Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR, Deus dos Exércitos. Jeremias 15:16

domingo, 30 de agosto de 2026

Pai de misericórdias - 2ª Co 1.3,4

Pr. Plinio Fernandes

Mensagem pregada na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos, em domingo, 26 de julho de 2026

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! 4 É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus.

Intr.

Há uma canção composta por Guilherme Kerr chamada “Mateus dos impostos”.

Ele como que se coloca no lugar de Mateus, no dia da sua conversão a Jesus.

Então conta que, quem o conhecia por dentro, sabia o momento difícil que ele estava passando.

Saia diariamente para o trabalho de cobrar impostos; um homem rico por fora, e pobre por dentro.

Um vazio enorme; apenas ia, indo por ir.

As pessoas reclamavam dele, chamavam-no de traidor; sujo, falso irmão.

Mas naquele dia Jesus, que o conhecia por dentro, passou pela coletoria e disse: – "Segue-me". Mateus imediatamente largou tudo e seguiu Jesus.

Acontece que teve gente, "gente boa", que não gostou.

“Esse aí, que se diz profeta, come e bebe com pecadores”.

Então o Senhor respondeu com as palavras de Deus no livro do profeta Oséias:

Ide e aprendei o que significa “Misericórdia quero”.

Misericórdia, que às vezes também é traduzida por compaixão, significa condoer-se de alguém que sofre as misérias desse mundo, e agir em favor do sofredor.

Em alguns contextos ela é usada de modo complementar com a palavra graça. Por exemplo, no salmo 103.4, onde Deus nos redime da morte, e nos coroa de graça e misericórdia.

Os profetas bíblicos nos ensinam que Deus tem prazer em exercer misericórdia; que, assim como é Deus Consolador, é Pai de misericórdias.

E ensinam que os filhos de Deus devem ser assim também.

Prop.

Então, depois de, em nosso estudo anterior, termos meditado sobre Deus como nosso Consolador, agora vamos destacar essa outra descrição que a Escritura faz do nosso Pai celeste.

E penso que uma boa maneira de meditar nesse assunto é destacando algumas maneiras como Paulo descreve as misericórdias de Deus se manifestando em nós.

Divs.

1ª A misericórdia na salvação

De todos os escritores bíblicos, Paulo é o que mais toca no assunto.

Não somente porque era familiarizado com o linguajar religioso dos judeus; mas porque ele conhecia muito de perto, pessoalmente, as misericórdias de Deus.

Paulo nunca se esqueceu do homem mau que tinha sido antes de conhecer Jesus.

Super religioso. De acordo com a lei de Moisés, irrepreensível. Zeloso das tradições. Mestre capaz.

Mas duro de coração; incrédulo, implacável; blasfemava contra Jesus; perseguia os crentes.

Até o dia em que o Senhor Jesus quebrantou aquele coração de pedra, e em amor o subjugou.

O Senhor ressurreto apareceu a Paulo, então chamado Saulo, no caminho para a cidade de Damasco.

Paulo estava naquela viagem com propósito de prender os crentes que moravam lá.

Mas em determinado ponto o Senhor Jesus se manifestou, numa luz gloriosa.

“Saulo, Saulo, porque me persegues”?

“Quem é tu, Senhor”?

“Eu sou Jesus, a quem persegues...” (pois cada pequenino crente é como a menina dos olhos do Senhor; e todo aquele que maltrata a um pequenino crente em Jesus, é a Jesus que está maltratando).

Senhor, que devo fazer?

Levante-se, entre na cidade, e lá você será orientado.

A partir dali, Paulo tornou-se um novo homem. E foi algo tão grandioso que nos dias, meses e anos que se seguiram, Paulo nunca se esqueceu daquele momento; e sempre se lembrava de quem havia sido, e do que tinha sido.

E nunca lhe abandonava também a consciência de quem agora havia se tornado.

Agora vamos ver uma das explicações que ele apresenta para essa tão grande salvação.

