Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR, Deus dos Exércitos. Jeremias 15:16

domingo, 20 de setembro de 2026

A influência cristã no mundo - At 17.1-10

Pr. Plinio Fernandes

Mensagem de Domingo, 20 de setembro de 2026, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulos


Amados irmãos, vamos ler Atos 17.1-10

Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. 2 Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, 3 expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio. 4 Alguns deles foram persuadidos e unidos a Paulo e Silas, bem como numerosa multidão de gregos piedosos e muitas distintas mulheres. 5 Os judeus, porém, movidos de inveja, trazendo consigo alguns homens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba, alvoroçaram a cidade e, assaltando a casa de Jasom, procuravam trazê-los para o meio do povo. 6 Porém, não os encontrando, arrastaram Jasom e alguns irmãos perante as autoridades, clamando: Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui, 7 os quais Jasom hospedou. Todos estes procedem contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei. 8 Tanto a multidão como as autoridades ficaram agitadas ao ouvirem estas palavras; 9 contudo, soltaram Jasom e os mais, após terem recebido deles a fiança estipulada. 10 E logo, durante a noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia; ali chegados, dirigiram-se à sinagoga dos judeus.

Intr.

v. 6 – Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui.

Essa foi a artimanha difamatória que alguns judeus incrédulos, na cidade de Tessalônica, lançaram contra Paulo e Silas, pregadores do Evangelho.

Embora tenham falado por inveja, para caluniá-los e provocar tumultos, mentindo, dizendo que eram rebeldes contra o governo, o fato que eles deixam implícito aqui é que, onde a mensagem de Jesus chegava, as coisas mudavam, tanto individualmente, para os que recebiam a Palavra de Deus com fé, como na maneira como eles começavam a viver daí para frente.

E como uma pedra que jogada na água provoca ondas, assim também essas vidas transformadas inevitavelmente provocavam mudanças no mundo à sua volta.

Por exemplo, em Filipos os missionários expulsaram o demônio de uma jovem escrava que tinha um espírito de adivinhação.

Para a jovem, isso foi libertação, mas para “os senhores dela”, foi prejuízo econômico; então eles fizeram um tumulto tão grande na cidade que os missionários foram presos.

Em Éfeso, com a conversão do povo, os fabricantes de imagens é que tiveram prejuízo, o que novamente causou alvoroço, gritarias e perseguições.

Paulo e seus auxiliares, aonde chegassem, anunciavam o evangelho: ao povo comum, às autoridades judaicas e gentias, a ricos e pobres, a escravos e livres, a homens e mulheres.

E não havia como a Palavra de Deus voltar vazia: por um lado, muitos eram convertidos, deixavam seus ídolos, passavam a se reunir como um rebanho, em nome de Jesus para adorá-lo como Deus, para aprender uma vida nova.

Por outro lado, havia os que se sentiam prejudicados com isso, pois inevitavelmente, a presença da fé cristã estava mudando a ordem das coisas.

Nas igrejas, escravos e senhores sentavam-se juntos, lado a lado, e se chamavam de irmãos. As mulheres eram recebidas em pé de igualdade com os homens. O mesmo entre judeus e gentios. Em Cristo aprendiam a não mais fazer diferenças.

Transtornavam o mundo, pois mudavam maus costumes cultural e socialmente estabelecidos. Não com revoluções, não com rebeldia, não por força, nem por violência, mas pelo Espírito de Deus.

Na visão de muitos, a fé cristã prejudicava a sociedade; mas quando olhamos de longe, percebemos quão influente para o bem do mundo, tem sido a mensagem de Jesus.

Há muitos livros escritos a respeito disso: muitos, inclusive, acusando a Cristandade até hoje.

No primeiro e segundo séculos, pessoas que não entendiam a santa ceia diziam que os crentes eram canibais, pois comiam carne e sangue humanos; outros acusavam de incesto, pois os crentes se casavam com irmãs.

E é verdade que maus cristãos sempre existiram também, mas não por causa da Bíblia, e sim por falsas conversões, por perversões dos ensinos bíblicos.

Mas ao mesmo tempo, é claro como um dia ensolarado, que a fé cristã fez e faz bem para o mundo.

Prop.

Eu desejo focalizar apenas um aspecto doutrinário da nossa fé que tem transformado o mundo: o valor da vida humana.

