneira como a Bíblia nos apresenta esta pessoa de quem Jacó busca a bênção.
No v. 24 diz que um homem lutava com ele, até o romper do dia. No vs. 28 e 30, diz que este homem era Deus. Ora, “ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”.[v]
Jacó estava “lutando” com o Cristo pré-encarnado.
Lutou a noite inteira. Lutou até conseguir a bênção.
Agora vejamos Moisés – em Êxodo e Deuteronômio
Êx 32:11-14
11 Porém Moisés suplicou ao SENHOR, seu Deus, e disse: Por que se acende, SENHOR, a tua ira contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com grande fortaleza e poderosa mão? 
12 Por que hão de dizer os egípcios: Com maus intentos os tirou, para matá-los nos montes e para consumi-los da face da terra? Torna-te do furor da tua ira e arrepende-te deste mal contra o teu povo. 
13 Lembra-te de Abraão, de Isaque e de Israel, teus servos, aos quais por ti mesmo tens jurado e lhes disseste: Multiplicarei a vossa descendência como as estrelas do céu, e toda esta terra de que tenho falado, dá-la-ei à vossa descendência, para que a possuam por herança eternamente. 
14 Então, se arrependeu o SENHOR do mal que dissera havia de fazer ao povo.
Dt 9:18, 19, 24-26
18 Prostrado estive perante o SENHOR, como dantes, quarenta dias e quarenta noites; não comi pão e não bebi água, por causa de todo o vosso pecado que havíeis cometido, fazendo mal aos olhos do SENHOR, para o provocar à ira. 
19 Pois temia por causa da ira e do furor com que o SENHOR tanto estava irado contra vós outros para vos destruir; porém ainda esta vez o SENHOR me ouviu... 
24 Rebeldes fostes contra o SENHOR, desde o dia em que vos conheci. 
25 Prostrei-me, pois, perante o SENHOR e, quarenta dias e quarenta noites, estive prostrado; porquanto o SENHOR dissera que vos queria destruir. 
26 Orei ao SENHOR, dizendo: Ó SENHOR Deus! Não destruas o teu povo e a tua herança, que resgataste com a tua grandeza, que tiraste do Egito com poderosa mão.
No texto de Êxodo nós lemos que Moisés intercedeu e o Senhor atendeu. Mas no texto de Deuteronômio somos esclarecidos sobre esta intercessão.
Quarenta dias e quarenta noites prostrado. Sem comer ou beber. Entregue à obra da oração.
Neemias
Ne 1:1-4
1 As palavras de Neemias, filho de Hacalias. No mês de quisleu, no ano vigésimo, estando eu na cidadela de Susã, 
2 veio Hanani, um de meus irmãos, com alguns de Judá; então, lhes perguntei pelos judeus que escaparam e que não foram levados para o exílio e acerca de Jerusalém. 
3 Disseram-me: Os restantes, que não foram levados para o exílio e se acham lá na província, estão em grande miséria e desprezo; os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas, queimadas. 
4 Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus.
Ne 2:1-6
1 No mês de nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes, uma vez posto o vinho diante dele, eu o tomei para oferecer e lho dei; ora, eu nunca antes estivera triste diante dele. 
2 O rei me disse: Por que está triste o teu rosto, se não estás doente? Tem de ser tristeza do coração. Então, temi sobremaneira 
3 e lhe respondi: viva o rei para sempre! Como não me estaria triste o rosto se a cidade, onde estão os sepulcros de meus pais, está assolada e tem as portas consumidas pelo fogo? 
4 Disse-me o rei: Que me pedes agora? Então, orei ao Deus dos céus 
5 e disse ao rei: se é do agrado do rei, e se o teu servo acha mercê em tua presença, peço-te que me envies a Judá, à cidade dos sepulcros de meus pais, para que eu a reedifique. 
6 Então, o rei, estando a rainha assentada junto dele, me disse: Quanto durará a tua ausência? Quando voltarás? Aprouve ao rei enviar-me, e marquei certo prazo.
Você deve se lembrar do quanto Daniel orou pela restauração de Jerusalém e do santuário. Você também deve se lembrar de que o Senhor atendeu às orações de Daniel, e cumpriu as suas promessas.
Assim, nos dias do rei Dario o decreto para a reconstrução foi emitido, e os primeiros grupos de exilados retornaram para a reconstrução.
Mas não foi sem oposição, conforme o livro de Esdras testemunha.
Foram dias de despertamento espiritual, mas de muito conflito, de sorte que o livro de Neemias nos conta de acontecimentos que se iniciaram pelo menos doze (12) anos depois.
Então Neemias também se põe a orar. Isto se dá no mês de quisleu (parte de novembro e parte de dezembro), do ano 445 A.C.
Ele ora, confessa, jejua, até que a resposta de Deus chega no mês de nisã (março-abril), isto é, quatro meses depois.
A obra da reconstrução não foi sem luta.
Agora, Jesus
Mt 14:23 
E, despedidas as multidões, subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a tarde, lá estava ele, só.
Mt 26:36  
Em seguida, foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar
Mt 26:44 
Deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras.
Mc 1:35
Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava.
Mc 6:46 
E, tendo-os despedido, subiu ao monte para orar.
Mc 14:32 
Então, foram a um lugar chamado Getsêmani; ali chegados, disse Jesus a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou orar.
Lc 6:12  
Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus.
Lc 9:28  
Cerca de oito dias depois de proferidas estas palavras, tomando consigo a Pedro, João e Tiago, subiu ao monte com o propósito de orar.
Lc 11:1 
De uma feita, estava Jesus orando em certo lugar; quando terminou, um dos seus discípulos lhe pediu: Senhor, ensina-nos a orar como também João ensinou aos seus discípulos.
Nós poderíamos multiplicar as referências sobre a vida de oração de nosso Senhor.