1ª Tm 1.15-16 Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. 16 Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna.

Aqui ele descreve a sua salvação como expressão da misericórdia do Senhor.

Eu, o principal, o pior dos pecadores.

Eu penso que Paulo se considerava o pior, o principal, pelo menos por duas razões:

A primeira, é que todos os convertidos, ao pensar no pecado em seu coração, sabem que praga horrorosa, daninha, é o pecado.

Sabem que o seu coração natural é corrupto, enganoso, mentiroso, vaidoso, e odeia e lamenta essa vaidade que nele existe.

A segunda razão, eu penso, é que não existe pior espécie de pecador do que aquele que se acha um santo.

Esse tipo de pessoa pensa não haver motivos para se converter, ser quebrantada; ela se coloca num pedestal de santidade.

E era assim que Paulo pensava sobre si mesmo: irrepreensível na obediência à lei do Senhor.

Mas agora, quando Paulo olha para si mesmo no passado, ele diz: “De todos os pecadores, eu sou o principal”.

“E se eu fui alcançado, significa que qualquer pecador pode ser”.

E na carta aos Efésios, falando sobre todos os crentes, escreve:

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, nos deu vida juntamente com Cristo; pela graça sois salvos, mediante a fé.

Não é sem razão que então, aos Coríntios, ele diz:

Deus é nosso Pai de misericórdias.

2ª. A misericórdia nas virtudes de caráter

1ª Co 7.25 -  Com respeito às virgens, não tenho mandamento do Senhor; porém dou minha opinião, como tendo recebido do Senhor a misericórdia de ser fiel.

Nesse contexto, o apóstolo está respondendo a algumas perguntas que os coríntios haviam feito sobre casamento.

Se o crente deve se casar, ou não; sobre relações conjugais.

E Paulo responde de acordo com as instruções dadas diretamente pelo próprio Jesus.

Mas aqui no v. 25, ele diz que no assunto de casar-se ou não, não há um mandamento direto do Senhor; ele vai apenas dar a sua própria opinião.

E o faz como alguém que recebeu do Senhor a misericórdia de ser fiel.

Isto é, ele responde aos coríntios com fidelidade a Jesus.

Mas o que eu desejo “pinçar” aqui é que Paulo reconhece: – “Se eu sou fiel, é porque a mim foi concedida essa misericórdia”.

Sim, como crentes em Jesus, nosso caráter deve ser assim: fiel. A fidelidade adorna a vida dos eleitos de Deus, e glorifica o Evangelho.

Como todas as outras virtudes: honestidade, lealdade, amor, prudência, domínio próprio, humildade, pureza, verdade, temperança, justiça, fortaleza, benevolência.

Mas só existe uma fonte da qual essas virtudes brotam em nossa alma: as misericórdias de Deus.

Pois aparte da misericórdia de Deus, as virtudes humanas só o tornam soberbo, um arremedo da verdadeira humanidade, e a soberba é diabólica.

Por isso, noutro contexto, Paulo repreende alguns coríntios que julgavam ser alguma coisa por suas próprias virtudes.

1ª Co 4.6-8 - Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro. 7 Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido? 8 Já estais fartos, já estais ricos; chegastes a reinar sem nós; sim, tomara reinásseis para que também nós viéssemos a reinar convosco.

Aqui, o apóstolo está sendo claramente sarcástico; zombando da presunção espiritual ridícula demonstrada por alguns, que se julgavam melhores que outros.

Quem é que te faz sobressair?

O que é que você tem, que não foi recebido?

E se foi recebido, porque você “se acha”?

Pois até aqueles dons mais essências, como a fé e o arrependimento, são isso mesmo: dons de Deus, para que ninguém se glorie.

3ª. A misericórdia do ministério

2ª Co 5.18-20 - Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, 19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. 20 De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.

Eu penso que não existe serviço mais honroso para um homem em nação estrangeira, do que o de ser um representante do seu país.

