Pr. Plinio Fernandes
Mensagem de domingo, 25 de outubro de 2025, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos
Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos; 2 pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade. 3 Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, 4 nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. 5 Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus. 6 Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo.
Intr.
Num livro intitulado “O Conselheiro Capaz” o pastor e escritor Jay Adams conta a história de um homem chamado Leo Held.
Esse homem era casado, tinha dois filhos, trabalhava numa fábrica, frequentava a igreja todos os domingos, era treinador de escoteiros, e participava de uma brigada de bombeiros. Um homem muito respeitado e ativo na sociedade.
Verdade que de vez em quando ele tinha algumas explosões de ira e gritava com os outros, destruía coisas, mas no geral, era um homem de bem.
Um dia, ele se despediu da família e foi para a fábrica. Mas estava armado de duas pistolas. E na fábrica ele atirou em 9 colegas de trabalho; saindo dali foi ao aeroporto e atirou numa conhecida. Depois, voltado ao bairro em que morava, entrou pela porta dos fundos na casa de um vizinho e atirou no casal.
Ele matou 7 pessoas e feriu outras 5, antes de ser morto pela polícia.
Então, no jornal que dava a notícia, foi publicada uma fotografia com a legenda: Leo Held – responsável, respeitável, e ressentido. 1
Um tema recorrente em muitas histórias que lemos ou filmes que assistimos, é a crise de fúria, o fruto do ressentimento que algumas pessoas nutrem contra a sociedade à qual serviram, e se julgam injustiçados.
Militares que se entregaram pelo país, e não receberam o devido reconhecimento
Mas também é um tema recorrente na vida humana, e especialmente para os que pensam no seu trabalho como uma vocação, é o sentimento de frustração, e consequentes desânimo, ira, e até mesmo vingança.
Professores, profissionais da saúde; empregados dedicados.
Até mesmo pais, “que fazem de tudo pelos filhos”.
Crentes, inclusive pastores e outros líderes, que “dão a vida pela igreja”, mas que não se sentem reconhecidos.
Pessoas que podem entrar em colapso nervoso; e se tornam autodestrutivas, e destrutivas de outros.
Prop.
Paulo foi um homem que sofreu muitas injustiças, tanto da parte do mundo lá fora, como da parte de pessoas que deviam reconhecê-lo, respeitá-lo e amá-lo.
Mas não se tornou ressentido. Ao contrário, permaneceu firme em seu ministério apostólico, sem desanimar, sem se ressentir, não somente pregando, mas pregando com amor.
Eu acho que o apóstolo Paulo foi uma das pessoas mais parecidas com Jesus.
No texto que estamos considerando hoje, ele descreve as razões para ser assim, inabalável.
Divs.
1. Ele entendia que o seu ministério era uma misericórdia recebida
v. 1 – Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos
Há duas palavras que precisam destaque neste versículo.
A primeira é ministério. Nesse contexto específico, Paulo está se referindo ao seu ministério da pregação do evangelho, que no capítulo 3, ele havia descrito como ministério do Espírito Santo, e também como ministério da nova aliança.
Ministério que frutifica na conversão das pessoas a Jesus, para que sejam salvas, que sejam iluminadas pelo Espírito Santo, libertas do poder do pecado e de Satanás, transformadas de modo constante, a fim de serem mais semelhantes a Jesus.
Mas, no entender de Paulo, a palavra ministério não se referia somente ao trabalho dos pregadores do evangelho.
A palavra grega é “diaconia”, e quer dizer “serviço”. Nas cartas de Paulo, tanto nas formas de verbo, de substantivo, e até mesmo adjetivo, é usada mais de cinquenta vezes.
Se refere ao ato de alguém servir outra pessoa, ou à igreja.
Se refere à contribuição financeira para ajuda aos necessitados.
Se refere ao serviço oficial que uma pessoa presta na igreja.
Se refere também ao exercício de qualquer dom espiritual.
Isso pode ser exemplificado na maneira muito bela como o apóstolo Paulo relaciona cada serviço que prestamos como expressão de nosso relacionamento com a Santíssima Trindade.
1ª Co 12.4-6 – Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. 5 E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. 6 E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos.
Sendo assim, seja qual, ou quais forem os dons de cada um, seja qual foi o serviço, seja qualquer bem realizado, tudo vem de Deus, e tudo é para Deus.
A segunda palavra que preciso destacar é misericórdia.
v. 1 – tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita
Seja qual for o nosso serviço ao Senhor, é misericórdia de Deus em nossa vida.
O Senhor não disse: – “Colocarei Paulo no ministério da Palavra porque ele é articulado, merece uma posição de destaque”.
Ou, “Ele é muito esforçado...”
Ou, é um bom administrador, ou um homem simpático, ou de boa aparência.
Aliás, Paulo não pensava no ministério como uma posição de destaque, proeminência. Ao contrário, era a posição de serviçal.
E se ele estava nessa posição de servir a Palavra de Deus aos homens, ele chama isso de misericórdia recebida.
2. Ele entendia que o seu serviço era para o Senhor Jesus Cristo
v. 5 – Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus.
