Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR, Deus dos Exércitos. Jeremias 15:16

domingo, 6 de setembro de 2026

A beleza na pregação do evangelho - 2ª Co 2.1-17

Pr. Plinio Fernandes

Mensagem pregada em 6 de setembro de 2026, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos

2 Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, 13 não tive, contudo, tranquilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito; por isso, despedindo-me deles, parti para a Macedônia. 14 Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. 15 Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. 16 Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas? 17 Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus.

  Intr.

  Para nós, crentes em Jesus, o momento clímax de nossa semana é este: o de nos reunirmos, na presença de Deus, para adorá-lo.

  Esse é um momento essencial para a nossa razão de ser como povo de Deus na terra.

  Seguindo a Bíblia, no Antigo e no Novo Testamentos, tanto nos mandamentos como nos exemplos da igreja, entendemos que o Domingo, Dia do Senhor, é um dia santificado, e temos o santo dever de nos reunir em comunhão espiritual para buscar a Deus em oração, cantar-lhe louvores, participar dos sacramentos instituídos por Jesus, anunciar as suas maravilhas, e principalmente para ouvir Deus falando conosco na exposição fiel das Escrituras.

  O propósito desses atos de culto também nos é dado na Bíblia: cultuamos para dar honra e glória que são devidos ao nosso Senhor, a Trindade santíssima; também cultuamos para nos edificar uns aos outros, e para anunciar o evangelho ao mundo.

 Mas orar, cantar louvores, ofertar, participar da santa ceia, nada disto teria eficácia, se não fosse realizado sob a orientação e autoridade das Sagradas Escrituras.

  As Escrituras são inspiradas por Deus, e úteis para a nossa salvação mediante a fé em Jesus, para nosso ensino, para a nossa correção, para a nossa educação na justiça.

 Nelas, o Senhor nos fala como um Pai que ama os seus filhos, a quem quer conduzir à maturidade, à pureza e aperfeiçoamento na santidade, a quem quer capacitar para a prática de toda a boa obra.

 Nas Escrituras, o Senhor nos conforta, enxuga nossas lágrimas, nos encoraja, admoesta, e nos transforma espiritualmente.

  Por isso dizemos que em nossos cultos, a exposição das Escrituras tem a primazia. Não que as outras partes do culto não tenham importância, mas que só podem ser fruto da Palavra de Deus.

 Prop.

 Tendo essas coisas em mente, em continuidade da nossa exposição desta carta, eu desejo hoje dirigir nossos pensamentos ao que podemos com toda a justiça chamar de a beleza da pregação.

  Nós vemos beleza na pregação...

  Divs.

  1. Porque a pregação é demonstração do poder de Deus

  Com isso, eu quero observar algo que nos deixa maravilhados: que a Palavra de Deus é trazida à igreja mediante seres humanos.

  A maravilha é que nós, seres humanos, embora criados à imagem de Deus, somos tão limitados; não somos oniscientes, não somos onipresentes, não somos todo-poderosos.

  Somos sujeitos a fraquezas, temores, nosso corpo físico e nossas faculdades mentais, mesmo que não houvesse pecado no mundo, estão sujeitos ao cansaço, à finitude das forças.

  Nós podemos ver isso exemplificado no próprio Paulo aqui.

vs. 12, 13 – Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, 13 não tive, contudo, tranquilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito; por isso, despedindo-me deles, parti para a Macedônia.

  Os irmãos sabem, Tito havia sido enviado por Paulo a Corinto, levando a uma carta, depois se encontrariam em Trôade, ali Tito lhe daria notícias sobre Corinto, e juntos pregariam o evangelho.

  Mas o desencontro deixou Paulo tão intranquilo que ele perdeu o ânimo de continuar ali.

  Deus, em sua sabedoria, em seu amor, em sua soberania, escolheu homens assim, frágeis, para anunciar sua Palavra.

  Lembrem-se dos profetas; Abraão, Moisés, Samuel, Davi, Elias, Jeremias e todos os outros. Cada um teve os seus fardos. Moisés, o pesado de língua, Elias, o melancólico; Jeremias, o sentimental apaixonado pela igreja, Samuel, sentindo-se rejeitado, Abraão, com seus altos e baixos.

  Lembre-se dos doze apóstolos.

 Mas Deus decidiu enviar a sua poderosa palavra ao mundo através de homens assim: comuns, em quem não havia aparência de grandeza, assim como não houve aparência de grandeza nem mesmo em Jesus.

  Ora Paulo era um homem plenamente consciente de suas fraquezas.

  No entanto, tinha também uma visão muito clara da graça de Deus que o conduzia. E isso lhe dava ousadia, ânimo, perseverança, seriedade, temor e tremor.

2.16 – Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas?

  A resposta final ele dará no cap. 3

3.5-6 – Não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, 6 o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica.

4.7 – Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.

  Mais tarde, lá no cap. 11, Paulo dirá que as coisas do evangelho de Cristo são simples.

 Nada é complicado; nada é sumidade filosófica; nada é pompa e circunstância; nada é espetacular. Tudo é simplicidade.

 Mas nessa simplicidade toda, Deus está presente.

 2. A beleza da pregação também é evidenciada pela sua origem: ela é Palavra de Deus

 Embora seja transmitida através de homens, a pregação é Palavra de Deus, na medida em que é pregada com fidelidade e submissão daquele que foi habilitado e aprovado para o ministério

v. 17 – Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus.

 Ele fala em nome de Deus, na presença de Deus, da parte de Deus.

 Quando o pregador fala conforme essa descrição aqui, o próprio Deus está falando, tão presente como se estivesse encarnado e palpável.

 As analogias que Paulo faz aqui nas cartas aos Coríntios nos ensinam a atitude do pregador e o conteúdo da pregação

2ª Co 5.18-20 – Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, 19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. 20 De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.

  O pregador fala da parte de Deus, por isso é chamado embaixador: ele anuncia como Deus, por meio de Jesus Cristo, estava nos reconciliando consigo mesmo.

  Então faz um apelo para a conversão, a paz com Deus por meio de Jesus.

1ª Co 4.1-2 – Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. 2 Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel.

  O pregador é também um despenseiro, um administrador da casa de Deus, e o que se requer dele é que seja encontrado fiel.

  Ele não pode desperdiçar as coisas de Deus, não pode roubá-las para si mesmo; não pode usufruí-las de modo ilegítimo, e não pode vender as coisas de Deus.

  Antes, o que ele precisa fazer é anunciar com clareza, a fim de que os ouvintes saibam o que Deus requer, e se posicionem diante de Deus.

  É muito útil lembrança feita pelo Rev. Paulo Anglada sobre esse assunto.

  A Bíblia é a Palavra de Deus escrita. Jesus é a Palavra de Deus encarnada. O batismo e a santa ceia são a Palavra de Deus simbolizada, representada. E a pregação é a palavra de Deus proclamada.1

  3. A beleza da pregação também é manifestada na sua autoridade

  A pregação fiel, feita por homens falíveis, é exposição de uma Palavra infalível

  Você se lembra da eficácia, do poder da Palavra de Deus, conforme ele disse através do profeta Isaías?

Is 55.11 - Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.

  Da mesma forma Jeremias recebeu do Senhor a segurança da sua pregação: – “Eu velo sobre a minha palavra, para cumpri-la”.2

  Essa é a autoridade da qual Paulo fala aqui.

  Antes de voltar propriamente ao cap. 2, eu quero ler com os irmãos, no cap. 10, o v. 8.

2ª Co 10.8 - Porque, se eu me gloriar um pouco mais a respeito da nossa autoridade, a qual o Senhor nos conferiu para edificação e não para destruição vossa, não me envergonharei.