Um embaixador é o representante máximo de um país no exterior, responsável por defender interesses nacionais, negociar acordos, informar o governo e proteger cidadãos.

É o homem ou mulher designados para conduzir a política externa no dia a dia.

O que um embaixador fala, é em nome da sua nação. O que ele faz, é o seu país que está fazendo.

Nós, que antes éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus por meio de Cristo; e agora somos embaixadores do Reino de Cristo, como se Deus falasse por nosso intermédio, enviados para promover a reconciliação entre Deus e os homens.

2ª Co 4.1 - Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos.

O homem redimido pondera sobre o favor imere­cido, o perdão e misericórdia de um Deus que nos salvou a despeito de fraquezas e maldades.

Um mi­nistro idoso estava no leito de morte quando seu fiel diácono disse:

Ah, pastor, o senhor está para receber sua re­compensa.

Ah, não. Recompensa, não! Misericórdia!

 

Todo aquele que de alguma forma está envolvido no ministério da palavra do Evangelho deve enxergar essa honra como uma das misericórdias de Deus.

E a consciência disso, diz o apóstolo, fazia com que ele e seus colegas de ministério não desfalecessem, mas perseverassem.

Irmãos, eu sou chamado pastor. Quanta honra carrega essa palavra! Pois Jesus é o nosso Pastor.

Mas ele ordenou: – Fale a minha Palavra.

Irmãos, vocês são de muitas profissões diferentes; de situações sociais diferentes, temperamentos

Aqui na igreja, uns são líderes, outros são auxiliadores. Alguns de vocês são presbíteros, outros, diáconos. Outros são músicos; e todos nós, independente de nossos ofícios e serviços, somos embaixadores de Cristo.

Quanta honra para todos nós! Quanta honra quando lá no trabalho, lá na escola, lá na vizinhança, as pessoas olham para nós, e pensam:

Aquele homem, aquela mulher, é crente.

E digo isso, como aquele pastor, sem levar em conta o galardão que o Senhor nos dará no céu, pois mesmo se cumpríssemos toda a nossa obrigação, ainda sim, nada seria mais que o nosso dever.

Agora, quando nós próprios, voltamos os olhos para nós, perguntamos:

Mas porque Deus me concede esta honra, designando-me seu embaixador?

Ele é o Pai de misericórdias.

 Conclusão

Alguns anos atrás li a estória de um homem que viajando num trem, percebeu ao seu lado de um jovem clara­mente perturbado e ansioso.

Ele perguntou, e o moço contou que era um presidiário de volta da prisão.

Seu crime tinha envergonhado sua família, pobre e digna, e ninguém jamais o visitou ou lhe escreveu durante os anos na prisão.

Ele esperava que eles não tivessem escrito por falta de cultura. No entanto, não estava certo de ter sido perdoado.

O moço prosseguiu, explicando que queria facili­tar a situação para eles.

Por isso, escrevera pe­dindo que pusessem um sinal quando o trem pas­sasse pelo sítio nas imediações da cidade.

Se eles lhe tivessem perdoado e desejassem sua volta ao lar, dariam um sinal, amarrando uma fita branca na grande ma­cieira perto da estrada.

Se não o quisessem de volta, não fariam nada; ele ficaria no trem, e continuaria a viagem.

Quando se aproximavam da sua cidade, a tensão e desconforto do jovem aumentaram que ele não conseguia olhar; e fechou os olhos.

Alguns minutos mais tarde o homem ao lado colocou a mão no ombro do jovem presidiário e murmurou, com a voz embargada:

Tudo bem... A árvore toda está cheia de fitas brancas.

Há sempre algo milagroso acerca do amor profundo e permanente que transcende obstáculos e anula tendências naturais de orgulho e dor.

A misericórdia do Senhor é assim; como aquela árvore cheia de fitas, mas de várias cores.