Mas agora eu gostaria de citar um comentário de Pedro sobre Jesus, feito em Atos dos Apóstolos.
At 10:38
Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele...
Irmãos, ele era Deus feito carne. O todo poderoso Filho de Deus. Mas não fez nada sem a unção, sem o poder do Espírito Santo em sua vida. Por isto ele precisava buscar o poder de Deus. Ele precisava orar.
E ele nos diz que o Espírito Santo é dado a nós da mesma forma.
Lc 11:13
Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?
Nós temos o Espírito Santo na medida em que pedirmos. Agora, pedir como? Com que intensidade? Com que insistência? Com que labor?
Como Jesus buscava? Noites inteiras. Lugares desertos. E quanto maior a luta, mais oração. Com agonia até.
Mateus nos diz que esta promessa é também para todas as coisas boas.
Mt 7:11
Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?
Qual é a coisa boa que você precisa? Qual é a coisa boa que você sabe ser a vontade de Deus para tua vida?
O que você precisa fazer? Orar
Como você precisa fazer? Com fé, insistência, luta.
Paulo
2 Co 6:4,5  
4 Pelo contrário, em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias,
5 nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns,
Paulo e Epafras
Cl 1:24  
Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja
Cl 2:1-2 
1 Gostaria, pois, que soubésseis quão grande luta venho mantendo por vós, pelos laodicenses e por quantos não me viram face a face;
2 para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo,
A palavra luta, no v. 1, é “agona”, de onde vem a nossa palavra “agonia” (aflição, angústia, sofrimento)
Cl 4:12 
Saúda-vos Epafras, que é dentre vós, servo de Cristo Jesus, o qual se esforça sobremaneira, continuamente, por vós nas orações, para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus.
Amar a igreja, lutar pela igreja, agonizar pela igreja.
A exortação da carta aos Hebreus emprega esta mesma palavra:
Hb 12:4
Ora, na vossa luta (antagonizomenoi) contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue.
Depois de ter falado sobre Jesus como nosso exemplo na luta contra o pecado, o autor nos lembra que ainda não fizemos como ele. “Até hoje vocês não lutaram contra o pecado até suar gotas de sangue”.
Se você quer vencer o pecado, no poder do Espírito Santo, deve lutar em oração.
Conclusão
Daniel foi um imitador de Jesus Cristo.
Mas como isto lhe foi custoso. Houve um preço a ser pago.
Um preço de vida: sofrimento, angústia, auto-doação.
Houve uma luta a ser travada. A luta de uma vida inteira.
De oração, de jejum, de busca intensa, sem incredulidade, sem corpo mole, sem auto-condescendência.
Aplicação
Você consegue ouvir a voz o Espírito Santo, nos chamando para isto?
Consegue entender o que ele deseja?
Você quer ser um imitador de Daniel?
Você quer ser um imitador de Jesus Cristo?
Pense em seu Deus. Você o ama? Quer conhecê-lo mais? Quer estar perto dele?
Você quer ser cheio do Espírito Santo?
Mas isto significa abandonar pecados, significa desistir dos prazeres deste mundo, significa buscar santidade, buscar a Palavra, esforçar-se pelo reino de Deus. Você quer isto?
Pense em sua igreja. Você ama sua igreja? Está disposto a sofrer, a negar-se a si mesmo, a lutar pela igreja em oração?
Isto implica em santidade; implica esforço; implica e negar muitos prazeres, em abandonar o comodismo.
Implica estar sempre perdoando, sempre intercedendo, sempre chorando. Implica em sentir-se só, às vezes, lutando sozinho (lembra-se de Elias? “Eu fiquei só”).
E sua família? Sua família é bênção. Você tem que lutar por ela, pela sua vida espiritual. De seu cônjuge, de seus filhos.
Então levante-se e lute. Ou melhor, ajoelhe-se e lute.
Vamos ter um tempo em oração.




[i] Citação livre, de Rm 11:34-36
[ii] 1ª Co 11:1
[iii] Cf. Mt 13:44-46
[iv] Rm 9:10-13
[v] Jo 1:18

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Por que jejuar? - Mateus 9:14, 15


Igreja Evangélica Presbiteriana
Domingo, 13 de janeiro de 2013
Pr. Plínio Fernandes
Leiamos Mateus 9:14, 15
14 Vieram, depois, os discípulos de João e lhe perguntaram: Por que jejuamos nós, e os fariseus muitas vezes, e teus discípulos não jejuam?15 Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar.
Nós já estivemos meditando sobre este texto nos dois últimos domingos, em que a Bíblia fala sobre a prática do jejum, isto é, a abstenção de alimentos, por razões religiosas.
E nele vimos que Jesus, o noivo da igreja, explicou aos sofredores discípulos de João Batista que, com a sua presença na terra, não era tempo dos discípulos estarem a jejuar, porque entre outras coisas o jejum era uma expressão de tristeza.  Não tinha sentido os discípulos jejuarem naqueles dias de alegria com a presença de Jesus ali entre eles. Mas viriam dias em que o noivo seria tirado, em que sentiriam a ausência de Jesus, e então jejuariam.
Embora nem sempre, existem tempos em que o jejum se torna necessário. É sobre isto que vamos então meditar agora.
Primeiro observemos que...
1. O jejum não é uma imposição de Deus sobre todos os crentes
Com isto quero dizer que não temos na Bíblia um mandamento expresso, no sentido de que jejuar é um dever de cada cristão.
