Mensagem de Domingo, 2 de março de 2024
Pr. Plinio Fernandes
Nos dias em que julgavam os juízes, houve fome na terra; e um homem de Belém de Judá saiu a habitar na terra de Moabe, com sua mulher e seus dois filhos. 2 Este homem se chamava Elimeleque, e sua mulher, Noemi; os filhos se chamavam Malom e Quiliom, efrateus, de Belém de Judá; vieram à terra de Moabe e ficaram ali. 3 Morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela com seus dois filhos, 4 os quais casaram com mulheres moabitas; era o nome de uma Orfa, e o nome da outra, Rute; e ficaram ali quase dez anos. 5 Morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando, assim, a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido. 6 Então, se dispôs ela com as suas noras e voltou da terra de Moabe, porquanto, nesta, ouviu que o SENHOR se lembrara do seu povo, dando-lhe pão. 7 Saiu, pois, ela com suas duas noras do lugar onde estivera; e, indo elas caminhando, de volta para a terra de Judá, 8 disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o SENHOR use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo. 9 O SENHOR vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido. E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz 10 e lhe disseram: Não! Iremos contigo ao teu povo. 11 Porém Noemi disse: Voltai, minhas filhas! Por que iríeis comigo? Tenho eu ainda no ventre filhos, para que vos sejam por maridos? 12 Tornai, filhas minhas! Ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: tenho esperança ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos, 13 esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas! Porque, por vossa causa, a mim me amarga o ter o SENHOR descarregado contra mim a sua mão. 14 Então, de novo, choraram em voz alta; Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. 15 Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. 16 Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. 17 Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti. 18 Vendo, pois, Noemi que de todo estava resolvida a acompanhá-la, deixou de insistir com ela. 19 Então, ambas se foram, até que chegaram a Belém; sucedeu que, ao chegarem ali, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres diziam: Não é esta Noemi? 20 Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. 21 Ditosa eu parti, porém o SENHOR me fez voltar pobre; por que, pois, me chamareis Noemi, visto que o SENHOR se manifestou contra mim e o Todo-Poderoso me tem afligido? 22 Assim, voltou Noemi da terra de Moabe, com Rute, sua nora, a moabita; e chegaram a Belém no princípio da sega da cevada.
Intr.
Depois que os israelitas conquistaram a terra prometida, e Josué faleceu, houve um período na história deles, que se tornou conhecido como o tempo dos juízes.
Isto porque não havia um governo central, e as tribos tinham uma autonomia muito grande. Elas só foram unidas muito tempo mais tarde, quando Davi foi coroado rei de Israel.
A Bíblia diz que neste período dos juízes, cada tribo, ou mais precisamente, cada um, fazia o que achava mais reto (Jz 21:25).
O que tornava Israel uma terra sem lei – quero dizer, a lei de Deus, era mui vagamente conhecida, e muito menos obedecida – sacerdotes corruptos, interesseiros, idolatrias, invasões inimigas, guerras e disputas entre as tribos, desordens, castigos divinos, eram a vida comum daqueles dias.
Mas o conhecimento de Deus não era totalmente ausente.
Pois quando o povo se arrependia dos seus pecados e se convertia ao Senhor, vinham tempos de refrigério.
O Senhor levantava um juiz, alguém para defender e governar o seu povo.
Só que o coração humano é terrível, e frequentemente, depois da morte do juiz, os israelitas voltavam aos seus pecados.
Bem, nós lemos aqui no v. 1, que nalgum período dos juízes, houve fome na terra de Israel – não sabemos se por razões climáticas, ou por invasões inimigas, o fato é que o povo estava passando fome.
Então, na pequena aldeia de Belém, também chamada Efrata, um homem decidiu tomar sua esposa, seus dois filhos, e migrar para o território de Moabe; uma nação a leste do Jordão, e onde as condições estavam melhores.
Elimeleque era o nome deste homem que, ou ficou endividado, ou hipotecou seu campo e saiu em busca de tempos mais tranquilos para os seus.
Partiram ele, sua esposa Noemi, e seus dois filhos Malom e Quiliom. Eram uma família temente a Deus.
Mas em Moabe, as coisas pioraram. Elimeleque faleceu, deixando Noemi e seus dois filhos.
Depois disso, cada um dos filhos se casou com uma mulher moabita: Malom se casou com Rute, e Quiliom se casou com Orfa.
Mas ambos também morreram, ficando as três viúvas, pobres e desamparadas.
Algum tempo depois, ouviram que o Senhor havia “se lembrado” do seu povo, e a terra de Israel tornara a ser produtiva.
Então a idosa Noemi decidiu voltar para Belém.