Na árvore da vida, a Palavra de Deus, nós as vemos penduradas.

As fitas vermelhas com o sangue de Jesus, que nos purifica de todo o pecado.

As fitas brancas do fruto do Espírito Santo: paz, alegria, bondade, mansidão, domínio próprio.

As fitas verde esperança, as promessas do Pai, que nos concedem graça para orar, esperar com paciência, que nos consolam nas tribulações.

Aplicações

Um coração em paz com Deus

Volta, alma, ao teu sossego, e descansa no Senhor.

Lança fora todo o medo, e confia no seu amor.

Nada, e ninguém, pode te separar do amor de Deus

Nem o diabo, nem as circunstâncias do passado, do presente ou do futuro.

Nem o pecado, pois Jesus já o levou na cruz.

Um coração grato, satisfeito

Um coração humildade, dócil, gentil, misericordioso.

Oração

Pai de misericórdias

Tua majestade é incomparável, tua bondade é é sem igual; tua graça é maior que vida.

Não temos como enumerar as tuas misericórdias para conosco. Em parte nos conhecemos.

Mas mesmo essa pequena parte, não te agradecemos o suficiente; não te louvamos o suficiente.

Agradecemos pelo nosso estado de saúde. Pela preservação das nossas vida, pela preservação das nossas capacidades mentais, pelos cuidados com a nossa vida emocional.

Agradecemos pelos confortos de uma casa, de um lar: o alimento diário, as vestimentas.

Agradecemos pelas nossas famílias, pela ajuda e apoio que recebemos em casa.

Agradecemos pelas alegrias da harmonia e paz domésticas; agradecemos pelos nossos familiares.

Agradecemos pela tua Palavra, pela igreja, pelos irmãos; pelo trabalho; pela nossa nação.

O Senhor é tão generoso, e nos abençoa tanto!!!

Mas Senhor, quando percebemos apenas um pouco das tuas misericórdias, como lamentamos nossos pecados, nossa ingratidão, e quantos dias e vezes pecamos contra ti.

Os céus e a terra, os principados e potestades, os homens, os nossos corações e nossas consciências, testemunham contra nós, que nós quebramos a tua lei.

Não as negamos, Senhor, nem apresentamos desculpas; pois só nos resta admitir que pecamos.

E as tuas misericórdia são a causa de não sermos consumidos.

Quando arrependidos te buscamos, o Senhor não nos lança fora da tua presença; não nos condenas, não medes a altura, nem o número das nossas transgressões.

Pois Jesus levou sobre si os nossos pecados; pois na cruz, toda a nossa dívida foi cancelada.

Bendito seja o Senhor, que dia a dia leva o nosso fardo.

Bendito seja o Pai, o Filho, e o Espírito Santo. Amém.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

Não dê vantagens a Satanás - 2ª Co 2.1-11

Pr. Plinio Fernandes

Mensagem de Domingo, 23 de agosto de 2026, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos

Amados irmãos, vamos ler 2ª aos Coríntios 2.1-11


Isto deliberei por mim mesmo: não voltar a encontrar-me convosco em tristeza. 2 Porque, se eu vos entristeço, quem me alegrará, senão aquele que está entristecido por mim mesmo? 3 E isto escrevi para que, quando for, não tenha tristeza da parte daqueles que deveriam alegrar-me, confiando em todos vós de que a minha alegria é também a vossa. 4 Porque, no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida. 5 Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós; 6 basta-lhe a punição pela maioria. 7 De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza. 8 Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor. 9 E foi por isso também que vos escrevi, para ter prova de que, em tudo, sois obedientes. 10 A quem perdoais alguma coisa, também eu perdoo; porque, de fato, o que tenho perdoado (se alguma coisa tenho perdoado), por causa de vós o fiz na presença de Cristo; 11 para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios.

    Intr.

    Na Bíblia nós temos duas cartas que o apóstolo Paulo escreveu à igreja de Corinto.