No mundo greco-romano, “o indivíduo era considerado valioso apenas se fizesse parte do tecido político e pudesse contribuir para seus usos, como se a finalidade do ser humano fosse engrandecer o Estado. “ 1

Mas a fé evangélica mudou drasticamente essa visão. O homem passou a ser valorizado em si mesmo, como alguém que foi criado à imagem de Deus.

Hoje quase não conseguimos imaginar o poder dessa mensagem, mas creio que ele precisa ser relembrado, especialmente nesses dias sombrios, em que o autoritarismo ideológico e estatal se estabeleceu em muitas nações.

Quero citar apenas alguns exemplos de como a Palavra de Deus tem abençoado o mundo.

Divs.

1. O evangelho transforma a maneira de pensar sobre o valor das crianças

Várias práticas contra crianças, hoje reconhecemos serem criminosas; mas eram consideradas normais no mundo greco-romano.

A mudança no pensamento geral se deu pela influência do povo convertido a Jesus Cristo.

Uma das práticas malignas consideradas normais era o infanticídio de recém-nascidos

Então, se uma criancinha nascesse com alguma deficiência física, e considerada inútil para a sociedade, podia ser imediatamente estrangulada, ou atirada num precipício, ou afogada.

Isso era visto como natural e civilizado até mesmo por grandes filósofos como Cícero, Sêneca, Platão, Aristóteles.

O abandono de crianças – outra prática diabólica, mas comum e permitida, era o abandono de crianças indesejadas: eram abandonadas nos depósitos de lixo, nas florestas, nos desertos, para que fossam devoradas por animais e aves.

A prática do aborto também era aceita com naturalidade.

Naqueles dias, o que hoje chamamos “imoralidade sexual” fazia parte da vida com naturalidade.

Algum tempo atrás eu li sobre a pornografia (os comentaristas modernos chamam de arte erótica) na forma de afrescos na cidade de romana de Pompéia (aquela que o vulcão destruiu).

As cenas de relações sexuais de todos os tipos, as piadas sujas, espalhadas nas entradas e no interior das casas, nos muros da cidade, nos banhos públicos, os muitos bordéis. Tudo à vista de qualquer pessoa.

E não eram coisas tidas como imorais. Então a gravidez indesejada se multiplicava, e os abortos também.

Outra crueldade era a castração de meninos, para que fossem vendidos como escravos.

Agora, nós ficamos estarrecidos em constatar que essas, e muitas outras formas de crueldade com as crianças; mas não foram exclusividade da sociedade greco-romano.

Também acontecia em tribos africanas, em países da Ásia, entre os indígenas norte e sul-americanos, entre os astecas, os maias, entre os bárbaros da Europa.

Isso sem mencionar os sacrifícios humanos ao deus Moloque, na antiga Canaã.

Mas entre o povo da Antiga Aliança, e seus herdeiros da nova, cada criança, desde o momento da sua concepção, é considerada um ser criado à imagem e semelhança de Deus.

E o grande Deus, autor e consumador da Aliança, quando veio ao mundo disse:

Deixai vir a mim os pequeninos; não os embaraceis, porque dos tais é o reino dos céus.

E impondo as mãos, abençoava as criancinhas.

Por isso, desde cedo, todas essas coisas horrendas, essas depravações abomináveis, forma combatidas pelos crentes em Jesus.

Um dos livros mais antigos usados no discipulado, em preparação para o batismo no segundo século, é o chamado “Didaquê “. E nele se ordena aos discípulos do Senhor:

“Não mate a criança no seio de sua mãe, nem depois que ela tenha nascido. “2

Irmãos, a bem da verdade, esses crimes nunca foram totalmente erradicados do mundo. Assim como as coisas que apresentarei como exemplo depois.

Mas o modo de vida cristão, a doutrina acompanhada de ações concretas, foi determinante para que a sociedade como um todo viesse gradativamente a entender o pecado das várias formas de infanticídio e outros maus-tratos.

Primeiramente (a não ser em situações dificílimas, em que por exemplo, a mãe corre risco de vida), os cristãos bíblicos não praticam aborto. Digo bíblicos, pois há muitos que se dizem cristãos e não seguem a Bíblia.

Os cristãos condenam o aborto e qualquer forma de infanticídio.