No Antigo Testamento nós lemos sobre três ocasiões em que o jejum foi ordenado ao povo israelita como um todo, em certas circunstâncias específicas:
Havia o jejum ordenado para o dia da expiação, aquele dia que representava, de forma especial, a obra que nosso Salvador faria na cruz, morrendo pelos nossos pecados [1]. Na Carta aos Hebreus, o Espírito Santo nos ensina que, de uma vez por todas, no Senhor Jesus se cumpriu tudo quanto aqueles antigos sacrifícios judaicos representavam. Então já não sacrificamos animais, não temos um dia da expiação com seu jejum, não guardamos qualquer cerimônia judaica.
Mais tarde, conforme lemos no livro de Ester, também foi ordenado um jejum para a “Festa de Purim”, estabelecida para lembrar o livramento que o Senhor deu ao povo judeu nos dias do rei Assuero[2].
E também lemos em Zacarias sobre quatro jejuns anuais, que os judeus começaram a praticar desde o exílio na Babilônia, lamentando momentos de grande crise para a nação israelita: o cerco de Nabucodonosor a Jerusalém, o rompimento dos muros da cidade, o assassinato do governador Gedalias e a destruição do templo[3]. Zacarias disse que, do seu tempo em diante, desde a volta do exílio, aqueles dias já não seriam de lamento, mas de regozijo[4].
Agora, se nos voltarmos para o Novo Testamento, temos muitas exortações à oração, à meditação na Palavra, à comunhão da igreja, à adoração, mas não temos algum mandamento no sentido de que os crentes em Jesus devem guardar algum jejum particular.
À luz destes fatos, irmãos, não podemos dizer que o jejum é “uma prática sem a qual não podemos agradar a Deus”. Na verdade, o impor o jejum sobre nós mesmos ou sobre nossos irmãos, em certas condições pode até se tornar pecaminoso ou perigoso. Neste sentido acho que vale a pena citar o que escreveu John Ryle, bispo anglicano do séc. XIX:
“O jejum é um assunto sobre o qual não encontramos nenhum mandamento direto no Novo Testamento. Parece ser deixado a critério de cada um, se vai jejuar ou não. Nisto há grande sabedoria. Muitos homens pobres nunca têm o suficiente para comer, e seria um insulto ordenar-lhes o jejum. Muitos enfermos têm dificuldade em se alimentar bem, mesmo dando toda a atenção à dieta, e o jejum contribuiria para agravar ainda mais a doença. Esta é uma questão em que cada um precisa estar persuadido em sua própria mente, e não ser precipitado em condenar os que não concordem com ele. Somente um ponto jamais deve ser esquecido. Quem jejua... não deve fazê-lo para os homens, mas para Deus” [5].
Palavras poderosas, amorosas e moderadas, as do bispo Ryle.
Por outro lado, ainda que não haja um mandamento direto, e não seja um costume universal entre os crentes, lemos nas Escrituras que muitos homens e mulheres de Deus, e às vezes toda a comunidade da qual faziam parte, foram conduzidos a períodos de jejum acompanhando suas orações: Moisés, Davi, Daniel, Esdras, Ester e muitos outros.
Em nosso texto, Jesus disse que viriam tempos em que seus discípulos jejuariam. Vemos Paulo e outros líderes e igrejas do Novo Testamento jejuando também[6]. E em todas as épocas da história cristã posterior, muitos homens cujo bom testemunho chega até nós (a lista seria imensa) também se dedicaram a jejuar: homens como David Brainerd, Jonathan Edwards, John Wesley, John Hyde. Em dias mais recentes podemos citar David Wilkerson, Leonard Ravenhill, John Piper, Paul Washer, e muitos outros.
2. Porque jejuar
Conforme o testemunho bíblico, porque estes homens e mulheres de Deus foram conduzidos a jejuar? Qual era a motivação deles? Eu gostaria de citar duas razões:
2.1. O jejum é uma forma de expressarmos o nosso anseio por Deus e suas obras
Porque, irmãos, o alimento é uma coisa essencial à manutenção da nossa vida, do nosso bem estar físico. E Deus, em sua sabedoria e bondade, fez com que o ato de alimentar-se seja algo prazeroso para nós. Necessitamos, e gostamos de nos alimentar, a menos que estejamos com algum problema de saúde.
Mas a manutenção da nossa vida física, em última instância, e secundária: Deus é ainda mais, e muito mais essencial. Além disto, assim como o alimentar-nos é prazeroso ao nosso paladar, a presença de Deus é muito mais prazerosa ao nosso coração. Como disse Jeremias, as Palavras de Deus são alimento, gozo e alegria para o nosso coração[7]. Deus nos dá mais alegria do que a de qualquer outra pessoa.
O Espírito Santo nos diz que às vezes o Senhor até nos permite passar certas privações para que entendamos que não só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que procede da boca de Deus, disso vive o homem[8]. Quando nós percebemos o quanto necessitamos de Deus, de sua Palavra, de sua presença, quando nós estamos sentindo a nossa sequidão espiritual, quando percebemos quão lamentáveis são as nossas limitações, quão mesquinhos e vergonhosos são os nossos pecados, quando todo o nosso ser está envolvido e desejando o reino de Deus, então, muitas vezes, os cuidados com o corpo se tornam algo secundário.
Pense, por exemplo, em Moisés, quando ouviu o Senhor dizer que estava tão irado contra Israel que iria destruir aquela nação pecadora, e dele, Moisés, faria uma nova nação, que lhe obedecesse. Moisés não quis saber de mais nada, mas prostrou-se perante o Senhor por quarenta dias e quarenta noites, e não pensou em comer nem beber, mas somente em pedir a Deus que perdoasse os pecados de Israel, e não destruísse o seu povo. Moisés perseverou nesta oração até que Deus o atendesse[9].
Pense em Neemias, quando chegaram a ele, em Susã, notícias de que os muros de Jerusalém estavam derribados, as portas queimadas, o povo do Senhor em grande humilhação e miséria. Ele ficou profundamente triste, chorou muito, orou e jejuou diante de Deus, porque tudo o mais perdeu a graça para ele[10].