  A autoridade que o Senhor conferiu a Paulo como embaixador de Deus tem como propósito a edificação da igreja; a chamada aos homens para que se reconciliem com Deus tendo Jesus como seu mediador, como seu único e suficiente salvador.

  Por isso ele explica tantas vezes quantas forem necessárias; busca clareza, fala com sinceridade, procurando persuadir; descreve a profundidade do pecado e a condenação que ele traz; e proclama a graça de Deus conclamando a que se arrependam e creiam.

  Ensina com toda a longanimidade e doutrina, moldando as almas a fim de que sejam semelhantes a Jesus.

  Mas, e se os homens não se convertem? E se continuam na dureza do seu coração e seus caminhos carnais?

vs. 15, 16 – Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. 16 Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida.

  Eu quero usar a palavra perfume em nosso contexto atual.

  Imagine uma pessoa, deliciosamente perfumada, que entra numa sala onde há várias outras. Quando entra, as demais logo percebem aquela boa fragrância, e se deleitam, gostam.

  Mas imagine que nessa mesma sala haja uma ou mais pessoas alérgicas a perfume.

  Elas se sentirão mal, a ponto de até precisarem sair do ambiente (ou colocar o perfumado pra fora).

  Mas indiferente ao perfume, ninguém ficará.

  A Palavra exposta, a Palavra que sai da boca do Senhor, é como um perfume de Cristo: ela se faz notar; provoca reações; para os que recebem, é perfume de vida; para os alérgicos, é perfume mortal. Mas não voltará vazia.

  É uma mensagem que salva os que creem, mas que julga os que permanecem no mal.

  Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer, será condenado.3

  Conclusão

  Irmãos, vocês percebem a beleza e a grandeza desse simples hora semanal aqui?

  Percebem sua importância?

  Cada culto é um encontro com Deus.

  Nós oramos a ele, cantamos a ele, ouvimos a sua Palavra, participamos dos sacramentos.

  Ainda que eu seja tão limitado em mim mesmo, tão incapaz, eu tenho a felicidade de ter sido chamado para pregar a palavra do meu Senhor e Salvador.

  E vocês têm recebido a bem-aventurança de ser trazidos para ouvir a Santa Palavra.

  Palavra de vida, de conversão diária, de santificação, de crescimento, de consolação, de repreensão.

  Conforme a necessidade da sua alma, assim o Senhor te pastoreia.

  Mas também Palavra que exige uma resposta.

  Aplicações

  A primeira resposta que menciono: Deus requer que você tenha consciência da realidade celestial dessa hora

  Você precisa entender que as Escrituras não são um livro antigo, mas que elas são Deus falando hoje, agora.

  E você não pode escolher se vai crer ou não. Você deve crer.

  Deus requer que a sua Palavra exposta diante dos seus olhos e ouvidos seja ouvida e crida com temor e tremor, com humildade, contrição e obediência.

  Em segundo lugar, como fruto do primeiro, que você se alegre na Palavra.

 Não uma alegria passageira, apenas dominical, como aconteceu naqueles corações pedregosos da parábola, em que depois de se alegrar algum tempo, se apegaram novamente ao mundo.

  Mas uma alegria, uma satisfação, um prazer, um amor permanente pela Palavra de Deus, que te leve a ler, a meditar, e a ouvi-la junto aos irmãos.

  Não deixe Satanás te enganar com a mentira de que você pode ser um cristão desigrejado; ou com a mentira de que você é igreja; igreja significa ajuntamento, congregação; igreja individual não existe.

  Terceiro: a reconciliação com Deus

  Aos que estão desviados em seus corações; aos que ainda não se renderam a Cristo, eu rogo em nome de Cristo:

  – Reconciliai-vos já com Deus; deixe o perverso os seus caminhos, e se converta ao Senhor, que é rico em perdoar.

  – Se é um ladrão, deixe de furtar.

  – Se é um beberrão, se é um imoral, se é um mentiroso, se é um desonesto, essas pessoas não herdarão o reino de Deus.

 – Os feiticeiros, os adoradores de imagens, e todo aquele que ama e pratica a mentira, a parte deles será o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.

  Não rejeite o evangelho. Crê no Senhor Jesus, e serás salvo.

  Quarto: o ministério da Palavra.

  Eu tenho dado ênfase, nessa mensagem, ao nosso momento de culto solene, isto é, o culto oficial da nossa denominação, da nossa igreja.

  E conforme nós interpretamos e confessamos em nossos símbolos de fé, a Bíblia diz que a pregação, assim como os sacramentos, deve ser realizada por aqueles a quem o Senhor concedeu dons, aprovou e chamou para o ministério.

  Mas eu quero fazer duas aplicações aqui.

 Irmãos, ser um pastor não é um meio de enriquecer financeiramente, ou materialmente. A grande maioria dos pastores não é gente endinheirada. Porque eu estou falando de pastores, e não de mercenários, de comerciantes da fé.

  Mas ser um pastor, além de ser uma grande responsabilidade, é uma grande honra. É uma vocação importante, que produz efeitos eternos.

  Então que quero me dirigir aos homens: jovens ou não. O mundo precisa pastores. Não mercenários, não comerciantes, mas embaixadores de Deus.

  Não pense que você, por si mesmo teria capacidade para isso; mas ore a Deus, como Isaías: – Senhor, envia-me a mim.

  Disponha-se. E se o Espírito Santo te chamar, obedeça.

  Segunda aplicação nesse contexto.

  Embora nem todos sejam chamados para ser pastores, há muitos outros contextos da igreja em que os irmãos podem ministrar a Palavra de Deus: cultos nos lares, escola dominical, evangelismo e discipulado pessoal.

  Uma das práticas mais antigas, muito útil, mas que infelizmente tem sido abandonada há tempos, é a de convidar pessoas aos cultos, e às outras atividades da igreja.

  Se você puder, traga visitantes. Se você puder, use aqueles folhetos evangelísticos. Se puder, traga crianças para a Escola Dominical, para os cultos.

  Ao fazer essas coisas, você está cooperando com Deus, para que sua Palavra seja anunciada.


____________________________________________________

1 Anglada, Paulo, Vox Dei: A Teologia Reformada da Pregação; publicado em

https://www.monergismo.com/textos/pregacao/voxdei.htm; acessado em 3 de setembro de 2026 às 11:55H.

2 Jr 1.12

3 Mc 16.16

domingo, 30 de agosto de 2026

Pai de misericórdias - 2ª Co 1.3,4

Pr. Plinio Fernandes

Mensagem pregada na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos, em domingo, 26 de julho de 2026

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! 4 É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus.

Intr.

Há uma canção composta por Guilherme Kerr chamada “Mateus dos impostos”.

Ele como que se coloca no lugar de Mateus, no dia da sua conversão a Jesus.

Então conta que, quem o conhecia por dentro, sabia o momento difícil que ele estava passando.

Saia diariamente para o trabalho de cobrar impostos; um homem rico por fora, e pobre por dentro.

Um vazio enorme; apenas ia, indo por ir.

As pessoas reclamavam dele, chamavam-no de traidor; sujo, falso irmão.

Mas naquele dia Jesus, que o conhecia por dentro, passou pela coletoria e disse: – "Segue-me". Mateus imediatamente largou tudo e seguiu Jesus.

Acontece que teve gente, "gente boa", que não gostou.

“Esse aí, que se diz profeta, come e bebe com pecadores”.

Então o Senhor respondeu com as palavras de Deus no livro do profeta Oséias:

Ide e aprendei o que significa “Misericórdia quero”.

Misericórdia, que às vezes também é traduzida por compaixão, significa condoer-se de alguém que sofre as misérias desse mundo, e agir em favor do sofredor.

Em alguns contextos ela é usada de modo complementar com a palavra graça. Por exemplo, no salmo 103.4, onde Deus nos redime da morte, e nos coroa de graça e misericórdia.