Cada ser humano, mesmo que não plenamente desenvolvido, continua sendo humano, com uma alma eterna, criado à imagem de Deus.

Em segundo lugar, as famílias cristãs desenvolveram o hábito de adotar crianças rejeitadas.

Desde os primeiros séculos, as igrejas cristãs passaram até mesmo a criar programas de adoção; depois orfanatos.

Terceiro, os cristãos passaram a militar diligentemente, através de escritos teológicos e influência sobre os governos, para que essas práticas fossem proibidas.

Isso finalmente só foi proibido por lei no império romano quando, sob a influência do Bispo Basílio de Cesaréia, o imperador Valentiniano assinou um decreto.

E até hoje, em cada lugar do mundo em a mensagem de Jesus chega, ao constatar a prática de abusos contra crianças, os missionários ensinam, protestam, denunciam, cuidam das crianças, tirando muitas da prostituição, buscam a mudança das leis e costumes depravados.

Você deve se lembrar, por exemplo, da história que já estudamos aqui, de Amy Carmichael, a corajosa missionária que libertou muitíssimas crianças da escravidão na Índia.3

2. O evangelho transforma a maneira de se entender o valor das mulheres 4

As maiores vítimas de infanticídio na antiguidade eras meninas, cujo valor para o Estado era considerado secundário.

Assim, desde os mais influentes filósofos até o pai de família comum, a crença era de que as mulheres eram um tipo inferior de seres humanos.

Platão acreditava que as mulheres deviam de estar confinadas ao lar, enquanto os homens cuidavam dos negócios do Estado e do comércio.

Aristóteles ensinava que as mulheres eram inferiores aos homens, incapazes de pensamento abstrato e emocionalmente instáveis. Por essa razão, os maridos e os pais deviam governar as suas esposas e filhas.

Este pensamento reflete a atitude básica em relação às mulheres, durante o período da filosofia clássica.

Uma jovem grega, geralmente, era casada com um homem mais velho. O seu marido era livre para ter uma concubina, e o amor romântico não era esperado no casamento. O papel da esposa era gerar e criar filhos e administrar a casa.

Raramente saía de casa, e a sua educação limitava-se a aprender as tarefas domésticas. Não tinha permissão para possuir propriedades. E porque haveria de ter?

Eurípides, um dramaturgo, escreveu que “uma mulher é deficiente pelo intelecto “ e, Tucídides, um historiador, disse que “o nome de uma mulher decente, bem como a sua pessoa, deve ser trancado em casa “.5

Se um homem casado tivesse relações fora do casamento, isso não era considerado adultério dele. Mas se uma mulher fizesse isso, era considerada adúltera.

Por outro lado, a poligamia e o concubinato era aceitáveis até mesmo para os judeus.

Nós podemos observar, ainda que de modo menos escancarado, alguma atitude neste sentido até mesmo entre os discípulos de Jesus, quando, por exemplo, em Samaria, eles se admiram de que Jesus falava em público com uma mulher.

Mas ele não somente conversava; ele as tinha como discípulas; as tratava com respeito e compaixão, assim como fazia com todos os humildes de coração.

Jesus estabeleceu claramente que o casamento é entre um homem e uma mulher, e que o divórcio não é a perfeita vontade de Deus, a não ser quando houver infidelidade.

Na congregação de Jesus, as mulheres foram recebidas através do batismo. A igreja aprendeu a tratá-las com dignidade. Embora não possam ser pastoras, podem ministrar a Palavra de Deus, podem orar, coisas que antigamente eram proibidas.

E não somente mulheres infiéis são consideradas adúlteras, mas também os homens infiéis, pois não tem mais direitos do que elas.

Não tem sido, através dos tempos, uma mudança sem dificuldades, mas é inegável que a fé cristã mudou a visão da sociedade sobre o valor, a dignidade e os direitos da mulher.

Em muitos lugares do mundo, as mulheres ainda são vistas apenas como objeto de satisfação masculina.

Por isso, nalguns lugares da África a igreja continua lutando contra a prática da mutilação genital feminina.

Em algumas culturas, como um rito de passagem, mutilam cortando e costurando as mulheres, para que elas não tenham prazer sexual, e se mantenham puras.

Uma das práticas mais chocantes era o costume cultural indiano do sati, no qual as viúvas eram queimadas vivas juntamente com o marido morto.