Pense em Daniel, quando lendo as profecias de Jeremias, entendeu que os tempos de Israel voltar do exílio estavam se aproximando, e mais uma vez começou a buscar ao Senhor com jejum e oração, confessando a Deus os seus pecados, e da nação, para que Deus cumprisse as suas promessas[11].
Todos eles, e muitos outros, quando se puseram a jejuar, estavam dizendo com isto que para eles, os desejos por Deus, pelo cumprimento de suas promessas, pela realização de sua obra, estavam em primeiro lugar.
Agora, um dos momentos mais bonitos que eu vejo na Bíblia, está em João cap. 4, quando Jesus está anunciando a salvação em Samaria, junto ao poço de Jacó. Jesus, cansado da viagem, assentou-se junto ao poço, enquanto seus discípulos foram à cidade comprar alimentos. Então aproximou-se uma mulher, e o Senhor passou a ensinar a ela o caminho da salvação. Quando os discípulos chegaram, ela estava tão entusiasmada que foi à cidade buscar as pessoas dali para que também ouvissem Jesus. Eu quero ler com vocês os versículos 31-34
31 Nesse ínterim, os discípulos lhe rogavam, dizendo: Mestre, come! 32 Mas ele lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. 33 Diziam, então, os discípulos uns aos outros: Ter-lhe-ia, porventura, alguém trazido o que comer?34 Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. 35 Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa.
Não foi só a mulher samaritana que ficou entusiasmada. Jesus também ficou. Com os olhos da alma ele viu os campos brancos para a ceifa, viu quanta gente naquele lugar estava preparada para receber a Palavra, a tal ponto que até o cansaço foi embora, e perdeu a vontade de comer, por que tinha algo muito mais importante para fazer, isto é, a obra do Pai.
Já percebeu que muitas pessoas às vezes perdem a vontade de comer por causa das coisas deste mundo? Mas quando você, deliberadamente, deixa de se alimentar para se dedicar ao Pai celeste, ao seu reino e à sua justiça, está demonstrando para Deus o quanto ele é essencial em sua vida, o quanto ele é importante. Se você jejua por anseio de mais poder do Espírito Santo, se você jejua pelos seus filhos, se você jejua pelo progresso da sua igreja, pela salvação de almas, está demonstrando para Deus o quanto sua alma anseia pelo reino de Deus.
2.2. O jejum é uma forma de receber as recompensas de Deus
Anteriormente, aqui no Evangelho de Mateus, Jesus já havia ensinado sobre isto. Voltemos a Mt 6:17, 18
17 Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto,18 com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Aqui neste capítulo nosso Senhor está nos ensinando que as nossas ações de amor para com o próximo, as nossas orações e os nossos jejuns, não devem ser realizados com o propósito de impressionar os homens com a nossa pretensa espiritualidade, como faziam os fariseus. Mas que, quando fizermos estas coisas, nosso propósito deve ser o de agradar a Deus, e se assim o fizermos, o nosso Pai celestial nos recompensará.
Mas alguém pode então pensar que o jejum, assim como outras práticas de devoção, é uma coisa que se faz em troca de outra. Uma barganha. “Eu jejuo, e Deus me dá o que eu peço. E quanto mais eu jejuar, mais digno de receber algo eu me torno.”
Não. Não é assim, como se a resposta de Deus fosse uma espécie de pagamento por algo que o homem faz. Jesus não ensina que a resposta de Deus é “o pagamento dado pelo patrão”, mas a resposta graciosa de um Pai amoroso que vê como este filho anseia pelas coisas celestiais. Um Pai celestial que vê quanto o filho o deseja, quanto deseja o seu reino, a sua vontade, e dá isto gratuitamente, porque o filho realmente quer estas coisas, mais do que tudo. Porque como já dissemos, o jejum bíblico não é uma obra meritória, um sacrifício, mas uma expressão dos maiores desejos da alma. Desejos espirituais. E quando o Pai vê estes desejos, ele recompensa ao seu filho.
Não quero com isto, irmãos, dizer que cada vez que pedimos algo, o Senhor necessariamente faz da forma como pedimos. Pois muitas vezes ele tem outros planos, e que não contrariam a nossa felicidade. Quando Davi jejuou pela vida de seu primeiro filho com Bate-Seba, o Senhor não o atendeu da forma como ele pediu. Mas Davi sabia, em seu coração, que aquela criança foi morar com Deus. E depois disto, o Senhor lhe deu outro filho com Bate-Seba: Jedidias, que é Salomão, e que veio a ser um grande rei de Israel[12]. De uma forma ou de outra, o Pai celestial sempre recompensa com sua presença, com sua aprovação, com seu consolo e orientação.
O jejum é uma forma de revelar ao Pai a intensidade dos desejos do nosso coração, e receber dele as recompensas deste anseio.
Concluindo a nossa mensagem...
Acho apropriado lembrar o que diz a Confissão de Fé de Westminster, no cap. XXI, quando trata do nosso culto a Deus, que deve ser prestado tanto em assembleias públicas como em particular.
Depois de citar as “partes ordinárias do culto”, isto é, a leitura das Escrituras, a sã pregação da Palavra, a consciente atenção a ela, o cantar salmos, com graças no coração, a devida administração e recepção dos sacramentos, ela fala do jejum, como algo que deve ser oferecido ao Senhor em tempos apropriados. Para melhor apreciação do seu ensino eu quero citar todo o item V.
“... são partes do ordinário culto de Deus, além dos juramentos religiosos, votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, deve ser usado de um modo santo e religioso.
Em desejo sublinhar as frases “vários tempos e ocasiões próprias”, e “de modo santo e religioso”, pois elas demonstram a compreensão reformada sobre este assunto.