Os profetas bíblicos nos ensinam que Deus tem prazer em exercer misericórdia; que, assim como é Deus Consolador, é Pai de misericórdias.

E ensinam que os filhos de Deus devem ser assim também.

Prop.

Então, depois de, em nosso estudo anterior, termos meditado sobre Deus como nosso Consolador, agora vamos destacar essa outra descrição que a Escritura faz do nosso Pai celeste.

E penso que uma boa maneira de meditar nesse assunto é destacando algumas maneiras como Paulo descreve as misericórdias de Deus se manifestando em nós.

Divs.

1ª A misericórdia na salvação

De todos os escritores bíblicos, Paulo é o que mais toca no assunto.

Não somente porque era familiarizado com o linguajar religioso dos judeus; mas porque ele conhecia muito de perto, pessoalmente, as misericórdias de Deus.

Paulo nunca se esqueceu do homem mau que tinha sido antes de conhecer Jesus.

Super religioso. De acordo com a lei de Moisés, irrepreensível. Zeloso das tradições. Mestre capaz.

Mas duro de coração; incrédulo, implacável; blasfemava contra Jesus; perseguia os crentes.

Até o dia em que o Senhor Jesus quebrantou aquele coração de pedra, e em amor o subjugou.

O Senhor ressurreto apareceu a Paulo, então chamado Saulo, no caminho para a cidade de Damasco.

Paulo estava naquela viagem com propósito de prender os crentes que moravam lá.

Mas em determinado ponto o Senhor Jesus se manifestou, numa luz gloriosa.

“Saulo, Saulo, porque me persegues”?

“Quem é tu, Senhor”?

“Eu sou Jesus, a quem persegues...” (pois cada pequenino crente é como a menina dos olhos do Senhor; e todo aquele que maltrata a um pequenino crente em Jesus, é a Jesus que está maltratando).

Senhor, que devo fazer?

Levante-se, entre na cidade, e lá você será orientado.

A partir dali, Paulo tornou-se um novo homem. E foi algo tão grandioso que nos dias, meses e anos que se seguiram, Paulo nunca se esqueceu daquele momento; e sempre se lembrava de quem havia sido, e do que tinha sido.

E nunca lhe abandonava também a consciência de quem agora havia se tornado.

Agora vamos ver uma das explicações que ele apresenta para essa tão grande salvação.

1ª Tm 1.15-16 Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. 16 Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna.

Aqui ele descreve a sua salvação como expressão da misericórdia do Senhor.

Eu, o principal, o pior dos pecadores.

Eu penso que Paulo se considerava o pior, o principal, pelo menos por duas razões:

A primeira, é que todos os convertidos, ao pensar no pecado em seu coração, sabem que praga horrorosa, daninha, é o pecado.

Sabem que o seu coração natural é corrupto, enganoso, mentiroso, vaidoso, e odeia e lamenta essa vaidade que nele existe.

A segunda razão, eu penso, é que não existe pior espécie de pecador do que aquele que se acha um santo.

Esse tipo de pessoa pensa não haver motivos para se converter, ser quebrantada; ela se coloca num pedestal de santidade.

E era assim que Paulo pensava sobre si mesmo: irrepreensível na obediência à lei do Senhor.

Mas agora, quando Paulo olha para si mesmo no passado, ele diz: “De todos os pecadores, eu sou o principal”.

“E se eu fui alcançado, significa que qualquer pecador pode ser”.

E na carta aos Efésios, falando sobre todos os crentes, escreve:

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, nos deu vida juntamente com Cristo; pela graça sois salvos, mediante a fé.

Não é sem razão que então, aos Coríntios, ele diz:

Deus é nosso Pai de misericórdias.

2ª. A misericórdia nas virtudes de caráter

1ª Co 7.25 -  Com respeito às virgens, não tenho mandamento do Senhor; porém dou minha opinião, como tendo recebido do Senhor a misericórdia de ser fiel.

Nesse contexto, o apóstolo está respondendo a algumas perguntas que os coríntios haviam feito sobre casamento.

Se o crente deve se casar, ou não; sobre relações conjugais.

E Paulo responde de acordo com as instruções dadas diretamente pelo próprio Jesus.

Mas aqui no v. 25, ele diz que no assunto de casar-se ou não, não há um mandamento direto do Senhor; ele vai apenas dar a sua própria opinião.

E o faz como alguém que recebeu do Senhor a misericórdia de ser fiel.

Isto é, ele responde aos coríntios com fidelidade a Jesus.

Mas o que eu desejo “pinçar” aqui é que Paulo reconhece: – “Se eu sou fiel, é porque a mim foi concedida essa misericórdia”.

Sim, como crentes em Jesus, nosso caráter deve ser assim: fiel. A fidelidade adorna a vida dos eleitos de Deus, e glorifica o Evangelho.

Como todas as outras virtudes: honestidade, lealdade, amor, prudência, domínio próprio, humildade, pureza, verdade, temperança, justiça, fortaleza, benevolência.

Mas só existe uma fonte da qual essas virtudes brotam em nossa alma: as misericórdias de Deus.

Pois aparte da misericórdia de Deus, as virtudes humanas só o tornam soberbo, um arremedo da verdadeira humanidade, e a soberba é diabólica.

Por isso, noutro contexto, Paulo repreende alguns coríntios que julgavam ser alguma coisa por suas próprias virtudes.

1ª Co 4.6-8 - Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro. 7 Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido? 8 Já estais fartos, já estais ricos; chegastes a reinar sem nós; sim, tomara reinásseis para que também nós viéssemos a reinar convosco.

Aqui, o apóstolo está sendo claramente sarcástico; zombando da presunção espiritual ridícula demonstrada por alguns, que se julgavam melhores que outros.

Quem é que te faz sobressair?

O que é que você tem, que não foi recebido?

E se foi recebido, porque você “se acha”?

Pois até aqueles dons mais essências, como a fé e o arrependimento, são isso mesmo: dons de Deus, para que ninguém se glorie.

3ª. A misericórdia do ministério

2ª Co 5.18-20 - Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, 19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. 20 De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.

Eu penso que não existe serviço mais honroso para um homem em nação estrangeira, do que o de ser um representante do seu país.

Um embaixador é o representante máximo de um país no exterior, responsável por defender interesses nacionais, negociar acordos, informar o governo e proteger cidadãos.

É o homem ou mulher designados para conduzir a política externa no dia a dia.

O que um embaixador fala, é em nome da sua nação. O que ele faz, é o seu país que está fazendo.

Nós, que antes éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus por meio de Cristo; e agora somos embaixadores do Reino de Cristo, como se Deus falasse por nosso intermédio, enviados para promover a reconciliação entre Deus e os homens.

2ª Co 4.1 - Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos.

O homem redimido pondera sobre o favor imere­cido, o perdão e misericórdia de um Deus que nos salvou a despeito de fraquezas e maldades.

Um mi­nistro idoso estava no leito de morte quando seu fiel diácono disse:

Ah, pastor, o senhor está para receber sua re­compensa.

Ah, não. Recompensa, não! Misericórdia!

 

Todo aquele que de alguma forma está envolvido no ministério da palavra do Evangelho deve enxergar essa honra como uma das misericórdias de Deus.

E a consciência disso, diz o apóstolo, fazia com que ele e seus colegas de ministério não desfalecessem, mas perseverassem.

Irmãos, eu sou chamado pastor. Quanta honra carrega essa palavra! Pois Jesus é o nosso Pastor.

Mas ele ordenou: – Fale a minha Palavra.

Irmãos, vocês são de muitas profissões diferentes; de situações sociais diferentes, temperamentos

Aqui na igreja, uns são líderes, outros são auxiliadores. Alguns de vocês são presbíteros, outros, diáconos. Outros são músicos; e todos nós, independente de nossos ofícios e serviços, somos embaixadores de Cristo.