    A primeira ele escreveu enquanto estava na cidade de Éfeso, e ali recebeu uma visita de crentes coríntios, que relataram alguns problemas da igreja, e levaram uma carta em que a igreja pedia orientações para a vida em geral.

    A segunda, essa que estamos estudando.

    Mas na verdade, ele escreveu pelo menos mais uma, e talvez duas, que não foram preservadas.

   Nós não conhecemos todos os detalhes que gostaríamos, mas por essas duas que temos, entendemos que, depois de ter escrito a primeira, Paulo os visitou, conforme havia dito em 1ª Co 16.57, na esperança de que a igreja o ajudasse a prosseguir em suas viagens.

   E foi nessa ocasião que algo muito triste aconteceu. Uma pessoa da igreja publicamente ofendeu o apóstolo Paulo.

   Uma coisa, é claro, que ele não esperava; e ficou sem reação. Mas desejou que a igreja, que o conhecia bem, o defendesse, e corrigisse o ofensor; mas ninguém reagiu.

   Então Paulo, ao partir dali, para continuar suas viagens, mas com um grande peso no coração, disse que voltaria noutra ocasião.

  Algum tempo depois, refletindo sobre o assunto, e ainda tomado pela tristeza, em vez de ir pessoalmente, achou melhor escrever uma carta.

  Essa, que não foi preservada, é mencionada aqui nos vs. 1-4, e que alguns estudiosos chamam de “carta severa”, e outros, “carta lacrimosa”.

  Severa porque nela Paulo usou palavras fortes de repreensão à igreja, e lacrimosa porque ele escreveu aos prantos.

  Então Tito, um dos colaboradores de Paulo, levou a carta aos coríntios, e depois disso se encontraria com Paulo na cidade Trôade, para dar notícias sobre a reação da igreja.

 Mas quando chegou a Trôade e Tito não estava lá, Paulo ficou mais triste ainda, e partiu para a Macedônia, onde havia a igreja de Filipos e outras.

 O que ele não sabia àquela altura é que sua carta severa havia produzido bons frutos: a igreja se arrependeu de sua inércia, repreendeu o ofensor, que se disse arrependido também, e contaram a Tito como tinham saudades do apóstolo.

  Quando finalmente se encontrou com Tito, Paulo ficou transbordante de alegria.

  Por isso torna a escrever, agora pedindo que o seu ofensor fosse restaurado; que fosse perdoado e confortado, senão, Satanás alcançaria vantagem sobre todos.

  Prop.

v. 11 - para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios.

  Com base nos acontecimentos aqui, eu quero meditar com vocês sobre três comportamentos, ou atitudes do crente, das quais devemos fugir, pois têm o potencial de dar vantagens a Satanás.

  Divs

  1. Primeira atitude: a de ofensor

  Por um lado Satanás alcança vantagem porque usa o ofensor; por outro, porque fere o ofendido.

  E com ofensa eu quero dizer um ataque a outra pessoa, ao seu caráter; um ultraje; um desrespeito.

 O que teria acontecido especificamente é motivo de várias teorias, pois Paulo evita descrever diretamente o caso.

  Mas espalhadas pela carta, ele alude a diversas insinuações que eram feitas, e situações ocorridas, que teriam potencial para feri-lo.

 Por exemplo, como já vimos anteriormente, alguns desprezavam a sua autoridade, dizendo que as cartas eram enérgicas, mas pessoalmente, seu ministério era fraco, insignificante.

 Também havia afirmações de que Paulo era um pequeno tirano, um ditador que gostava de dominar a vida de fé dos irmãos; que nutria disposições carnais em seu coração.

 Havia insinuações (talvez porque Paulo expressou desejo de ser enviado pelos Coríntios em suas viagens missionárias), de que ele era um ganancioso, mercadejador da fé – por isso nos capítulos 8 e 9, ao falar sobre ofertas para as igrejas pobres, ele enfatiza que não receberia nada pessoalmente deles, mas encarregaria outros irmãos para isso.