Ainda que o jejum não seja algo imposto como indispensável à nossa comunhão com Deus, ele nos é apresentado na Bíblia como uma forma de expressão da nossa alma perante o Senhor, um ato de devoção, que não passa despercebido perante ele, quando feito sob a direção do Espírito Santo.
Vamos destacar algumas aplicações destas verdades para nossa vida...
1. Se a prática do jejum não é uma lei imposta por Deus sobre nós...
1.1. Também não é uma obrigação que nós devemos nos impor, como se, sem ela, não houvesse meio de agradar ao Pai.
Não devemos jejuar por que, do contrário, ficaríamos com sentimento de culpa. Se fizermos assim, jejuar se tornará um peso, enfadonho e desagradável a Deus. Também não devemos jejuar com a motivação de demonstrar nossa “espiritualidade diante dos homens”. E também não devemos jejuar por amor às coisas deste mundo, pois do contrário não estaremos jejuando por amor a Deus e buscando sua recompensa. Também não devemos nos sentir culpados se, por motivos de saúde, não pudermos jejuar. Nosso Pai celestial sabe todas as coisas.
Também não devemos dar ouvidos às acusações de satanás.
Alguns anos atrás um pastor me contou que um irmão lhe confessou entristecido: “Pastor, uma pessoa estava endemoniada, e eu ordenei que o diabo fosse embora em nome de Jesus. Mas o diabo me disse: Quem é você, para me expulsar, com esta barriga cheia de feijão? E eu não consegui expulsá-lo”. O pastor então lhe respondeu: “Meu irmão, não deixe o diabo ficar acusando você. Você poderia ter falado que este feijão que estava na tua barriga foi Jesus quem deu”.
Sabem, irmãos, nós não estamos aqui para satisfazer as exigências espirituais que satanás coloca em nossa vida. Estamos aqui pela graça de Deus, lavados no sangue de Jesus, e pela graça de Deus fazer a vontade de Deus.
Mesmo se o diabo nos lembrar de pecados que realmente cometemos, devemos nos voltar para a Palavra de Deus, que nos diz que ninguém intentará acusação contra os eleitos de Deus, os crentes em Jesus, pois Deus os justifica[13].
1.2. Ainda nesta linha de pensamento, de que o jejum não é um mandamento obrigatório, não podemos impô-lo sobre outras pessoas.
E não devemos “medir a estatura espiritual de alguém” tendo como base o fato de que esse alguém jejua ou não – e quem é que disse que devemos medir a estatura espiritual de qualquer irmão, não é mesmo? Não nos cabe julgar ou condenar qualquer pessoa que pense diferente de nós quanto a isto.
2. Por outro lado...
Se o nosso coração anseia por Deus, se desejamos mais do seu poder em nossa vida, se queremos mais santidade prática, se queremos mais de suas obras, então o expressar isto com jejuns que acompanham as nossas orações é agradável diante de Deus, e ele recompensará a nossa busca por ele.
Eu gostaria de encerrar fazendo algumas perguntas, para que você possa examinar seu próprio coração na presença de Deus:
Com que intensidade, querido irmão, você anseia pela presença de Deus em sua vida? Com que intensidade você deseja o poder do Espírito Santo? Com que intensidade você odeia e lamenta os seus pecados, e deseja crescer em santidade? Com que intensidade você deseja que a sua igreja seja abençoada, cresça e prospere? Com que intensidade você deseja a salvação de almas? Com que intensidade você deseja que sua família seja salva, seja santificada? Com que intensidade você ora? Com que intensidade você busca estas coisas?
E se você, ao fazer-se estas perguntas, percebe que o seu coração não está tão ansioso pelas coisas de Deus, confesse, busque, medite na Palavra. Busquemos a Deus com mais intensidade, porque o Senhor atende àquele que o deseja e busca de todo o seu coração.




[1] Lv 16:29 e 31
[2] Et 9:30-32
[3] Cf. Joyce G. Baldwin, Ageu, Zacarias e Malaquias, Introdução em Comentário (São Paulo, Vida Nova e Mundo Cristão, 1991), pág. 117
[4] Zc 8:19
[5] J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Mateus (São José dos Campos, FIEL, 1991), págs. 41, 42
[6] 2ª Co 11:27; At 14:23
[7] Jr 15:16
[8] Dt 8:3; Mt 4:4
[9] Dt 9:18
[10] Ne 1:3, 4
[11] Dn 9:1-3
[12] 2º Sm 12:14-25
[13] Rm 8:33

domingo, 6 de janeiro de 2013

Discernindo os tempos em nossas vidas - Mateus 9:14-17


Pr. Plínio Fernandes
Igreja Evangélica Presbiteriana
Domingo, 6 de janeiro de 2013
Resumo da mensagem:
Em Mateus 9:14-18, o Evangelho nos diz que os discípulos de João Batista estranhavam o grande contraste que havia entre sua prática religiosa, e a dos discípulos de Jesus. Então perguntaram ao Senhor: Por que jejuamos nós, e os fariseus, e os teus discípulos não jejuam? A resposta de Jesus nos ensina que os exercícios religiosos não devem ser mecânicos e formais, mas exercícios da fé que expressam diante de Deus os movimentos de nossa alma em meio às várias experiências que temos no seu reino. Há tempos de celebrar, e tempos de jejuar, e nossas práticas devem ser fruto do discernimento destes tempos.Meus amados, leiamos Mateus 9:14-18
14 Vieram, depois, os discípulos de João e lhe perguntaram: Por que jejuamos nós, e os fariseus [muitas vezes], e teus discípulos não jejuam?
15 Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar.
16 Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura.
17 Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam.