Quanta honra para todos nós! Quanta honra quando lá no trabalho, lá na escola, lá na vizinhança, as pessoas olham para nós, e pensam:

Aquele homem, aquela mulher, é crente.

E digo isso, como aquele pastor, sem levar em conta o galardão que o Senhor nos dará no céu, pois mesmo se cumpríssemos toda a nossa obrigação, ainda sim, nada seria mais que o nosso dever.

Agora, quando nós próprios, voltamos os olhos para nós, perguntamos:

Mas porque Deus me concede esta honra, designando-me seu embaixador?

Ele é o Pai de misericórdias.

 Conclusão

Alguns anos atrás li a estória de um homem que viajando num trem, percebeu ao seu lado de um jovem clara­mente perturbado e ansioso.

Ele perguntou, e o moço contou que era um presidiário de volta da prisão.

Seu crime tinha envergonhado sua família, pobre e digna, e ninguém jamais o visitou ou lhe escreveu durante os anos na prisão.

Ele esperava que eles não tivessem escrito por falta de cultura. No entanto, não estava certo de ter sido perdoado.

O moço prosseguiu, explicando que queria facili­tar a situação para eles.

Por isso, escrevera pe­dindo que pusessem um sinal quando o trem pas­sasse pelo sítio nas imediações da cidade.

Se eles lhe tivessem perdoado e desejassem sua volta ao lar, dariam um sinal, amarrando uma fita branca na grande ma­cieira perto da estrada.

Se não o quisessem de volta, não fariam nada; ele ficaria no trem, e continuaria a viagem.

Quando se aproximavam da sua cidade, a tensão e desconforto do jovem aumentaram que ele não conseguia olhar; e fechou os olhos.

Alguns minutos mais tarde o homem ao lado colocou a mão no ombro do jovem presidiário e murmurou, com a voz embargada:

Tudo bem... A árvore toda está cheia de fitas brancas.

Há sempre algo milagroso acerca do amor profundo e permanente que transcende obstáculos e anula tendências naturais de orgulho e dor.

A misericórdia do Senhor é assim; como aquela árvore cheia de fitas, mas de várias cores.

Na árvore da vida, a Palavra de Deus, nós as vemos penduradas.

As fitas vermelhas com o sangue de Jesus, que nos purifica de todo o pecado.

As fitas brancas do fruto do Espírito Santo: paz, alegria, bondade, mansidão, domínio próprio.

As fitas verde esperança, as promessas do Pai, que nos concedem graça para orar, esperar com paciência, que nos consolam nas tribulações.

Aplicações

Um coração em paz com Deus

Volta, alma, ao teu sossego, e descansa no Senhor.

Lança fora todo o medo, e confia no seu amor.

Nada, e ninguém, pode te separar do amor de Deus

Nem o diabo, nem as circunstâncias do passado, do presente ou do futuro.

Nem o pecado, pois Jesus já o levou na cruz.

Um coração grato, satisfeito

Um coração humildade, dócil, gentil, misericordioso.

Oração

Pai de misericórdias

Tua majestade é incomparável, tua bondade é é sem igual; tua graça é maior que vida.

Não temos como enumerar as tuas misericórdias para conosco. Em parte nos conhecemos.

Mas mesmo essa pequena parte, não te agradecemos o suficiente; não te louvamos o suficiente.

Agradecemos pelo nosso estado de saúde. Pela preservação das nossas vida, pela preservação das nossas capacidades mentais, pelos cuidados com a nossa vida emocional.

Agradecemos pelos confortos de uma casa, de um lar: o alimento diário, as vestimentas.

Agradecemos pelas nossas famílias, pela ajuda e apoio que recebemos em casa.

Agradecemos pelas alegrias da harmonia e paz domésticas; agradecemos pelos nossos familiares.

Agradecemos pela tua Palavra, pela igreja, pelos irmãos; pelo trabalho; pela nossa nação.

O Senhor é tão generoso, e nos abençoa tanto!!!

Mas Senhor, quando percebemos apenas um pouco das tuas misericórdias, como lamentamos nossos pecados, nossa ingratidão, e quantos dias e vezes pecamos contra ti.

Os céus e a terra, os principados e potestades, os homens, os nossos corações e nossas consciências, testemunham contra nós, que nós quebramos a tua lei.

Não as negamos, Senhor, nem apresentamos desculpas; pois só nos resta admitir que pecamos.

E as tuas misericórdia são a causa de não sermos consumidos.

Quando arrependidos te buscamos, o Senhor não nos lança fora da tua presença; não nos condenas, não medes a altura, nem o número das nossas transgressões.

Pois Jesus levou sobre si os nossos pecados; pois na cruz, toda a nossa dívida foi cancelada.

Bendito seja o Senhor, que dia a dia leva o nosso fardo.

Bendito seja o Pai, o Filho, e o Espírito Santo. Amém.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

Não dê vantagens a Satanás - 2ª Co 2.1-11

Pr. Plinio Fernandes

Mensagem de Domingo, 23 de agosto de 2026, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos

Amados irmãos, vamos ler 2ª aos Coríntios 2.1-11


Isto deliberei por mim mesmo: não voltar a encontrar-me convosco em tristeza. 2 Porque, se eu vos entristeço, quem me alegrará, senão aquele que está entristecido por mim mesmo? 3 E isto escrevi para que, quando for, não tenha tristeza da parte daqueles que deveriam alegrar-me, confiando em todos vós de que a minha alegria é também a vossa. 4 Porque, no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida. 5 Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós; 6 basta-lhe a punição pela maioria. 7 De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza. 8 Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor. 9 E foi por isso também que vos escrevi, para ter prova de que, em tudo, sois obedientes. 10 A quem perdoais alguma coisa, também eu perdoo; porque, de fato, o que tenho perdoado (se alguma coisa tenho perdoado), por causa de vós o fiz na presença de Cristo; 11 para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios.

    Intr.

    Na Bíblia nós temos duas cartas que o apóstolo Paulo escreveu à igreja de Corinto.

    A primeira ele escreveu enquanto estava na cidade de Éfeso, e ali recebeu uma visita de crentes coríntios, que relataram alguns problemas da igreja, e levaram uma carta em que a igreja pedia orientações para a vida em geral.

    A segunda, essa que estamos estudando.

    Mas na verdade, ele escreveu pelo menos mais uma, e talvez duas, que não foram preservadas.

   Nós não conhecemos todos os detalhes que gostaríamos, mas por essas duas que temos, entendemos que, depois de ter escrito a primeira, Paulo os visitou, conforme havia dito em 1ª Co 16.57, na esperança de que a igreja o ajudasse a prosseguir em suas viagens.

   E foi nessa ocasião que algo muito triste aconteceu. Uma pessoa da igreja publicamente ofendeu o apóstolo Paulo.

   Uma coisa, é claro, que ele não esperava; e ficou sem reação. Mas desejou que a igreja, que o conhecia bem, o defendesse, e corrigisse o ofensor; mas ninguém reagiu.

   Então Paulo, ao partir dali, para continuar suas viagens, mas com um grande peso no coração, disse que voltaria noutra ocasião.

  Algum tempo depois, refletindo sobre o assunto, e ainda tomado pela tristeza, em vez de ir pessoalmente, achou melhor escrever uma carta.

  Essa, que não foi preservada, é mencionada aqui nos vs. 1-4, e que alguns estudiosos chamam de “carta severa”, e outros, “carta lacrimosa”.

  Severa porque nela Paulo usou palavras fortes de repreensão à igreja, e lacrimosa porque ele escreveu aos prantos.

  Então Tito, um dos colaboradores de Paulo, levou a carta aos coríntios, e depois disso se encontraria com Paulo na cidade Trôade, para dar notícias sobre a reação da igreja.