 Havia até quem dissesse que Paulo não tinha cartas de recomendação de Jerusalém.

 Mas há uma hipótese bem antiga, dos primeiros séculos,1 que me parece bastante plausível.

 É que em 1ª aos Coríntios 5, Paulo precisou tratar de um assunto delicado.

 Houve um homem na igreja, que estava praticando imoralidade sexual. Era tão atrevido que tinha relações com a esposa do seu próprio pai.

 E a igreja não tomou atitude alguma.

 Quando ficou sabendo, Paulo os repreendeu fortemente, para que excluíssem aquele homem da igreja, que o entregassem a Satanás, a fim de que, sendo castigado em sua carne, se arrependesse e seu espírito fosse salvo.

 Depois, quando Paulo foi novamente a Corinto, esperando que a igreja tivesse obedecido, o que encontrou foi desobediência, a ponto de alguém desrespeitá-lo publicamente; talvez o próprio imoral.

 Seja isso o que aconteceu ou não, o que é claro é que alguém na igreja insultou Paulo, e ficou por isso mesmo.

 O escritor John Bevere, com muita razão, diz que “a ofensa é isca de Satanás”,2 um instrumento através do qual o diabo fere e desperta dores no ofendido, provoca amarguras em seu coração.

 Por outro lado, o ofensor provoca tristezas, divisões e escândalos na igreja.

 A prática da ofensa é fruto de orgulho, sentimento de superioridade, rebeldia contra a Palavra de Deus. O ofensor não se acha em pecado; ao contrário, ele se acha cheio de razão.

 E Satanás alcança vantagem.

  2. Segunda atitude: a falta de correção

  Por que Paulo esperava que a igreja o tivesse defendido, e repreendido ao seu ofensor?

  Não foi ele que escreveu: – “Se tendes alguma queixa contra outrem, perdoai, como Deus em Cristo vos perdoou” 3 ?

  Não foi ele que escreveu: – “Abençoai os que vos maldizem, orai pelos perseguem... vencei o mal com o bem...?” 4

  Então, por que aqui exigiu que o ofensor fosse punido?

  A resposta é: “para o bem de todos”.

  Mais tarde, no cap. 7, Paulo enfatizará que sua maior motivação foi dar oportunidade à igreja para fazer o que é certo. Mas isso não quer dizer que fosse a única razão.

  Primeiro, ele deixa claríssimo, havia sido machucado, e isso por pessoas que deveriam alegrá-lo. Pessoas a quem amava muito.

vs. 4, 5 – Porque, no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida. 5 Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós.

  Há duas expressões que revelam muito do sentimento que Paulo nutria.

  Uma delas é que, sentia, o ofensor não tinha entristecido somente a ele, mas, em parte, à igreja também.

  Isto é, Paulo se sentia parte da igreja, como membro de um corpo. E como ele já havia ensinado antes, “se um membro sofre, todos sofrem com ele”.

  A outra expressão é “escrevi com muitas lágrimas, não com o propósito de deixar vocês tristes, mas para que vocês conheçam o amor sem medida que tenho por vocês”.

  No capítulo 6 ele não mede palavras para expressar seu amor.

2ª Co 6.11-13 – Para vós outros, ó coríntios, abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração. 12 Não tendes limites em nós; mas estais limitados em vossos próprios afetos. 13 Ora, como justa retribuição (falo-vos como a filhos), dilatai-vos também vós.

  Não me parece a “chorosidade de um coração ensimesmado”, mas de um homem pleno da graça de Deus, que se entregava pela igreja.

  Paulo era humano, emotivo, coração cheio de amor, disposto a perdoar, mas também entendia a dignidade humana; que ofender a outro ser humano é pecado.

    Paulo entendia a necessidade de arrependimento do ofensor, e a responsabilidade da igreja.

