Pr. Plinio Fernandes
Mensagem pregada na 3a Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos.
Domingo, 2 de agosto de 2026
2ª Co 1.8-11 - Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida. 9 Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos; 10 o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos, 11 ajudando-nos também vós, com as vossas orações a nosso favor, para que, por muitos, sejam dadas graças a nosso respeito, pelo benefício que nos foi concedido por meio de muitos.
Intr.
Vocês sabem que, uma semana depois de eu ter sido ordenado, no sábado seguinte, um dia antes do meu primeiro domingo como pastor, fui vítima de um ato criminoso.
Só por diversão, alguém que estava numa festa, atirou uma grande pedra contra mim, e me atingiu na cabeça.
Eu sofri uma comoção cerebral.
Durante dois anos precisei lidar com vertigens dia e noite, cefaleias terríveis.
Certa noite o mal-estar era tão grande que pensei estar morrendo.
Então me assentei na beira da cama e orei.
– Senhor, eu não tenho medo de morrer. Mas eu quero viver. Tenho esposa e filhas pequenas. E agora estou iniciando meu pastorado. Eu gostaria de te servir por muitos anos.
E, enquanto orava, senti um bem-estar, uma paz, que certamente, posso interpretar, era o Senhor me dizendo.
– Eu ouvi a tua oração.
Eu sei que também havia muitas outras pessoas orando por mim.
E não foi a primeira vez que o Senhor me livrou; pois anos antes eu havia sido atropelado e gravemente ferido.
E como aconteceu alguns anos atrás que, certo domingo, que começara como outro qualquer, eu sofri um infarto.
Situações assim, com perigos de morte, são comuns a todos nós.
Aliás, todos nós, a menos que Jesus volte antes, iremos morrer; e as pessoas que amamos.
Sabemos disso, mas não gostamos nem de pensar no assunto, pois a morte é contrária à nossa natureza criada por Deus.
Deus, ao nos criar à sua imagem e semelhança, colocou a eternidade no nosso coração (Ec 3.11).
Bem, é justamente sua própria atitude diante da morte, a nossa grande inimiga, que Paulo toma como exemplo ao falar das misericórdias e consolações do Senhor em nós, os que cremos em Jesus.
Os irmãos se recordam que, nos vs. 3-7, Paulo escreveu que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias, e Deus de toda a consolação, ele é quem nos conforta em toda e qualquer angústia.
Agora, para ilustrar essa doutrina, ele conta de uma situação dificílima que viveu na Província Romana da Ásia (onde hoje é a Turquia; Éfeso era a capital daquela região).
Foi tão difícil que Paulo perdeu a esperança de continuar vivo, e disse a si mesmo que iria morrer.
Mas disse isso com tranquilidade, pois confiava que sua vida estava nas mãos de Deus.
v. 9 – Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos...
Prop.
Não confiamos em nós mesmos. Confiamos em Deus. Confiamos em Deus mesmo diante do nosso maior inimigo.
Por que confiamos em Deus?
Divs.
1º. Confiamos no Deus que ressuscita os mortos
Ressurreição, uma doutrina bíblica tão antiga quanto o Livro de Gênesis, significa “a volta do espírito e da vida ao mesmo corpo”, com as suas propriedades humanas.
Neste sentido, nós temos nas Escrituras vários casos de pessoas com quem isso aconteceu.
O filho de uma viúva, uma jovem chamada Dorcas, Lázaro, e outros.
No entanto, ainda que a ressurreição de cada uma dessas pessoas tenha sido um grande milagre, a Bíblia nos mostra que esses casos são apenas uma amostra, um sinal da ressurreição para a vida eterna.
A ressurreição, no sentido pleno da palavra, significa a volta do espírito ao mesmo corpo, para uma vida eterna, juntamente com Cristo.
Significa que no dia da vinda de Cristo, com disse o profeta Daniel, os muitos que dormem no pó da terra voltarão à vida.
Ou o Livro do Apocalipse:
Deu o mar os seus mortos, a morte e o além entregaram os seus mortos.
Na 1ª Carta aos Coríntios, Paulo já havia explicado essa doutrina bem extensamente, pois havia alguns “mestres” que não acreditavam nela.
E argumenta que, se não existe ressurreição, Cristo não ressuscitou; e se ele não ressuscitou, é vã a nossa fé, e ainda permanecemos nos nossos pecados.
1ª Co 15.14-19 - E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; 15 e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam. 16 Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. 17 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. 18 E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. 19 Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.
Por que seríamos os mais infelizes?
Porque não teria sentido crer em Jesus.
Não teria sentido pregar.