 Mas quando chegou a Trôade e Tito não estava lá, Paulo ficou mais triste ainda, e partiu para a Macedônia, onde havia a igreja de Filipos e outras.

 O que ele não sabia àquela altura é que sua carta severa havia produzido bons frutos: a igreja se arrependeu de sua inércia, repreendeu o ofensor, que se disse arrependido também, e contaram a Tito como tinham saudades do apóstolo.

  Quando finalmente se encontrou com Tito, Paulo ficou transbordante de alegria.

  Por isso torna a escrever, agora pedindo que o seu ofensor fosse restaurado; que fosse perdoado e confortado, senão, Satanás alcançaria vantagem sobre todos.

  Prop.

v. 11 - para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios.

  Com base nos acontecimentos aqui, eu quero meditar com vocês sobre três comportamentos, ou atitudes do crente, das quais devemos fugir, pois têm o potencial de dar vantagens a Satanás.

  Divs

  1. Primeira atitude: a de ofensor

  Por um lado Satanás alcança vantagem porque usa o ofensor; por outro, porque fere o ofendido.

  E com ofensa eu quero dizer um ataque a outra pessoa, ao seu caráter; um ultraje; um desrespeito.

 O que teria acontecido especificamente é motivo de várias teorias, pois Paulo evita descrever diretamente o caso.

  Mas espalhadas pela carta, ele alude a diversas insinuações que eram feitas, e situações ocorridas, que teriam potencial para feri-lo.

 Por exemplo, como já vimos anteriormente, alguns desprezavam a sua autoridade, dizendo que as cartas eram enérgicas, mas pessoalmente, seu ministério era fraco, insignificante.

 Também havia afirmações de que Paulo era um pequeno tirano, um ditador que gostava de dominar a vida de fé dos irmãos; que nutria disposições carnais em seu coração.

 Havia insinuações (talvez porque Paulo expressou desejo de ser enviado pelos Coríntios em suas viagens missionárias), de que ele era um ganancioso, mercadejador da fé – por isso nos capítulos 8 e 9, ao falar sobre ofertas para as igrejas pobres, ele enfatiza que não receberia nada pessoalmente deles, mas encarregaria outros irmãos para isso.

 Havia até quem dissesse que Paulo não tinha cartas de recomendação de Jerusalém.

 Mas há uma hipótese bem antiga, dos primeiros séculos,1 que me parece bastante plausível.

 É que em 1ª aos Coríntios 5, Paulo precisou tratar de um assunto delicado.

 Houve um homem na igreja, que estava praticando imoralidade sexual. Era tão atrevido que tinha relações com a esposa do seu próprio pai.

 E a igreja não tomou atitude alguma.

 Quando ficou sabendo, Paulo os repreendeu fortemente, para que excluíssem aquele homem da igreja, que o entregassem a Satanás, a fim de que, sendo castigado em sua carne, se arrependesse e seu espírito fosse salvo.

 Depois, quando Paulo foi novamente a Corinto, esperando que a igreja tivesse obedecido, o que encontrou foi desobediência, a ponto de alguém desrespeitá-lo publicamente; talvez o próprio imoral.

 Seja isso o que aconteceu ou não, o que é claro é que alguém na igreja insultou Paulo, e ficou por isso mesmo.

 O escritor John Bevere, com muita razão, diz que “a ofensa é isca de Satanás”,2 um instrumento através do qual o diabo fere e desperta dores no ofendido, provoca amarguras em seu coração.

 Por outro lado, o ofensor provoca tristezas, divisões e escândalos na igreja.

 A prática da ofensa é fruto de orgulho, sentimento de superioridade, rebeldia contra a Palavra de Deus. O ofensor não se acha em pecado; ao contrário, ele se acha cheio de razão.

 E Satanás alcança vantagem.

  2. Segunda atitude: a falta de correção

  Por que Paulo esperava que a igreja o tivesse defendido, e repreendido ao seu ofensor?

  Não foi ele que escreveu: – “Se tendes alguma queixa contra outrem, perdoai, como Deus em Cristo vos perdoou” 3 ?

  Não foi ele que escreveu: – “Abençoai os que vos maldizem, orai pelos perseguem... vencei o mal com o bem...?” 4

  Então, por que aqui exigiu que o ofensor fosse punido?

  A resposta é: “para o bem de todos”.

  Mais tarde, no cap. 7, Paulo enfatizará que sua maior motivação foi dar oportunidade à igreja para fazer o que é certo. Mas isso não quer dizer que fosse a única razão.

  Primeiro, ele deixa claríssimo, havia sido machucado, e isso por pessoas que deveriam alegrá-lo. Pessoas a quem amava muito.

vs. 4, 5 – Porque, no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida. 5 Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós.

  Há duas expressões que revelam muito do sentimento que Paulo nutria.

  Uma delas é que, sentia, o ofensor não tinha entristecido somente a ele, mas, em parte, à igreja também.

  Isto é, Paulo se sentia parte da igreja, como membro de um corpo. E como ele já havia ensinado antes, “se um membro sofre, todos sofrem com ele”.

  A outra expressão é “escrevi com muitas lágrimas, não com o propósito de deixar vocês tristes, mas para que vocês conheçam o amor sem medida que tenho por vocês”.

  No capítulo 6 ele não mede palavras para expressar seu amor.

2ª Co 6.11-13 – Para vós outros, ó coríntios, abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração. 12 Não tendes limites em nós; mas estais limitados em vossos próprios afetos. 13 Ora, como justa retribuição (falo-vos como a filhos), dilatai-vos também vós.

  Não me parece a “chorosidade de um coração ensimesmado”, mas de um homem pleno da graça de Deus, que se entregava pela igreja.

  Paulo era humano, emotivo, coração cheio de amor, disposto a perdoar, mas também entendia a dignidade humana; que ofender a outro ser humano é pecado.

    Paulo entendia a necessidade de arrependimento do ofensor, e a responsabilidade da igreja.

  Além disso, se a integridade pessoal de Paulo estava sendo destruída, não era um pecado sem importância; ao contrário, de extrema relevância.

    A segunda razão é que o ofensor tinha a necessidade espiritual de ser corrigido.

    Jesus veio para chamar pecadores ao arrependimento.

    Ele colocou o arrependimento como condição para o perdão.

    Tanto em nosso relacionamento com Deus, como em nossos relacionamentos uns com os outros.

    E também disse que, quando um irmão ofende outro, deve haver amorosa confrontação.

    Um assunto tão relevante ponto de, se alguém não se arrepender, deve ser excluído da comunhão.

    Amar significa perdoar, mas também corrigir.

    Porque a correção é um instrumento de libertação.

2ª Tm 2.24-26 - Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, 25 disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, 26 mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade.

  Irmãos, orar é necessário em todas as ocasiões; mas às vezes, para que alguém seja liberto dos laços do diabo, a solução não é “oração de libertação”; não é "vigília no monte". E também não é "água benta nem óleo ungido"; é disciplina; com mansidão, com paciência, com instrução, mas disciplina, visando arrependimento. Arrependimento liberta.

 Há pessoas que simplesmente não crescem espiritualmente, porque não são disciplinadas, ou não aprendem com a disciplina. São eternos ofensores, escravos de si mesmos e de Satanás.

  Se não houver arrependimento, quem leva vantagem é o diabo.

  E em terceiro, a igreja precisa corrigir os ofensores, para o seu próprio bem.

 Por mais que tenhamos boa vontade, se for uma boa vontade que desobedece a Deus, quem leva vantagem é o diabo.

  Mas vamos ao terceiro ponto. O diabo também leva vantagem quando há...

  3. Correção em excesso

vs. 6, 7 – ...basta-lhe a punição pela maioria. 7 De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza. 8 Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor.