  Além disso, se a integridade pessoal de Paulo estava sendo destruída, não era um pecado sem importância; ao contrário, de extrema relevância.

    A segunda razão é que o ofensor tinha a necessidade espiritual de ser corrigido.

    Jesus veio para chamar pecadores ao arrependimento.

    Ele colocou o arrependimento como condição para o perdão.

    Tanto em nosso relacionamento com Deus, como em nossos relacionamentos uns com os outros.

    E também disse que, quando um irmão ofende outro, deve haver amorosa confrontação.

    Um assunto tão relevante ponto de, se alguém não se arrepender, deve ser excluído da comunhão.

    Amar significa perdoar, mas também corrigir.

    Porque a correção é um instrumento de libertação.

2ª Tm 2.24-26 - Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, 25 disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, 26 mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade.

  Irmãos, orar é necessário em todas as ocasiões; mas às vezes, para que alguém seja liberto dos laços do diabo, a solução não é “oração de libertação”; não é "vigília no monte". E também não é "água benta nem óleo ungido"; é disciplina; com mansidão, com paciência, com instrução, mas disciplina, visando arrependimento. Arrependimento liberta.

 Há pessoas que simplesmente não crescem espiritualmente, porque não são disciplinadas, ou não aprendem com a disciplina. São eternos ofensores, escravos de si mesmos e de Satanás.

  Se não houver arrependimento, quem leva vantagem é o diabo.

  E em terceiro, a igreja precisa corrigir os ofensores, para o seu próprio bem.

 Por mais que tenhamos boa vontade, se for uma boa vontade que desobedece a Deus, quem leva vantagem é o diabo.

  Mas vamos ao terceiro ponto. O diabo também leva vantagem quando há...

  3. Correção em excesso

vs. 6, 7 – ...basta-lhe a punição pela maioria. 7 De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza. 8 Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor.

  Muitas vezes, a tristeza é uma necessidade espiritual. Ela faz parte do nosso processo de santificação.

  Choramos quando percebemos a praga do pecado que ainda habita em nós.5

  Choramos quando vemos o pecado na igreja.6

  Quando vemos os males do mundo. Jesus chorou, ao ver os males do mundo.7

  Choramos quando disciplinados por Deus.8

  No cap. 7, encerrando o assunto, Paulo diz que foi bom todos terem se entristecido com tudo o que aconteceu.

2ª Co 7.8-10 – Porquanto, ainda que vos tenha contristado com a carta, não me arrependo; embora já me tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou por breve tempo), 9 agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. 10 Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte.

  Por essas coisas sabemos: em certas ocasiões, uma dose de tristeza é necessária para a nossa saúde espiritual.

  Mas ainda assim, quando é excessiva, faz mal, torna-se destrutiva. Como um remédio, que deve ser tomado nas horas certas, na dose certa, durante certo tempo; mas se houver superdosagem, fará mal à saúde.

  Então, primeiro a correção, na esperança de que haja arrependimento.

  Mas depois do arrependimento, o conforto, o amor, o perdão, de todos os ofendidos.

  Para que Satanás não leve vantagem.

 Vejam que, em momento algum, Paulo diz que as coisas que tinham acontecido foram causadas diretamente por Satanás.

 Ele vê tudo como comportamentos humanos que tinham que ser corrigidos por comportamentos humanos.

  Mas, ao mesmo tempo, entendia que o verdadeiro mundo em que habitamos não é constituído apenas de interesses humanos.

  Que a nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados e potestades.9

  E os principados e potestades, que estão observando a igreja, devem pelo testemunho dela conhecer a sabedoria de Deus.10

  Não somente pela correção, mas também pelo perdão, pelo amor, pela consolação.

  Se não houver perdão, consolação para os arrependidos, quem leva vantagem sobre todos é o diabo.

  Se houver persistência de amarguras, ou excesso de disciplina, quem leva vantagem sobre os ofendidos é Satanás.