Esperava-se que ela fizesse isso voluntariamente, mas se recusasse, muitas vezes era enviada à força para lá, até mesmo por seus filhos.

Se conseguisse escapar dessa instituição pagã, sua vida social era arruinada. Ela era tratada como uma “não-pessoa” – não apenas porque evitara a pira, mas também porque, entre os hindus na Índia, a vida de viúva era cultural e religiosamente desprezada.

Uma viúva só podia comer uma refeição por dia, realizar apenas tarefas simples e usar as roupas mais antiquadas; não podia mais dormir em uma cama; sua cabeça precisava ser raspada mensalmente para que ela fosse visível e indesejável para homens promíscuos; cerimônias religiosas e casamentos eram proibidos para ela; ela não podia ser vista por uma mulher grávida porque seu olhar poderia trazer uma maldição.

Como na Índia havia o costume de se noivar crianças com homens velhos, crianças viúvas, entre cinco e quinze anos estavam entre as queimadas vivas.

Em alguns casos, quando viúvas não eram queimadas vivas, eram enterradas vivas com seus maridos.

Mas a Índia não foi um caso isolado. A história mostra que viúvas também foram queimadas na Escandinávia, na China, na Finlândia, na Nova Zelândia, e por alguns índios americanos antes da chegada de Colombo.

Mas como diferente e humana é a visão sobre viúvas na Bíblia.

Jesus teve compaixão pela viúva de Naim, e ressuscitou o filho dela.

Repreendeu os fariseus, por se aproveitarem financeiramente das viúvas; elogiou a viúva pobre, que deu apenas duas moedinhas em sua oferta.

Paulo ordenou que os cristãos, especialmente os filhos e netos, honrassem suas mães viúvas.

Tiago escreveu que “a religião que Deus nosso Pai aceita como pura e sem falhas é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas aflições”.

Após a era do Novo Testamento, a preocupação com as viúvas na igreja continuou.

No início do século II, Inácio, bispo de Antioquia, escreveu:

“Não deixes que as viúvas sejam negligenciadas. Sê tu, depois do Senhor, seu protetor e amigo.”6

Após muitos anos de trabalho, os missionários cristãos conseguiram que a prática do sati fosse proibida na Índia.

Houve muitos protestos dos hindus. Quando a proibição entrou em vigor, muitos “gritaram que os alicerces da sociedade hindu seriam abalados se as viúvas não fossem queimadas vivas.”

Outros argumentaram que a proibição violava o Artigo 25 da constituição indiana, que concedia liberdade religiosa ao povo.

A proibição do sati ainda está em vigor hoje, mas há registros de que continua sendo praticado nalguns lugares. E há quem defenda a prática, com base nos direitos humanos de liberdade religiosa.

E o que dizer de certos “movimentos culturais”, que tratam as mulheres como animais e como objetos sexuais?

Por isso a luta continua.

3. O valor da liberdade

Eu quero destacar somente duas práticas culturais antigas que a fé evangélica levou séculos combatendo, e nalguns lugares, em suas variadas formas, combate até hoje.

O horroroso espetáculo dos gladiadores. A palavra “gladiador” vem de “gladio”, espada, e se refere aos que lutavam até a morte para a diversão das plateias.

Os jogos dos gladiadores eram espetáculos horrorosos patrocinados pelo Estado, ou por comerciantes influentes, para entreter à sociedade depravada no mundo antigo.

Um costume que teve início entre povos bárbaros, mas que ganhou um enorme apoio e se desenvolveu no império romano.

[Esses jogos] de gladiadores eram uma oportunidade para imperadores e patrícios ricos exibirem sua riqueza para a população, para comemorar vitórias militares, saudar a visita de autoridades importantes, celebrar aniversários ou simplesmente para distrair a população dos problemas políticos e econômicos do dia. 7

Além do coliseu em Roma, havia uns duzentos outros teatros espalhados pelo império, em que a população se reunia para assistir os homens lutarem uns com outros até à morte. E também lutas com feras.

Os gladiadores, na sua imensa maioria, eram homens escravizados, ou soldados derrotados em guerra, ou endividados. E alguns eram profissionais, que faziam por dinheiro.

Agora, você consegue imaginar homens e mulheres convertidos a Jesus convivendo tranquilamente com essa desgraça cultural e social?