  Muitas vezes, a tristeza é uma necessidade espiritual. Ela faz parte do nosso processo de santificação.

  Choramos quando percebemos a praga do pecado que ainda habita em nós.5

  Choramos quando vemos o pecado na igreja.6

  Quando vemos os males do mundo. Jesus chorou, ao ver os males do mundo.7

  Choramos quando disciplinados por Deus.8

  No cap. 7, encerrando o assunto, Paulo diz que foi bom todos terem se entristecido com tudo o que aconteceu.

2ª Co 7.8-10 – Porquanto, ainda que vos tenha contristado com a carta, não me arrependo; embora já me tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou por breve tempo), 9 agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. 10 Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte.

  Por essas coisas sabemos: em certas ocasiões, uma dose de tristeza é necessária para a nossa saúde espiritual.

  Mas ainda assim, quando é excessiva, faz mal, torna-se destrutiva. Como um remédio, que deve ser tomado nas horas certas, na dose certa, durante certo tempo; mas se houver superdosagem, fará mal à saúde.

  Então, primeiro a correção, na esperança de que haja arrependimento.

  Mas depois do arrependimento, o conforto, o amor, o perdão, de todos os ofendidos.

  Para que Satanás não leve vantagem.

 Vejam que, em momento algum, Paulo diz que as coisas que tinham acontecido foram causadas diretamente por Satanás.

 Ele vê tudo como comportamentos humanos que tinham que ser corrigidos por comportamentos humanos.

  Mas, ao mesmo tempo, entendia que o verdadeiro mundo em que habitamos não é constituído apenas de interesses humanos.

  Que a nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados e potestades.9

  E os principados e potestades, que estão observando a igreja, devem pelo testemunho dela conhecer a sabedoria de Deus.10

  Não somente pela correção, mas também pelo perdão, pelo amor, pela consolação.

  Se não houver perdão, consolação para os arrependidos, quem leva vantagem sobre todos é o diabo.

  Se houver persistência de amarguras, ou excesso de disciplina, quem leva vantagem sobre os ofendidos é Satanás.

  Conclusão

  Vamos resumir o que destacamos.

  Satanás, o inimigo das nossas almas, alcança vantagem sobre nós:

  Quando cometemos ofensas contra os nossos irmãos.

  Quando nos sentimos ofendidos.

  Quando os ofensores não são corrigidos.

  Quando os arrependidos não são perdoados.

  Quando, ao invés de entender que a luta do crente é contra os principados e potestades, os crentes ficam lutando uns contra os outros, com divisões, orgulhos e ofensas.

  Em outras palavras, Satanás atira para todos os lados, e qualquer que seja o estrago, agrada a ele.

  Aplicações

  Não dê vantagem ao diabo

  1. Não ofenda seus irmãos; mas se tiver acontecido, em nome de Jesus, pela graça de Jesus que há em você, procure-o, converse com ele, reconcilie-se com ele.

  Mas, e se a sua intenção não foi ofender? Da mesma forma, procure.

  Um pastor que conheci, me contou de uma família que se sentiu ofendida por ele. Aquelas pessoas sentiam que o pastor as desprezava. Mas ele não entendia da mesma maneira.

  Então, depois de ouvir tudo o que tinham a dizer, ele respondeu:

  – Irmãos, eu realmente não consigo enxergar as coisas assim; nada fiz para desprezá-los. Mas eu quero pedir uma coisa: os irmãos podem me perdoar?

  E houve lágrimas, e perdão, e se tornaram grandes amigos.

  2. Se você não for o ofensor, mas o ofendido, não o condene em seu coração.

  Não crie raízes amargas em seu coração; ela não somente perturbaria você, mas se espalharia para o coração de outros.

  Procure o irmão que o entristeceu, ou despertou sua ira. Converse de irmão para irmão.

  Se não conseguir que o outro se arrependa, então você tem dois caminhos possíveis:

  Primeiro, não leve mais em consideração, supere, dê tempo ao seu irmão, para que ele seja trabalhado pelo Senhor.

  Mas segundo, se não estiver conseguindo, se a ferida for grande, peça ajuda de alguém.

  Alguém que seja compreensivo, discreto, que tenha domínio de si, para ajudá-los a conversar.

  Não foi isso que Paulo pediu ao seu cooperador em Filipos, para que ajudasse Evódia e Síntique a se reconciliarem?

  Pessoas santas, amorosas e compreensivas podem ajudar muito.

  3. Se necessário, submeta-se à correção pastoral, e à correção da igreja.

  Permita ser confrontado.

  Não seja um lobo disfarçado de ovelha. Uma das coisas mais tristes que vejo é quando pessoas, ao invés de reconhecer seus erros, ficam colocando a culpa em outros.

  Submeta-se à disciplina

  Não caia na armadilha de pensar que ninguém tem nada a ver com tua vida. Não seja orgulhoso. Não seja rebelde. Não provoque divisões.

  4. Perdoe os arrependidos

  Não guarde rancor. Não se afaste. Abra o seu coração ao Espírito Santo.

  Eu sei que isso, o abrir o coração, muitas vezes dói – veja as dores de Paulo. Mas não deixe que os pecados de outros façam o seu amor esfriar. Você foi chamado para amar com um amor semelhante a Jesus.


__________________________________

1 Conf. Hubbard, Moyer V., Comentário expositivo em 2ª aos Coríntios (São Paulo: Vida Nova, 2021), pág. 33; Kruse, Colin, II Coríntios, Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1994), págs. 46-50; Keener, S. Craig, Comentário Hisórico-Cultural da Bíblia – Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2017), pág. 598.

2 Bevere, John, A isca de Satanás (Rio de Janeiro: Luz para as nações, 2019).

3 Cl 3.13

4 Rm 12.14, 21

5 Tg 4.9

6 Sl 119.136

7 Lc 19.41

8 Hb 12.11

9 Ef 6.11, 12

10 Ef 3.10


domingo, 16 de agosto de 2026

Deus de promessas - 2 Co 1.15-24

Pr. Plinio Fernandes

Mensagem pregada em Domingo, 16 de agosto de 2026, na 3ª Igreja Presbiteriana Conservadora de Guarulhos

Com esta confiança, resolvi ir, primeiro, encontrar-me convosco, para que tivésseis um segundo benefício; 16 e, por vosso intermédio, passar à Macedônia, e da Macedônia voltar a encontrar-me convosco, e ser encaminhado por vós para a Judéia. 17 Ora, determinando isto, terei, porventura, agido com leviandade? Ou, ao deliberar, acaso delibero segundo a carne, de sorte que haja em mim, simultaneamente, o sim e o não? 18 Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não é sim e não. 19 Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, que foi, por nosso intermédio, anunciado entre vós, isto é, por mim, e Silvano, e Timóteo, não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim. 20 Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio. 21 Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu é Deus, 22 que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração. 23 Eu, porém, por minha vida, tomo a Deus por testemunha de que, para vos poupar, não tornei ainda a Corinto; 24 não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas porque somos cooperadores de vossa alegria; porquanto, pela fé, já estais firmados 2:1 Isto deliberei por mim mesmo: não voltar a encontrar-me convosco em tristeza. 2 Porque, se eu vos entristeço, quem me alegrará, senão aquele que está entristecido por mim mesmo? 3 E isto escrevi para que, quando for, não tenha tristeza da parte daqueles que deveriam alegrar-me, confiando em todos vós de que a minha alegria é também a vossa. 4 Porque, no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida.

    Intr.

O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios, vem do Senhor (Pv 16.1)

    O texto que lemos é mais um exemplo, na Bíblia, de que, embora possamos ter boas intenções, e fazer planos santos, nem sempre conseguimos realizar o que pretendemos.