  Conclusão

  Vamos resumir o que destacamos.

  Satanás, o inimigo das nossas almas, alcança vantagem sobre nós:

  Quando cometemos ofensas contra os nossos irmãos.

  Quando nos sentimos ofendidos.

  Quando os ofensores não são corrigidos.

  Quando os arrependidos não são perdoados.

  Quando, ao invés de entender que a luta do crente é contra os principados e potestades, os crentes ficam lutando uns contra os outros, com divisões, orgulhos e ofensas.

  Em outras palavras, Satanás atira para todos os lados, e qualquer que seja o estrago, agrada a ele.

  Aplicações

  Não dê vantagem ao diabo

  1. Não ofenda seus irmãos; mas se tiver acontecido, em nome de Jesus, pela graça de Jesus que há em você, procure-o, converse com ele, reconcilie-se com ele.

  Mas, e se a sua intenção não foi ofender? Da mesma forma, procure.

  Um pastor que conheci, me contou de uma família que se sentiu ofendida por ele. Aquelas pessoas sentiam que o pastor as desprezava. Mas ele não entendia da mesma maneira.

  Então, depois de ouvir tudo o que tinham a dizer, ele respondeu:

  – Irmãos, eu realmente não consigo enxergar as coisas assim; nada fiz para desprezá-los. Mas eu quero pedir uma coisa: os irmãos podem me perdoar?

  E houve lágrimas, e perdão, e se tornaram grandes amigos.

  2. Se você não for o ofensor, mas o ofendido, não o condene em seu coração.

  Não crie raízes amargas em seu coração; ela não somente perturbaria você, mas se espalharia para o coração de outros.

  Procure o irmão que o entristeceu, ou despertou sua ira. Converse de irmão para irmão.

  Se não conseguir que o outro se arrependa, então você tem dois caminhos possíveis:

  Primeiro, não leve mais em consideração, supere, dê tempo ao seu irmão, para que ele seja trabalhado pelo Senhor.

  Mas segundo, se não estiver conseguindo, se a ferida for grande, peça ajuda de alguém.

  Alguém que seja compreensivo, discreto, que tenha domínio de si, para ajudá-los a conversar.

  Não foi isso que Paulo pediu ao seu cooperador em Filipos, para que ajudasse Evódia e Síntique a se reconciliarem?

  Pessoas santas, amorosas e compreensivas podem ajudar muito.

  3. Se necessário, submeta-se à correção pastoral, e à correção da igreja.

  Permita ser confrontado.

  Não seja um lobo disfarçado de ovelha. Uma das coisas mais tristes que vejo é quando pessoas, ao invés de reconhecer seus erros, ficam colocando a culpa em outros.

  Submeta-se à disciplina

  Não caia na armadilha de pensar que ninguém tem nada a ver com tua vida. Não seja orgulhoso. Não seja rebelde. Não provoque divisões.

  4. Perdoe os arrependidos

  Não guarde rancor. Não se afaste. Abra o seu coração ao Espírito Santo.

  Eu sei que isso, o abrir o coração, muitas vezes dói – veja as dores de Paulo. Mas não deixe que os pecados de outros façam o seu amor esfriar. Você foi chamado para amar com um amor semelhante a Jesus.


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1 Conf. Hubbard, Moyer V., Comentário expositivo em 2ª aos Coríntios (São Paulo: Vida Nova, 2021), pág. 33; Kruse, Colin, II Coríntios, Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1994), págs. 46-50; Keener, S. Craig, Comentário Hisórico-Cultural da Bíblia – Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2017), pág. 598.

2 Bevere, John, A isca de Satanás (Rio de Janeiro: Luz para as nações, 2019).

3 Cl 3.13

4 Rm 12.14, 21

5 Tg 4.9

6 Sl 119.136

7 Lc 19.41

8 Hb 12.11

9 Ef 6.11, 12

10 Ef 3.10


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