Aqui Paulo fala sobre o conteúdo e o propósito da sua pregação: ele anuncia a Jesus Cristo como Senhor.
E a implicação é clara: a fim de que se saiba que Jesus é o Senhor. Que assim ele seja conhecido e reconhecido.
Ora, se é assim, o meu propósito é que as pessoas se rendam a Jesus. Ou, usando as palavras do v. 6, vejam a glória de Deus na face de Cristo.
Por isso, ainda no v. 5, nós não pregamos a nós mesmos...
Uma expressão de pensamento semelhante nós vemos em João Batista, quando foram dizer-lhe que Jesus estava fazendo mais discípulos do que ele.
Jo 3.26-30 - E foram ter com João e lhe disseram: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro. 27 Respondeu João: O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada. 28 Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. 29 O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. 30 Convém que ele cresça e que eu diminua.
Alguns dias atrás eu ouvi um irmão dizer uma dessas frases que nos impactam beneficamente. Ele disse: – “O evangelho não é sobre mim; é sobre Jesus Cristo”.
Sim, não é sobre como os crentes em geral, os pregadores, são pessoas maravilhosas, poderosas e empoderadas.
O evangelho é sobre o quanto somos pecadores, e quanto Jesus Cristo é maravilhoso, a ponto de dar a sua própria vida em nosso favor.
Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor.
Essa verdade que orientava a vida e o ministério de Paulo em dois aspectos.
Primeiro, é que se ele pregava a Cristo, ele não podia distorcer a verdade. Se alguém distorce a verdade, é porque a está usando em proveito próprio, seja financeiro, seja ideológico, seja emocional.
Eu preciso desenvolver um pouco isso.
Nos meios evangélicos não conservadores nós vemos de forma escancarada como – não todos, pois há homens piedosos – mas muitos líderes usam sua posição como um meio de proveito próprio: é a recompensa financeira; é a promoção de ideologias heréticas.
Mas preciso dizer que, ainda que seja muito mais sutil no mundo evangélico e reformado conservador nós também podemos padecer da mesma enfermidade.
É quando alguém quer promover seus próprios interesses sob a capa da espiritualidade.
Pastores que sentem o desejo de validação; querem ser tidos como espirituais, querem se sentir reconhecidos – então, ao invés de anunciar a Jesus a fim de que as pessoas cresçam, querem que as pessoas sejam eternamente dependentes deles, os pastores.
Querem ser conselheiros de tudo: como você deve usar seu dinheiro, como escolher seu cônjuge, como administrar seu tempo.
Certa ocasião um desses sabidões começou a dar um curso para alguns da igreja que eu era pastor.
Então o membro da igreja veio me dizer:
– Pastor, o homem lá, falando sobre administração financeira, disse que a Bíblia tem mais versículos sobre dinheiro do que sobre santificação. Mas eu pensei: sem santificação ninguém verá o Senhor.
Então seguem-se estratégias, segundas intenções, distorções da verdade, consciência turva e coisas semelhantes.
v. 2 – (não desfalecemos) pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade.
A palavra astúcia, aqui, é a mesma que Paulo irá usar no cap. 11.3, onde ele explica que o seu temor era de que, da maneira como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também agora os crentes de Corinto fossem enganados.
E irmãos, não se enganem. A serpente era o mais astuto de todos os animais que Deus criou.
Você quer perceber quando uma pessoa não serve a Jesus? Quando ela faz questão de mostrar como ela é um crente maravilhoso; como é um servo ungido, poderoso, profeta que fala e acontece.
Quando, de forma escancarada ou sutil, ele diz:
– Vinde a mim, pregador fulano de tal, o ungido de Deus para este tempo.
– Vinde a mim, ou à minha igreja, e encontrareis descanso para as vossas almas.
E o pior é que muitos são tão ensimesmados acreditam mesmo ser a solução para os problemas dos outros.
Agora eu quero voltar à última parte do v. 5.
Vamos reler o v. inteiro, para não perder o “fio da meada”.
Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus.
Jesus é Senhor. Nós somos servos da igreja, por amor a Jesus.
Eu também preciso comentar outra coisa, na igreja contemporânea, que é um modo distorcido de ver o ministério: é como se fosse um emprego.
No v. 5, a palavra traduzida como servo não é diácono; é uma palavra que se aplicava tanto a escravos como a empregados.
Certa ocasião, um pastor me contou que, por causa de partidarismos na igreja, um líder perguntou:
– Quanto o senhor quer para ficar na nossa igreja?
Ao que ele respondeu:
– Eu não estou à venda.
Pastores conscientes sabem que são dignos de receber um salário – isso é bíblico.
Mas pastores conscientes não são empregados, que trabalham por salário.
Servem por amor a Jesus.
3. Ele entendia que o seu ministério não era em vão
vs. 3, 4 – (começando na última parte do v. 2) ... não adulteramos a Palavra de Deus; nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade, mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, 4 nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.
A nossa mensagem é clara como a luz. Pregamos sobre Jesus Cristo como nosso Senhor, nosso Deus, nosso Salvador.