Quando os discípulos do profeta João Batista vieram ter com Jesus a perguntar sobre o porquê de seus seguidores não jejuarem, as circunstâncias que estavam vivendo eram bastante adversas. No capítulo 4, versículo 12, Mateus já nos disse que João Batista estava preso; isto aconteceu como retaliação por sua pregação contra os pecados do rei Herodes. João Batista estava preso e não muito tempo depois seria executado. Então os discípulos de João estavam bastante preocupados, tristes e ansiosos.
Por outro lado, Jesus e seus discípulos tinham a liberdade de proclamar as boas notícias de salvação por onde quer que fossem; muitas pessoas estavam sendo alcançadas e entre elas os publicanos, como Mateus, que oferecera a Jesus em grande banquete em sua casa.
Então, os discípulos de João muitas vezes estavam jejuando, enquanto os de Jesus estavam participando de banquetes! Conforme veremos melhor, quando estudarmos o capítulo 11, não somente os discípulos de João, mas até mesmo o grande profeta teve alguma dificuldade para entender o que estava acontecendo. E é nesta situação que eles perguntam a Jesus: Por que jejuamos nós, e os fariseus, e teus discípulos não jejuam?
Nós sabemos que os discípulos de João não eram como os fariseus. Ao contrário, ainda que durante certo tempo eles tenham continuado como outro grupo religioso, eram pessoas aprovadas por Jesus. E o Senhor então lhes responde, mas sem qualquer palavra de censura, através de duas ou três ilustrações: A primeira, a figura do noivo e da noiva.E a segunda, do vinho novo e do pano novo.
Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar. Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam.
Não se esqueçam de qual é a intenção de Jesus ao usar estas ilustrações: explicar aos discípulos de João Batista porque os seus discípulos não jejuavam naqueles dias.
Numa festa de casamento, disse o Senhor, não é apropriado que os amigos do noivo fiquem tristes. Ao contrário, eles devem se alegrar com o noivo. Da mesma forma, não é apropriado você tomar um pedaço de pano novo e tentar remendar uma roupa velha. Se você fizer isto, acabará estragando a roupa ainda mais. E também se você quiser colocar vinho novo num odre velho – os odres eram recipientes feitos de couro, para conter líquidos – se você fizer isto, o odre velho vai se romper quando o vinho novo começar a fermentar. Então não faça isto.
Então a resposta de Jesus é esta: “Assim como estas não são coisas adequadas, não é apropriado que os meus discípulos jejuem agora. Mas dias virão em que eu serei tirado deles, e aí chegará o tempo deles jejuarem”.
Estas palavras de Jesus, além de ser uma resposta para satisfazer o coração dos sofredores discípulos de João, eram proféticas. Tempos depois ele foi tirado, e vieram ocasiões de jejum para os seus discípulos também. E são também muito práticas, pois além destas coisas, ilustram a necessidade que temos de discernir que existe variedade nas experiências que os filhos de Deus vivem neste mundo, e que em cada delas há uma maneira apropriada de se reagir.
Tomando o contexto em que estas palavras foram ditas, eu gostaria de fazer algumas considerações sobre esta nossa vida diante de Deus. Então consideremos...
1. Quão variadas são as experiências pelas quais os servos de Deus passam neste mundo
Existem dois grupos de servos de Deus aqui: os discípulos de Jesus e os discípulos de João Batista.
Não temos conhecimento exato das razões, mas naqueles dias de transição histórica, mesmo tendo Jesus iniciado seu ministério, um grande número de pessoas ainda continuou a ser parte do círculo de influência de João Batista. No livro de Atos, capítulo 19, lemos sobre pessoas que uns vinte e cinco anos depois, na distante cidade de Éfeso, ainda só conheciam o batismo de João. Mas o fato é que durante certo tempo os discípulos de João ainda continuaram como um grupo separado.
Talvez até houvesse outros grupos. Por exemplo, em Lucas 9, lemos que o apóstolo João disse a Jesus: Senhor, vimos um homem que expulsava demônios em teu nome, e proibimos que ele fizesse isto, porque ele não segue conosco. Então Jesus respondeu: Não proíbam. Pois quem não está contra vocês, está a favor de vocês. [1]
Então Jesus não teve dificuldade alguma com o fato de que João continuava a ter seus discípulos. Ao contrário, nunca o vemos fazendo qualquer crítica a eles. Porque segundo Jesus pensava e ensinava, quem não era contra ele era por ele.
Mas estes dois grupos de discípulos, os de Jesus e os de João, estavam vivendo circunstâncias completamente diferentes.
Durante certo tempo, o ministério de João Batista havia alcançado muitas pessoas. Multidões afluíam a ele no deserto, para ouvi-lo pregar. Muitos, confessando os seus pecados, eram por ele batizados no Jordão. Até mesmo os escribas e fariseus, ao menos exteriormente, se curvavam à sua autoridade espiritual. E assim, em cumprimento das antigas profecias, João preparava o caminho de Jesus.
Mas agora ele estava preso, e os seus discípulos passando por tempos difíceis.
Por outro lado, depois que João foi preso, Jesus percebeu que chegara a hora, mudou-se para Cafarnaum, na Galiléia, e dali começou a pregar por toda a região. E assim, na figura que ele usa neste texto, os tempos de festa haviam chegado: os cegos viam, os surdos ouviam, os cativos eram libertados, a salvação era anunciada.
O que desejo destacar é que estes dois grupos de discípulos eram, ambos, servos de Deus, e estavam andando de acordo com a vontade de Deus em seu tempo e em suas circunstâncias.
E irmãos, isto não ilustra o mesmo que vemos acontecer em muitos outros casos na Bíblia e em todas as épocas e lugares?