Saindo as três de casa, Noemi abençoou às suas noras, dizendo:
– Vão, minhas filhas, voltem cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor seja bondoso com vocês, como vocês foram com os que morreram e comigo. O Senhor conceda que se casem novamente, e sejam felizes, cada uma em casa de seu marido.
E beijou-as. Mas elas choraram em alta voz e lhe responderam:
– Não! Nós iremos contigo ao teu povo.
– Voltem, minhas filhas! Não tenho como dar a vocês novos maridos. Como iríamos nos sustentar?
– Fico triste demais que o SENHOR tenha descarregado contra mim a sua mão, e vocês, minhas filhas, estejam comigo nesta situação.
E choraram muito.
Então Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra; mas Rute se apegou a ela, e vendo Noemi que ela estava firme em sua decisão, foram residir em Belém.
Em Belém, Rute conheceu Boaz, um parente de Elimeleque, que as resgatou, pagando as dívidas da família e casando-se com ela.
Rute e Boaz tiverem um filho chamado Odede.
Odede teve um filho chamado Jessé.
Jessé teve um filho chamado Davi, que se tornou rei de Israel.
E Davi foi ancestral de Jesus, o nosso Rei.
Assim, quando mais tarde, Mateus conta o Evangelho, entre os ancestrais de Jesus figuram Rute e Boaz, cuja história de amor é contada aqui.
Por que devemos ler o livro de Rute?
Se não houvesse outra razão, este livro merece ser lido por si só, por ser uma história de amor familiar muito bonita, e muito bem contada.
Mas, além desta beleza literária, o livro de Rute deve ser lido, porque é Palavra de Deus, revelação de Deus, inspirada pelo Espírito, para que o conheçamos mais.
Na história de Rute nós vemos como a presença de Deus, em sua Providência, mesmo que quase invisível aos olhos humanos, pode ser discernida pelos eleitos.
Eles não deixam de crer em sua bondade, em sua fidelidade, em sua justiça e sabem que ele governa tudo no mundo inteiro, e não apenas em Israel.
Continuam a esperar naquele que é o Deus dos órfãos e das viúvas, que conduz as estações do ano, que alimenta ou retém o alimento das nações, em outras palavras, que conduz a história e segue com o seu plano de Salvação no mundo.
Também nos mostra que, mesmo sendo provados, podemos continuar temendo ao Senhor, e não fazer de nossos infortúnios motivos para descrer ou nos tornarmos rebeldes contra ele.
Outro motivo, é que este livro faz parte da história da Redenção.
Em Boaz, resgatando Rute e sua sogra, nós vemos um tipo, uma figura de Cristo, que nos resgataria dos nossos pecados, que cancelou nossas dívidas para com a justiça divina.
Na conversão de Rute, nós constatamos que o verdadeiro israelita, como diria Paulo, não são propriamente aqueles filhos de Abraão de acordo com a descendência humana, mas sim aqueles que são da fé.
Assim, Rute é um vislumbre de que, entre os judeus e os moabitas, entre os cananeus e os egípcios, entre todos os povos, Deus tem os seus escolhidos.
Mas hoje eu quero destacar a personagem que dá nome a este livro.
“Rute” significa “amizade”.
E ela mostra que o seu caráter não fugiu ao significado do seu nome. Eu quero voltar com vocês ao momento da despedida entre Noemi e suas noras.
vs. 14-17 – Então, de novo, choraram em voz alta; Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. 15 Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. 16 Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. 17 Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.
Prop.
Além de todos os motivos que já mencionei, quero mencionar mais dois motivos, pelos quais estou trazendo este capítulo de Rute para a nossa meditação de hoje.
Estamos no mês de março, em que oficialmente lembramos os direitos, as lutas, o valor do gênero feminino – Rute é uma das nossas heroínas, um exemplo digno para mulheres e homens.
Além disso, após a nossa meditação, e antes de celebrarmos nossa união com Jesus e sua igreja, através da santa ceia, iremos receber novos irmãos como membros da igreja.
Pessoas que têm dito: teu povo é meu povo; teu Deus é o meu Deus,
Vamos meditar sobre as fiéis decisões de Rute.
Divs.
1. Rute escolheu ficar com o povo do Senhor
– Rute, minha filha; faça como tua cunhada, e volte para sua mãe. Seja feliz.
– Não insista, Rute reponde. Onde a senhora for, eu irei também. Onde a senhora descansar, descansarei também. Onde for sepultada, eu também. Teu povo é meu povo...
Por um lado, Noemi era apenas uma viúva desamparada, nada tinha para oferecer a Rute, a não ser pobreza, necessidades, incertezas quanto ao futuro, numa terra desconhecida.
Por outro, Rute estava na sua terra, ainda tinha pai e mãe, um lar para o qual poderia voltar, como fizera Orfa, sua cunhada.