Mas muitas pessoas não conseguem entender.
Nós sabemos que muitas pessoas que nasceram cegas, por causa de catarata.
Nasceram com dois olhos, mas não podiam enxergar, por causa daquela opacidade no cristalino.
O sol poderia estar lindo, o rosto das pessoas, a vida acontecendo à sua volta, mas não conseguiam ver nada.
Paulo diz que os incrédulos são cegos, pois não conseguem entender a luz do evangelho da glória de Cristo.
Isto porque o “deus deste século” cegou o entendimento dos incrédulos.
É uma referência ao diabo, que engana as pessoas para que não creiam.
Mas há uma boa notícia.
Esta semana, enquanto meditava, abri a internet para assistir novamente alguns vídeos que apresentam crianças que nasceram com catarata, mas que operadas e passaram a enxergar.
A coisa mais linda é quando depois da cirurgia, e usando óculos, pela primeira vez enxergam o rosto dos pais.
Ficam surpresas, sorriem maravilhadas; é tocante de se ver.
Faz lembrar de quando nos convertemos. Você era cego, e agora vê. E a primeira pessoa que a sua alma viu foi Jesus.
Jesus vivendo em santidade; Jesus morrendo por você na cruz, ressuscitando, subindo ao céu.
Jesus em todo o tempo, olhando para você, e por você, no seu dia a dia, no trabalho em casa, com a família, com os amigos, com os colegas.
Jesus, que você verá face a face na sua vinda.
E quando você vê Jesus, você sorri.
No v. 3, Paulo disse que o deus deste século cega o entendimento dos incrédulos.
Primeiro, isso quer dizer que ele não é o Deus eterno, é um deus passageiro.
Segundo, se não é eterno, ele não é o Deus verdadeiro: é um deus falso, um simulacro.
Terceiro, se ele é um falso deus, não pode impedir a obra do Deus verdadeiro.
v. 6 – Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo.
Conclusão
Por que não desanimamos?
Porque, pela misericórdia de Deus, temos um serviço
Também porque é a Jesus que estamos servindo, e por amor a ele.
Terceiro, porque nosso serviço não é inútil. Há os que permanecem cegos; mas há os que são iluminados pela glória de Cristo.
Aplicações
Vamos pensar nalgumas implicações para o nosso serviço.
Primeiro, se você ainda não recebeu a Jesus como teu Senhor.
Não dê lugar ao diabo, a fim de que ele obscureça sua alma.
Renda-se a Jesus, confesse a Jesus como Senhor.
Pois se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que ele ressuscitou de entre os mortos, serás salvo.
Desperta, tu que dormes; levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará.
Segundo, para aqueles que já se entregaram a Jesus
1. Entenda que servir a Deus é uma bênção
É manifestação da misericórdia de Deus em sua vida, ser um servo de Deus. Neste mundo há muitos servos do pecado; há muitos servos do diabo; há muitos servos do mal.
Como é grande o privilégio de servir a Deus, pois ele te concedeu essa misericórdia.
2. Se é por misericórdia, sirva com humildade
Não de parabéns pra si mesmo quando estiver fazendo apenas sua obrigação.
Lc 17.10 - Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.
3. Não julgue os outros servos do Senhor
Rm 14.4 - Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster.
Sabe qual a diferença entre o orgulhoso antigo e o orgulhoso moderno?
O antigo pensava assim:
– Senhor, te dou graças porque não sou como os demais pecadores. (Paulo pensava que era o principal, mas há daqueles que acham que não são como os outros).
Mas prosseguindo: – Senhor, dou os dízimos de tudo quanto ganho; jejuo duas vezes por semana; não sou como os publicanos.
Agora o orgulhoso moderno.
– Senhor, eu te dou graças porque não sou como os fariseus. Não jejuo, não dou os dízimos, pois sei que essas coisas são legalismos. Mas vou na igreja todas as vezes que tem trabalho. Canto no coral, leciono na EBD, aconselho todo o mundo, ajudo a velhinha a atravessar a rua, falo em línguas, expulso demônios, curo enfermos, exorto quem falta.
Irmão, se você não entender a misericórdia de Deus por você, será orgulhoso.
Se você for orgulhoso, pensará que você é bom, e que os outros não são como você.
Primeiro, terá uma atitude crítica em relação aos irmãos.
Segundo, será um hipócrita, pois ninguém faz tudo, ou acerta em tudo.
Terceiro, com o passar do tempo, será odiado.
Quarto, tornar-se-á amargo e ressentido.
4. Sirva por amor a Jesus
Sabe qual o segredo da fidelidade? O amor.
Sirva porque deseja ver as pessoas amarem a Jesus. Jesus não chamou você para ser amado pelos outros.
Jesus chamou você para amar os outros, por amor a ele.
Sirva para agradar a Jesus, e que essa seja a tua recompensa, o teu galardão: naquele dia, ouvir o Senhor dizer: servo bom e fiel.
1 Adams, J. E., O Conselheiro capaz (São José dos Campos: FIEL, 1982, 3ª ed., págs. 42, 43)
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