    E que muitas vezes, temos que refazer nossos pensamentos, mudar de ideia, não por inconstância, mas por amadurecimento, ou pelo desenrolar das circunstâncias, e por entender mais plenamente o que é melhor.

    Nos versículos que antecedem ao nosso texto de hoje, o apóstolo Paulo falou sobre a confiança que tinha, diante de Deus, de que entre ele e a igreja de Corinto, no seu geral, havia um relacionamento de mútua confiança e edificação no evangelho de Jesus.

    Mas também começou a dar a entender – para nós, pois os coríntios entendiam claramente o que Paulo estava dizendo – que isso, essa confiança mútua, não era da parte de todos.

    Havia naquela igreja alguns que, chegando de fora, e se intitulando apóstolos, na verdade se opunham a Paulo, procurando diminuir a influência dele sobre os coríntios.

    E havia quem estivesse sendo influenciado por eles.

    Como mais tarde Paulo dirá aqui nessa carta, diziam que quando Paulo escrevia, suas palavras eram enérgicas, mas que a presença pessoal dele não impressionava, e que suas palavras eram desprezíveis.

    Aqui no texto de hoje, Paulo alude ao fato de que, tendo primeiramente planejado e falado que iria visitar a igreja de Corinto, depois achou melhor não ir naquele momento.

    Isso deu ocasião a que os adversários dissessem que ele não cumpria o que falava; que não era sincero, ou que era inconstante.

    Então, para dirimir as dúvidas, ele explica o que realmente havia acontecido.

    Ele havia deliberado, de fato, visitar a igreja de Corinto, pois soubera dos problemas que alguns estavam causando.

    Então escreveu-lhes uma carta em que havia alguma repreensão, e a enviou por meio de Tito, dizendo que depois iria pessoalmente.

    Nos vs. 2 a 4 aqui do capítulo 2, Paulo diz que foi uma carta escrita entre lágrimas, com muitas angústias de coração; que o propósito dele não tinha sido entristecê-los, mas que eles percebessem quanto os amava.

    Depois de entregue e lida a carta, Tito voltaria para se encontrar com ele Trôade, traria notícias, e juntos iriam para Corinto.

    Encaminhados pelos coríntios, iriam à Macedônia, e finalmente voltariam a Corinto.

    Mas quando chegou a Trôade, não encontrou Tito.

    E tão preocupado ficou que, mesmo tendo ali uma porta aberta para pregar o evangelho, despediu-se deles e foi para a Macedônia.

    Achou melhor não se encontrar com os coríntios num momento de conflito. Na verdade, ele dirá no capítulo 12, tinha receio de que indo outra vez, fosse humilhado no meio deles, chorando por causa de alguns que não se arrependiam de suas impurezas.

    Só ficou tranquilo quando finalmente Tito chegou trazendo boas notícias de Corinto; que eles haviam ficado muito tristes e arrependidos quando leram a carta, que haviam disciplinado à pessoa que entristecera Paulo.

    Mas vocês sabem que rebeldia é uma coisa contagiosa.

    Na revolta de Corá, Datã e Abirão contra Moisés (Nm 16), mesmo tendo sido castigados por Deus, depois disso a congregação inteira se levantou contra Moisés e contra Arão, dizendo:

    – Vós matastes o povo do Senhor!

    E aqui também; não todos, mas alguns ainda procuravam caluniar Paulo.

    Por isso, além de se defender explicando paciente e amorosamente, Paulo invoca a Santíssima Trindade, explicando:

    No v. 18, que Deus é o seu padrão de conduta.

    No v. 21, que Deus é quem o ungiu; e quem o confirmou, Jesus Cristo.

    No 22, que Deus o selou com o penhor do Espírito.

    E no v. 23, que Deus era sua testemunha em tudo o que fazia.

    O que ele quer enfatizar é que sua Apostolicidade, e consequentemente, o seu evangelho, tinham como base a iniciativa do próprio Deus.

    Prop.

    Há muito que podemos aprender aqui, sobre as motivações e conduta pastoral, sobre a conduta dos crentes em geral, sobre a autoridade do evangelho em nós.

    Eu desejo destacar, para a nossa meditação, a doutrina exposta nos vs. 18-20, nas quais ele nos ensina que Jesus Cristo é o cumprimento da Palavra de Deus; do Deus que é fiel.

18 Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não é sim e não. 19 Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, que foi, por nosso intermédio, anunciado entre vós, isto é, por mim, e Silvano, e Timóteo, não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim. 20 Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio.

    Divs.

    1. Deus de promessas!

    Essa é uma frase muito usada nos dias de hoje, que em alguns lugares se torna quase que um clichê: “Deus de alianças, Deus de promessas”.

    No entanto, e ainda que essas frases não estejam literalmente na Bíblia, e que em muitos lugares tenha se tornado chavões, elas expressam, de fato, a maneira de o Senhor se relacionar com toda a sua criação, e mais especialmente com o povo escolhido.

    Deus fez aliança com Adão, Deus fez aliança com os céus e a terra.

    Depois da queda de Adão, Deus começa a revelar uma aliança da graça que passa por Noé, Abraão e sua descendência, o povo de Israel, Judá, Davi, e finalmente culmina em Jesus e todos os escolhidos de Deus, de toda a tribo, língua e nação.

    Nessa aliança de graça, que é totalmente iniciativa de Deus, ele promete ser o nosso Deus, e que nós somos o seu povo, não somente aqui, mas na eternidade.

    De todas as imagens bíblicas para descrever essa aliança, a mais enfatizada é a de um casamento, onde Jeová é o marido, e Israel é a esposa; ou em termos neotestamentários, Jesus é o esposo, e nós, sua igreja, seu povo, somos a noiva.

    É uma aliança de amor, voluntária, e não por coação ou imposição.

    Ora, qualquer aliança envolve promessas: fidelidade, sustento, proteção, auxílio; coisas que se traduzem no dia a dia de muitas maneiras.

    Os nossos antepassados puritanos classificaram as promessas de Deus para nós de muitas maneiras.

    Eu não tenho como expor tudo o que disseram aqui, mas se você quiser conhecer, eu recomendo um livro excelente, chamado “Teologia Puritana – Doutrina para a vida” (Joel R. Beeke); outro excelente livro, que faz uma abordagem devocional, solidamente alicerçada na Teologia Reformada, e que eu recomendo, é “O Deus de Palavra”, de Roger Ellsworth.

    Há promessas relacionadas à lei, e promessas relacionadas ao evangelho.

    Há promessas condicionais, e promessas incondicionais.

    Há promessas gerais, e promessas pessoais.

    Há promessas para a vida presente, e há promessas para a vida futura.

    Quando Deus não permite que vejamos, nesta vida, o cumprimento em nós, de alguma promessa geral, é que ele tem em vista o cumprimento de promessas maiores.

    Em cada “promessa”, Deus está como que colocando uma ponte entre aquilo de bom, abençoador, que ele tenciona fazer, e o momento em que ele faz o que tenciona.

    Deus deseja fazer, Deus promete que fará, e no tempo determinado, ele o faz.

    Portanto, as promessas fazem a ponte, ao nos dar conhecimento, ainda que não completo, e fé e esperança, a fim de que aguardemos o que Deus irá fazer.

    2. Todas as promessas de Deus aos seus escolhidos, são nossas em Cristo Jesus

vs. 19, 20 – Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, que foi, por nosso intermédio, anunciado entre vós, isto é, por mim, e Silvano, e Timóteo, não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim. 20 Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio

    Com isto a Escritura quer dizer, entre outras coisas, que todas as promessas são dadas graças a Cristo como nosso representante. Quando estamos unidos a Cristo pela fé, as promessas são nossas.

    Além disso, quer dizer que todas as promessas se cumprem graças aos méritos de Jesus Cristo, e não aos nossos.