Também é patente que, em contraste com sua idosa sogra, Rute ainda era jovem, e poderia casar-se novamente.
Estou dizendo que Rute poderia voltar para os pais, casar-se novamente? Ela tinha esse direito.
Mas irmãos, acho que, por causa de uma coisinha só, ela não poderia.
O v. 14 diz que Rute se apegou a Noemi, isto é, o seu coração estava ligado à sogra. Ela amava à sua sogra.
E este apego de coração, levou-a também apegar-se ao povo do qual Noemi fazia parte.
Como Moisés, que diz o Espírito Santo, “pela fé preferiu ser maltratado com o povo de Deus, do que usufruir os prazeres transitórios deste mundo”, Rute preferiu deixar sua terra e sua parentela, e fazer parte do povo escolhido.
No caminho e no descanso. Na vida e na morte. Em todas as circunstâncias.
Um exemplo tão belo, que precisamos não nos esquecer, neste mundo de amores líquidos, de relacionamentos fáceis de serem descartados, de compromissos fáceis de serem dissolvidos, de superficialidades e mesquinhez.
É um sentimento digno, quando nos apegamos uns aos outros como irmãos no Senhor.
É um comportamento digno, quando não abandonamos o povo do Senhor, mas andamos juntos em nossa caminhada para a casa do Pai.
É um compromisso digno, quando dizemos à igreja do Senhor:
– Vocês são o meu povo, haja o que houver...
Ora, ser povo do Senhor naturalmente tem implicações muito fortes, sem as quais nada teria sentido.
E a maior de todas, nó vemos nesta outra escolha de Rute...
2. Rute escolheu o Senhor
– Teu povo é o meu povo. Teu Deus é o meu Deus...
Acho que algumas pessoas poderiam pensar:
– Mas isto não quer dizer que Rute tenha sido uma crente no Senhor. É que, naquele tempo, as nações, que eram politeístas, pensavam que em cada terra havia o seu “deus territorial”, que deveria ser adorado pelos moradores.
– Então, assim como em Canaã havia o “deus Baal”, em Amon, o “deus Moloque”, em Moabe havia o deus “Quemos”, assim em Israel havia o deus “Jeová”.
Mas não era assim que Rute pensava, nem a família da qual fazia parte.
Porque veja: em todo o livro, em todo o tempo, o Senhor é Deus de toda a terra.
Nos vs. 8 e 9 aqui, Noemi confessa que, mesmo em seus infortúnios, o nosso Deus é quem colocava a mão sobre ela.
No v. 13, que Jeová abençoaria suas noras, e as faria felizes na terra de Moabe.
No v. 17, Rute invocou o nome do Senhor como sua testemunha dizendo
– Faça o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte, me separar de ti...
A Bíblia nos ensina, irmãos, que antes de nós escolhermos a Deus, foi ele quem nos escolheu primeiro, quem nos amou primeiro, e nos atraiu para si, para pertencermos a ele.
Mas também nos ensina que, por causa deste amor, amor que muda o nosso coração, que quebra todas as nossas resistências, que nos converte a ele, nós o escolhemos também.
E é o que vemos refletido nas escolhas de Rute.
Ainda que fosse uma moabita, era uma escolhida do Senhor.
Como também Raabe, a ex-prostituta cananita. E Naamã, o sírio.
Um prenúncio daquela promessa de Jesus que diz:
– Muitos virão, do oriente e do ocidente, e tomarão lugares à mesa no reino dos céus, com Abraão, Isaque e Jacó (Mt 8:11).
Jesus, com o seu sangue, comprou para nosso Deus, gente de todas as tribos, línguas, povos e nações (Ap 5:9).
Rute, pois com Noemi, tornou-se uma adoradora do Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo.
Em Israel, foi resgatada por Boaz, amou e foi amada, amparou sua querida sogra, tornou-se célebre ancestral de Davi, e herdeira do reino dos céus.
Conclusão e aplicação
Como será bela a história do mundo, se por meio da fé em Jesus, os povos transformarem suas espadas e lanças em relhas, arados e podadeiras (Is 2:4).
Como será prazerosa esta vida, quando a terra se encher do conhecimento do Senhor Jesus.
Pois como diz o apóstolo Paulo, se a transgressão atual de Israel redundou em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude! (Rm 11:12).
E assim esperamos.
Mas nenhum de nós deve cruzar os braços, esperando a chegada deste dia.
Cada um de nós siga o exemplo de Rute, a moabita.
Cada um de nós tenha o povo de Deus como seu povo; a igreja de Jesus como sua família.
Cada um de nós tenha Jesus, como seu único e suficiente Senhor e Salvador.
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