Por isso não tardou, e os crentes começaram a combater, mas não com espada que mata, mas com a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.

Primeiro, é claro, os cristãos desprezavam esses espetáculos.

Em segundo lugar, não demorou para que escritores cristãos começassem a condenar a prática.

E terceiro, imperador Constantino, que se declarou cristão, no ano 325 fez um edito aos governadores dizendo:

“Em tempos em que há paz e calma política interna, não queremos manifestações sangrentas. É por isso que decretamos que não pode haver mais gladiadores. Aqueles que anteriormente foram condenados a se tornarem gladiadores por causa de seus crimes agora devem trabalhar nas minas. Desta forma, pagarão a pena pelos seus crimes sem ter que derramar o seu sangue.” 8

Finalmente em 404 d.C., o imperador Honório proibiu os jogos de gladiadores em todo império.

De acordo com o historiador Teodoreto, isso aconteceu quando Telêmaco, um monge cristão da Síria, saltou entre dois gladiadores para impedir o derramamento de sangue.

A multidão ficou indignada e apedrejou o monge até a morte.

Em consequência, o imperador proibiu definitivamente as disputas de gladiadores.

O terrível pecado da escravização. Essa tem sido uma das piores ervas daninhas na história da humanidade.

Mas ainda que até mesmo muitos cristãos esse é um pecado demorou a ser entendido como tal, há vários ensinamentos bíblicos que apontam desde cedo para o fim da escravidão.

O primeiro que desejo citar está num texto de Paulo a Timóteo, quando ele explica que a lei de Deus condena certos tipos de pessoas.

1ª Tm 1.8-10 - Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo, 9 tendo em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para transgressores e rebeldes, irreverentes e pecadores, ímpios e profanos, parricidas e matricidas, homicidas, 10 impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros e para tudo quanto se opõe à sã doutrina,

A expressão que desejo destacar é “raptores de homens”. No grego é uma palavra só. Algumas versões traduzem como “sequestradores”.

Agora me parece que a melhor versão é uma da Sociedade Bíblica de Portugal, que diz “traficantes de escravos”, pois na antiguidade o objetivo dos sequestros era fazer escravos.

Além disso, o evangelho ensina os senhores de escravos a tratá-los como irmãos. E por isso desde cedo, nas igrejas, não se considerava a classe social de alguém, para que pudesse fazer parte do povo de Deus.

Na igreja, escravos e livres eram batizados, tomavam a santa ceia juntos. E havia até mesmo escravos que eram pastores, presbíteros e diáconos.

Talvez uma das figuras mais proeminentes na história da abolição da escravatura no mundo ocidental tenha sido William Wilberforce. Ele não é um caso isolado, pois muitos crentes em Jesus, através dos séculos, têm lutado contra esse mal terrível.

Mas eu estou citando como exemplo, pois é um dos mais fortes.

Ele foi um parlamentar inglês nascido em 1759. Com trinta e um anos, tornou-se político. Em 1785, declarou-se cristão, na ala evangélica da Igreja Anglicana.

Dois anos depois começou sua parte na luta contra a escravidão. Digo sua parte porque muitos crentes abolicionistas trabalhavam juntos, comprando e libertando escravos, buscando a persuasão de parlamentares, pregando contra a escravidão.

Para Wilberforce, foram 41 anos de luta.

Em 1833, o parlamento inglês aprovou o Ato de Abolição da Escravidão. Três dias depois Wilberforce faleceu.

Mas como eu disse, ele não foi o único. Centenas de crentes, desde a antiguidade, ao entender o valor de cada vida humana, combateram e tem combatido a escravidão do homem pelo homem.

Conclusão

Quando o apóstolo João estava concluindo o seu Evangelho, ele disse que Jesus fez muitas coisas mais do que foram relatadas; mas que se fossem, nem todos os livros do mundo inteiro seriam suficientes. O que ele escreveu era suficiente para que nós creiamos que Jesus é o Cristo, e crendo, tenhamos vida em seu nome.

Acho que posso fazer um paralelo com a história das bênçãos que a doutrina de Jesus trouxe para o mundo.

A influência da fé cristã na educação, nas artes, nas ciências, na filosofia, na política, na criação de hospitais, é enorme e benéfica.