Porque permaneceríamos nos nossos pecados.
E os que já dormiram em Cristo, tudo já teria acabado para eles.
E nós, os que ficamos, não teríamos motivo algum para lutar contra os males da vida.
Se não houvesse ressurreição, e ainda assim fôssemos crentes, estaríamos jogando nossa vida fora, vivendo e morrendo por uma mentira.
1ª Co 15.30-32 - E por que também nós nos expomos a perigos a toda hora? 31 Dia após dia, morro! Eu o protesto, irmãos, pela glória que tenho em vós outros, em Cristo Jesus, nosso Senhor. 32 Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos.
Não sabemos exatamente quando foi essa luta de Paulo com feras, na cidade de Éfeso.
Mas porque ele arriscaria a própria vida se, morrendo não há ressurreição? Estaria se arriscando à toa, apenas perdendo seu tempo.
Mas não! Paulo, que antes havia sido tão incrédulo, ele mesmo viu o Senhor Jesus ressurreto, glorioso; ouviu sua voz. Ele sabia em quem havia crido.
E não trocava essa vida de fé por qualquer coisa deste mundo.
Portanto, quando a Escritura nos ensina a ressurreição dos mortos, estabelece uma das doutrinas essenciais da nossa fé, sem a qual tudo o mais não teria sentido.
Confiamos no Deus que ressuscita os mortos. O Deus que não nos deixará na morte, mas nos levantará de entre os mortos para a vida eterna.
Então não temos medo de morrer; nem estamos desperdiçando nosso tempo.
2º. Confiamos no Deus que governa nossa vida
v.10 – o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos...
Mais tarde, nessa mesma carta, Paulo acrescenta um sem-número de ocasiões em que se viu cercado de perigos.
2ª Co 11.24-27 – Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; 25 fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; 26 em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; 27 em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez.
Não foi apenas uma vez que ele correu o risco de morrer, nem essas foram as últimas.
Por isso que em Atos dos Apóstolos ele diz que, o Espírito Santo lhe assegurava, sempre haveria prisões e tribulações, de cidade em cidade (At 20.23).
E aqui no capítulo 1 ele escreve:
– Irmãos, Deus livrou-nos de tão grande morte, e continuará a livrar-nos. Eu tenho esta certeza.
Para que não entendamos mal, e pensemos que Paulo era um ingênuo simplesmente destemido, pensando que nunca poderia morrer em situações assim, eu quero comparar com o que ele escreveu em sua última carta; 2ª a Timóteo.
2ª Tm 4.6-8 – Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. 7 Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. 8 Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.
2ª Tm 4.18 – O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!
Veja; aqui em 2ª a Timóteo, mais uma vez, estava preso, por causa da pregação do Evangelho.
Ele sabia que seus dias aqui estavam terminando.
Já havia cumprido sua missão; combatido o bom combate. O Senhor o livraria de toda a obra maligna, e logo o receberia no seu reino celestial.
Não muito tempo depois, sob as ordens de Nero, Paulo foi executado.
Mas então, porque, na carta aos Coríntios, ele diz que Deus o livraria?
Pelo menos por duas razões:
Uma, é que aqui no contexto da carta A Timóteo, Deus não nos livra das tribulações; ele nos livra nas tribulações.
Mesmo que ele morresse, sabia que estaria a salvo, seguro, livre de toda a obra de Satanás; seria recebido no céu.
A segunda, no contexto da carta aos Coríntios, é que quando escreveu essa carta, uns dez anos antes de 2ª a Timóteo, Paulo ainda tinha muito o que fazer, e sabia disso.
Quero reforçar essa ideia.
Fp 1.21-24 – Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. 22 Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. 23 Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. 24 Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne.
Por isso é que aos Coríntios ele diz: – Deus nos livrou de tão grande morte, e continuará nos livrando.
– Ele é quem governa nossa vida.
– Se for para morrer, isto está sob o governo de Deus. Se for para viver, também.
O Deus que ressuscita os mortos, ele é Senhor sobre nossa vida toda.
3º. Confiamos no Deus que é muito próximo a nós
v. 11 – ... ajudando-nos também vós, com as vossas orações a nosso favor, para que, por muitos, sejam dadas graças a nosso respeito, pelo benefício que nos foi concedido por meio de muitos.
A oração, conforme nos ensinam as Escrituras, não é a recitação de palavras certas, ordens de poder, repetições mágicas.
Oração é falar com Deus.
Não apenas falar a Deus, mas falar com Deus, uma comunicação entre nós e a Trindade Santíssima.
Há um sentido em que Deus está bem perto de todos os seres humanos.