Na Bíblia nós vemos os filhos de Deus, homens de fé, vivenciando os mais diferentes tipos de situação: Situações de alegria e situações de tristeza. De exaltação e de humilhação. De pobreza e de riqueza. Dias de paz e dias de conflitos fortíssimos. Às vezes, momentos de altos e baixos, como vemos tantas vezes em Abraão, em Davi. Às vezes alguns parecem serem bem-sucedidos sempre, ou na maior parte das vezes, como Josué, como Daniel. Às vezes, a vida inteira de alguns parece ter sido um mar de lágrimas, como Asafe, como Jeremias.
E na carta aos filipenses, não lemos o apóstolo Paulo testificando de sua própria vida, dizendo que aprendeu a estar contente em toda e qualquer situação, pois tanto passara por dias de fartura como de fome, tanto de abundância como de escassez, tanto de exaltação como de humilhação? [2]
Também o autor da carta aos hebreus, dando testemunho acerca dos antigos heróis da fé, nos lembra que muitos dos juízes, dos profetas e dos homens e mulheres comuns, pela fá venceram inimigos, subjugaram reinos, praticaram a justiça, fecharam a boca de leões, apagaram fogo, da fraqueza tiraram forças, alcançaram as promessas.
Mas muitos outros, também pela fé, foram mortos ao fio da espada, andaram errantes pelo mundo, maltratados, aflitos e necessitados – homens dos quais o mundo não era digno.[3]
Mas há uma coisa em comum: quaisquer que fossem as circunstâncias, eram servos de Deus. E neste servir a Deus é que estava uma vida de gente vitoriosa.
2. Assim como são variadas as experiências pelas quais os servos de Deus passam neste mundo, também são variados os meios pelos quais mantemos comunhão com ele em meio a estas experiências
Com isso estou me referindo ao que está implícito na resposta de Jesus.
Meus discípulos não estão jejuando agora, porque para eles não é tempo de jejuar. Mas haverá tempo em que eles jejuarão.
Há duas observações que desejo fazer quanto a isto:
A primeira, é que Jesus pensa no jejum como um meio de expressar a nossa fé, a nossa esperança em Deus, o nosso amor a Deus. Em lugar algum nós o vemos dizendo que isto é coisa do passado, da Antiga Aliança, ou das velhas cerimônias religiosas e agora ele se tornou desnecessário.
Mas ao mesmo tempo, Jesus faz um fortíssimo contraste entre aquele que era o pensamento de muitos, e a maneira como ele próprio via esta questão.
Em Lucas 19 lemos de um fariseu que se gloriava de jejuar duas vezes por semana. Este era um hábito muito comum entre eles. A ideia exposta em Lucas 19 é que com esta e com outras práticas religiosas que podem demonstrar devoção, eles achavam que se tornavam dignos de crédito aos olhos de Deus. Mas o pensar no jejum como uma obra pela qual nos tornamos agradáveis a Deus, é uma visão muito limitada, como se fosse uma prática de autonegação, que nos faz merecedores de algo, que o homem faz como um sacrifício para agradar a Deus e assim conseguir coisas dele. Era assim que os fariseus e muitos outros pensavam sobre o jejum, sobre oração, dízimos e tudo o mais que faziam.
Mas não era assim que pensava Jesus. Neste mesmo texto percebemos que ele olhava para o jejum como uma manifestação do que se passa nas almas dos homens. Era para ele, no caso aqui, uma expressão de tristeza, de anseio espiritual, de fome de justiça.
Virão dias em que eu serei tirado; virão dias que não serão mais de festa, diz o Senhor, e neste tempo jejuarão. O jejum acontecerá, mas não será algo feito por costume, e sim porque suas almas sentirão necessidade. Sentirão a minha ausência.
Da mesma forma como o vemos praticado por muitos crentes do Antigo Testamento:
Vemos Esdras buscando a Deus em jejum e oração pedindo proteção para sua perigosa viagem.[4] Vemos Daniel jejuando em busca de uma melhor compreensão das Escrituras.[5] Vemos Ester jejuando e pedindo que outros jejuassem também, diante de uma tarefa que julgava incapaz de realizar.[6] Vemos o profeta Joel convocando o povo para um jejum expressando arrependimento.[7] Vemos Davi jejuando e orando pela vida de seu filho recém-nascido. [8]
E também no Novo Testamento, lemos sobre Paulo jejuando muitas vezes. [9] E lemos sobre os profetas e mestres na igreja de Antioquia, jejuando como uma forma de adorar a Deus e buscar sua orientação.[10] E também lemos sobre as igrejas jejuando e orando por seus presbíteros. [11]
Em todos este exemplos nós podemos observar algo em comum: jejum é uma maneira de expressarmos nossa fome de Deus, nossa dependência de Deus, nossa necessidade de Deus. Jejum, portanto, assim como oração, meditação na Palavra, não é algo que se pratica para com isto ganhar algum mérito. É algo que se pratica naturalmente, como resultado de uma necessidade da alma que tem desejos de Deus, anseios por mais da presença de Deus em sua vida.
Se não for assim, se pensarmos nalguma prática devocional como um meio de nos fazer merecedores de algo, então ainda não entendemos o seu verdadeiro sentido.
3. Nós devemos discernir os meios apropriados, pelos quais desfrutamos melhor comunhão com Deus em meio às nossas experiências neste mundo
Para Jesus, haveria, na vida de seus discípulos, tempos de celebrar e tempos de jejuar.
E é algo que precisamos discernir para nós. Em todo o tempo, é tempo de buscar ao Senhor e estar em sua presença. Devemos orar em todo o tempo, pois está ordenado que oremos sem cessar.[12] Também devemos meditar nas Escrituras de dia e de noite. [13] E louvar ao Senhor continuamente. [14] E tudo o que fizermos, devemos fazer para a glória de Deus, em nome de Jesus, dando por meio dele graças ao nosso Deus e Pai. [15] E muitas outras coisas, muitas atitudes internas que são fruto de nossa fé e amor ao Senhor.