Não existe como escrever um livro que narre todo o bem que a fé cristã tem promovido.

Mas esse bem só se expande, essa influência só acontece, na medida em que o povo de Deus, seja como comunidade, seja individualmente, entende que deve submeter todas as esferas da vida humana ao senhorio de Cristo.

Aplicações

Eu quero fazer umas poucas, mas significativas aplicações para nós que aqui estamos.

Vou apenas citar sem comentar muito, três passagens bíblicas.

A primeiro delas está no livro de Daniel, um dos muitos jovens judeus que foram levados para o exílio na Babilônia, quando Jerusalém foi conquistada.

Daniel se mostrou uma pessoa muito santa, consagrada ao Senhor, e reconhecidamente sábio. Tanto que no exílio foi elevado à condição de conselheiro do rei Nabucodonosor.

Anos depois, no reinado de Ciro, o persa, também agiu como seu conselheiro. A história de Daniel cobre um período de mais de 60 anos.

O versículo que iremos ler retrata Daniel aconselhando o rei Nabucodonosor a praticar a justiça; do contrário Deus iria puni-lo.

Dn 4.27 – Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade.

O segundo texto está no livro de Ester: a história de uma rainha que foi instrumento de Deus para a salvação do povo judeu em tempos de perseguição na Pérsia.

Ester era uma judia que, pela providência divina tornou-se, nos tempos do exílio, esposa do rei Assuero, também chamado Xerxes.

Em seus dias, um homem ímpio, um certo Hamã, movido pelo ódio, quis exterminar o povo judeu, e fez colocou em ação várias armadilhas legais para alcançar seus intentos.

Mas o primo de Ester, Mordecai, avisou a rainha, pedindo que ele intervisse junto ao rei, para livrar seu povo.

A princípio Ester teve medo de se apresentar perante o rei para intervir, pois de acordo com a lei dos medo-persas, ninguém poderia comparecer sem ter sido chamado.

Então Mordecai insistiu, dizendo que a posição em que ela estava era estratégica.

Ester jejuou, pediu que jejuassem, e iria falar com o rei.

Nós conhecemos bem como, através de uma série de reviravoltas na história, o povo judeu pode se defender, e Hamã foi punido.

Et 4.13-14 - Então, lhes disse Mordecai que respondessem a Ester: Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus. 14 Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?

E o terceiro texto é uma orientação divina dada através do livro de Provérbios.

Pv 24.11-12 - Livra os que estão sendo levados para a morte e salva os que cambaleiam indo para serem mortos. 12 Se disseres: Não o soubemos, não o perceberá aquele que pesa os corações? Não o saberá aquele que atenta para a tua alma? E não pagará ele ao homem segundo as suas obras?

O que esses textos têm em comum?

Os primeiros dois falam a respeito de um homem e uma mulher de Deus que foram providencialmente colocados em posições de influência oficial diante de reis pagãos (uma palavra arcaica mas de claro sentido para nós: pessoas que desconheciam o Deus a quem servimos).

O terceiro se dirige a todos os crentes, isto é, a pessoas comuns, mas que têm conhecimento de alguém que esteja sendo oprimido, que precisa ser livrado. É dever de todo o crente fazer algo em favor dessa pessoa.

Mesmo num mundo pagão, os crentes podem ser expressivamente influentes na política, na vida cotidiana, na promoção da glória de Deus e na valorização do ser humano, criado à sua imagem.


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Notas

1 Richard Frothingham, The Rise of the Republic of the United States (Boston: Little, Brown, 1910), 6., citado em Schmidt, Alvin J., How Christianity changed the world (Grand Rapids, Mich.: Zondervan, ed. Epub 2009), cap. 2. Tradução minha.

2 Didaquê 2.2, em Coleção Patrística (São Paulo: Paulus, 1995, 2ª edição, formato eletrônico) vl. 1

3 Benge, Geoff e Janet, Heróis cristãos ontem e hoje, Amy Carmichael (São Paulo: Shedd Publicações, 2018).

4 Toda esta parte foi quase integralmente transcrita de Schmidt, Alvin J., op. cit. cap. 4. Tradução minha.

6 Inácio a Policarpo, 4.1, em Coleção Patristica (São Paulo: Paulus, 1995, 2ª edição, formato eletrônico) vl. 1

8 Id.

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