Pois como diz o livro de Atos, “nele nos movemos e existimos” (At 17.28).
Há um sentido em que Deus está bem perto de toda a sua criação, mesmo onde não há qualquer ser humano.
A presença de Deus enche a terra, “o céu, e o céu dos céus” (Ne 9.6).
Mas Deus está próximo dos crentes em Jesus de um modo muito especial.
Naquele sentido espiritual, de comunhão com o Pai, de conhecimento do Espírito, que só pode chegar-se a Deus aquele que crê em Jesus.
Jesus mesmo é quem nos ensina dizendo:
Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim (Jo 14.6)
Em razão dessa proximidade com Deus, o Pai, por causa da fé em Jesus, é que somos ensinados a orar, daqui da terra: “Pai nosso que estás nos céus...” (Mt 6.9).
Podemos orar por nós mesmos e uns pelos outros, em nome de Jesus, sem necessitar qualquer outro mediador no céu, pois Jesus é o nosso único e suficiente salvador.
É à luz disso, que podemos entender a certeza de Paulo.
v. 11 – ... ajudando-nos também vós, com as vossas orações a nosso favor...
Irmãos, para que tenhamos uma breve noção das maravilhas das misericórdias do nosso Pai, vejam quem está pedindo orações: Paulo, apóstolo escolhido pessoalmente por Jesus Cristo; ministro da nova aliança; homem de Deus; servo dedicado, fiel até a morte, mestre.
Vejam a quem ele está pedindo orações em seu favor: à igreja de Corinto; que podemos dizer com segurança, imatura, cheia de falhas, à qual Paulo, às vezes ternamente, às vezes com ira, precisou corrigir, repreender, ensinar a boa conduta.
Mas ainda assim Paulo pede que orem em seu favor, pois sabe que Deus nos aceita quando chegamos a ele pela fé em Jesus.
Para que oremos e abençoemos uns aos outros, não precisamos ser super-crentes. Basta que sejamos crentes.
Conclusão
Não é maravilhosa a misericórdia de Deus?
O Deus que ressuscita os mortos, o Deus cujas mãos dirigem o nosso destino, é o Deus que ouve as nossas orações.
É por isso que confiamos nele.
Aplicações
1. Não espere em Jesus somente para as coisas desta vida.
Creia na ressurreição dos mortos.
Creia na ressurreição de Jesus.
Creia na tua ressurreição, que Jesus ressuscitará você, crente, para a vida eterna.
Creia na ressurreição de todos os crentes.
Essa é a nossa fé; a doutrina que Jesus nos deu.
Que nos faz entender seu poder, sua sabedoria, seu amor.
Que nos consola a respeito dos nossos irmãos quando partem dessa vida.
2. Viva esta certeza
Não desperdice sua vida dizendo: comamos e morramos, porque amanhã morreremos.
Saiba que sua vida tem propósito. Você vive para Deus, para Jesus, para o Espírito Santo.
Não perca o ânimo, diante das tribulações, pois o Senhor está no governo de tudo.
Você vive para servir ao Senhor seu Deus e rei; e ao seu próximo.
3. Ore; ore sempre; ore sem cessar.
Fale a Deus nosso Pai, e ouça a sua voz nas Escrituras; deixe as Escrituras falarem ao teu coração, à tua mente. Elas são a voz do Espírito Santo.
Deus está perto, muito perto, de todos os que o invocam em verdade.
Deus os guia na retidão.
Deus atende às suas orações.
Oração
Pai celeste
A nossa porção é nos aproximar-mos de ti, com piedoso temor, e humilde confiança, pois tua bondade é tão grande quanto a tua glória.
Somos indignos, mas nos fizestes dignos.
Éramos culpados, mas nos perdoaste.
Somos pobres, mas tuas riquezas são infinitas, e tens nos feito teus herdeiros.
Tu não nos negaste o teu bem mais precioso, teu Filho Jesus.
Jesus Cristo é o fundamento da nossa confiança e esperança; o fundamento do nosso amor.
O refúgio em quem estamos seguros.
A certeza de que tu és o Deus que ressuscita os mortos, que governa nossas vidas, que está próximo a nós.
Somos felizes, porque somos teus; porque que estamos em Cristo; porque nele temos paz contigo, poque aguardamos a sua vinda.
Neste momento de adoração, em que vamos comer e beber a ceia do Senhor, esta ceia santificada, concede-nos que, participando conscientemente, sejamos fortalecidos em nossa fé; consolados em nossas tribulações, renovados em nosso amor; assim como somos perdoados dos nossos pecados. E se houver em nós algum caminho mal, guia-nos pelo caminho eterno.
Amém.