Mas as maneiras, quero dizer, as formas como iremos fazer todas estas coisas será determinada por vários fatores que contribuam para a experiência de vida pela qual estivermos passando. Há tempo de chorar e tempo de rir. Há tempo de falar e tempo de estar calado. Há tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou. Há tempo de pedir e tempo de agradecer. Há tempo de clamar e tempo de marchar. Há tempo de celebrar, e tempo de jejuar.
Eu gostaria de citar duas ou três passagens que nos mostram este tipo de coisa:
Nemias 8:10
Disse-lhes mais: ide, comei carnes gordas, tomai bebidas doces e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do SENHOR é a vossa força.
Aqui a Palavra de Deus nos conta de um dia maravilhoso na história de Israel, quando um grande despertamento espiritual estava acontecendo. O povo estava ouvindo as palavras da lei do Senhor, e chorava muito. Era algo muito apropriado à ocasião, pois era dia de quebrantamento espiritual, de volta ao Senhor. Mas eles não podiam ficar só chorando. Deveriam se erguer, pois também era dia de perdão e alegria. Então a ordem do Espírito Santo por meio de Neemias, Esdras e os demais pastores de Israel: “Ide, comei carnes gordas, tomai bebidas doces e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do SENHOR é a vossa força”.
Tiago 5:13
Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores.
Eu acho linda a maneira como o Espírito da graça revela aqui a amorosa compreensão e condescendência que ele tem para conosco, na variedade dos estados de alma pelos quais passamos. Ele sabe que existem ocasiões em nossas vidas que sentimos necessidade de pendurar as nossas harpas e apenas orar. Então não nos força a cantar nestas horas. Somente diz que não devemos deixar de abrir nosso coração diante de Deus.
Noutro lugar o Espírito também diz: “Somente em Deus, ó minha alma, somente em Deus espera silenciosa... pois ainda o louvarei”.[16]
Concluindo, vamos considerar algumas aplicações para o nosso dia a dia:
1. Se as experiências pelas quais nós podemos passar nesta vida são as mais variadas...
Primeira aplicação: seja qual for a circunstância em que você estiver vivendo, viva para Deus, para ter comunhão com Deus, para amar a Deus, para servir a Deus. E se for assim, se você, independente das circunstâncias andar com Deus, saiba que você está dentro da vontade dele, e esta é a vida de vitória.
João Batista terminou seus dias na prisão, e foi morto e decapitado a mando de Herodes. Você poderia dizer que ele não foi um homem vitorioso? O apóstolo Paulo passou seus últimos dias na prisão, com poucos, talvez nenhum amigo, e depois disto foi morto, nos dias do imperador Nero. Você diria que ele foi um fracasso?
Segunda aplicação: não julgue a vida espiritual de qualquer pessoa com base em posições, em circunstâncias exteriores.
Não pense que sucesso do ponto de vista humano seja sinal de bênção, e fracasso deste mesmo ponto de vista como sinal de juízo de Deus. Também não julgue a vida espiritual de um grupo eclesiástico de acordo com a sua popularidade ou não. Os caminhos de Deus muitas vezes estão acima da nossa capacidade de compreensão.
2. Se também são variados os meios pelos quais mantemos comunhão com ele em meio a estas experiências
Primeiro: não se sinta obrigado a jejuar quando é tempo de festa. Não se sinta culpado quando o Espírito Santo leva outros a fazer isto, mas não a você. E também não se sinta carnal e depressivo quando você estiver sendo levado a jejuar, e outros a celebrar. Simplesmente busque a Deus conforme suas necessidades, conforme a orientação que o Espírito Santo der a você, em seu andar com Deus.
Segundo: entenda que, assim como na sua vida, também na vida dos seus irmãos há tempos diferentes, necessidades diferentes. Não devemos impor sobre os outros aquilo que Deus tem colocado sobre nós. Deus tem seus meios de lidar com nossos irmãos.
3. Se nós devemos discernir os meios apropriados, pelos quais desfrutamos melhor comunhão com Deus em meio às nossas experiências neste mundo...
Então não podemos engessar as nossas práticas, e fazer sempre as mesmas coisas do mesmo jeito, nem em nossa vida individual, nem na igreja. Vinho novo, odres novos. Nosso grande problema, muitas vezes, é que não damos lugar a coisas novas, quanto à sua forma externa, pensando que as formas antigas, em si mesmas, é que são a essência.
O contrário também pode ser verdadeiro: valorizarmos tanto as novas formas de culto, em detrimento das antigas, pensando que assim estamos fazendo o que é certo. A intenção é sempre boa, mas os fariseus se preocupavam tanto com externalidades que abandonavam completamente o Espírito. Não: a essência é o Espírito, a Palavra, a comunhão de fé, amor e esperança. E as maneiras como estas coisas se manifestam podem variar.
Jesus valorizava as tradições judaicas que contribuíam para a edificação do reino de Deus. Nós o vemos na sinagoga todos os sábados, assentando-se como um mestre, recebendo o livro santo em suas mãos, lendo e explicando. Mas ao mesmo tempo nós o vemos completamente livre das tradições que embaraçavam os corações necessitados de Deus. Nós precisamos crescer em nosso conhecimento da mente de Cristo, e aprender a imitá-lo.



[1] Lc 9:49, 50
[2] Fp 4:11-13
[3] Hb 11:32-38
[4] Ed 8:21-23
[5] Dn 9:1-3
[6] Et 4:16
[7] Jl 2:15
[8] 2º Sm 12:16
[9] 2ª Co 11:27
[10] At 13:1-3
[11] At 14:23
[12] 1ª Ts 5:17
[13] Sl 1
[14] Ex.: Sl 34:1
[15] 1ª Co 10:31, Cl 3:17
[16] Sl 62:1, Sl 42:5
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