    Ele é quem fez tudo o que nós deveríamos fazer para nos tornarmos merecedores.

    Jesus é a fonte, o meio, e o cumprimento, o herdeiro de todas as promessas, e dele, por ele, e com ele, somos herdeiros de Deus.

    Por exemplo, Deus fez promessas a Abraão e sua descendência.

Gl 3:13-16 – Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), 14 para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido. 15 Irmãos, falo como homem. Ainda que uma aliança seja meramente humana, uma vez ratificada, ninguém a revoga ou lhe acrescenta alguma coisa. 16 Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo.

    Aqui Paulo direta e indiretamente menciona duas promessas básicas, que englobam todas as demais que recebemos e temos em Cristo.

    Indiretamente, ele nos lembra da promessa de vida, por meio da lei, ao mencionar a ameaça de maldição para todos os que não cumprem a lei (lei, aqui, a lei do Antigo Testamento).

    A lei dizia que todos os que não a obedecessem eram malditos, condenados. O que era o caso de todos nós, pois todos pecamos.

    Mas então, o que Jesus Cristo fez? Ele nos resgatou da maldição da lei, levando sobre a cruz os nossos pecados, fazendo-se maldição em nosso lugar.

    Vale a pena ler aqui também os vs. 1, 2, para entender a maneira como recebemos essa redenção em Cristo.

Gl 3:1-2 – Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado? 2 Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?

    Paulo aqui repreende os gálatas, pois alguns falsos mestres estavam como que enfeitiçando os gálatas, no sentido de que deveriam, se quisessem ser salvos, cumprir obras da lei, como circuncisão e sábados.

    – Recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?

    A resposta que a pergunta exige, e que todo o crente conhece, é óbvia.

    Não; não recebemos o Espírito pelas obras da lei. Foi pela fé em Jesus, que morreu por nós.

    Voltado ao v. 14, a Escritura aqui diz que a bênção de Abraão chegou a nós, em Cristo Jesus, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito Santo, que Deus prometeu à descendência de Abraão.

    E no v. 16, Paulo frisa que a promessa foi feita a Cristo; uma vez que estamos unidos a Cristo, as bênçãos são nossas.

    Assim, aqui temos o cumprimento de duas grandes promessas básicas, da qual derivam todas as outras: o resgate da maldição da lei, e o dom do Espírito Santo em nossos corações.

    Isto nos conduz ao meu terceiro ponto...

    3. Nós compreendemos o nosso viver, à luz das promessas de Deus em Cristo

    Voltemos a 2ª Co 1, para ver como Paulo aplica isto a si mesmo, aos seus cooperadores, e à igreja.

v. 18. – Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não é sim e não.

    Assim como Deus é, assim nós somos também. Por que tanta ousadia no falar?

vs. 21, 22 – Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu é Deus, 22 que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração.

    – Ungidos por Deus – assim como os reis, sacerdotes e profetas foram consagrados ao Senhor, para servi-lo, nós somos também.

    – O mesmo Deus que nos deu esta unção também nos confirmou em Cristo.

    – Colocou em nós o selo do Espírito, e pela sua presença em nosso coração, nos garante que somos dele e unidos a ele.

    Isso não quer dizer que Paulo entendia todas essas coisas como uma autoridade para dominar sobre os irmãos.

    Ao contrário, a ideia de ser uma pessoa dominadora lhe causava aversão. Mas quer dizer, em segundo lugar, que ele entendia o poder e responsabilidade do seu ministério.

    Digo, em segundo lugar, porque em primeiro, a grandeza, o poder, a responsabilidade, e a liberdade de sua vida, no Senhor.

    Há dois pontos aqui.

    3.1. O primeiro, é que essa unção do Espírito em nós não deve ser entendida como uma descrição de alguns poucos privilegiados entre os crentes, mas de todos os crentes.

    Essas promessas são dádivas a todos os crentes, pois todos os crentes estão unidos a Cristo, pela fé.

    Apenas como exemplo, para não me estender demais.

1ª Jo 2.19-20 – Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. 20 E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento.

1ª Jo 2:26-27 – Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar. 27 Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou.

    Aqui, a unção que vem de Deus e que está sobre todos os verdadeiros crentes tem o sentido de que ela não nos permite ser enganados por falsos mestres, porque temos recebido e o ensino que vem de Deus.

    As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem...

    3.2. O segundo ponto, é que essas verdades não são como que doutrinas para a mente; antes, são o alimento da fé, a realidade da vida que vivemos, tanto agora, como na eternidade

2ª Co 4.13-14 – Tendo, porém, o mesmo espírito da fé, como está escrito: Eu cri; por isso, é que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos, 14 sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará convosco.

    Com outra forma de se expressar, mas com a mesma doutrina, o apóstolo Pedro também escreveu.

2ª Pe 1.3 – Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, 4 pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo...

    A pontuação da NVT, em parágrafos menores, nos ajuda a ouvir mais claramente o que Pedro diz.

Deus, com seu poder divino, nos concede tudo de que necessitamos para uma vida de devoção, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para si por meio de sua glória e excelência. ⁴ E, por causa de sua glória e excelência, ele nos deu grandes e preciosas promessas. São elas que permitem a vocês participar da natureza divina e escapar da corrupção do mundo causada pelos desejos humanos. ⁵ Diante de tudo isso, esforcem-se ao máximo para corresponder a essas promessas. Acrescentem à fé a excelência moral; à excelência moral o conhecimento...

    E Pedro segue dizendo, até o v. 11, o que o poder dessa comunhão com a natureza divina nos capacita a viver: a virtude, o amor fiel, a fraternidade, a bondade, o domínio próprio, a perseverança, coisas que Paulo descreve como o fruto do Espírito em nós.

    Conclusão

    A Bíblia, Palavra de Deus, explica dois diferentes modos de Deus se relacionar conosco.

    Um modo, é através da justiça da lei.

    A lei contém os seus mandamentos – o que ele requer de nós.

    As ameaças – os castigos do Senhor, se não cumprimos os seus mandamentos.

    As promessas do Senhor, de nos fazer o bem e nos livrarmos do mal, se obedecermos.

    Acontece que, através desse modo, todos nós estaríamos perdidos, amaldiçoados e condenados.

    Por isso, Deus nos deu também outro modo, que é o Evangelho.

    O Evangelho diz que Jesus cumpriu a lei em nosso lugar, vivendo em completa obediência ao Pai, e morrendo em nosso lugar. O justo pelos injustos.

    Assim, Jesus é o herdeiro de todas as promessas de Deus aos que lhe obedecem.

    Quando nos unimos a Jesus, pela fé, tudo o que Jesus conquistou passa a ser nosso também.

    Aplicação

    Eu quero fazer algumas aplicações a todos nós.

    Primeiramente, desejo me dirigir a todos, exortando a que sejam unidos a Jesus por meio da fé.

    Todos os que não têm Jesus Cristo como seu Senhor, como seu único e suficiente salvador, estão vivendo sob a maldição da lei, condenados em seus pecados.

    Se esse é o seu caso, arrependa-se dos seus pecados, creia em Jesus, converta-se a ele, pela fé receba a Jesus em sua vida.

    Em Cristo, todos os pecados são perdoados, todas as maldições são quebradas, toda a obra maligna é destruída.

    Em segundo lugar, desejo exortar a todos também a que conheçam as promessas de Deus para todos os que são crentes em Jesus; o povo da sua aliança.

    Leiam a Palavra de Deus; ouçam; meditem.

    Terceiro, orem com base nas promessas do Senhor com fé, tranquilidade, confiança, sigam as orientações do Senhor, e aguardem.

    Um exemplo ternamente belo nós podemos ver na aliança do Senhor com Davi e o seu descendente (2º Samuel 7 e 1º Crônicas 17).

1º Cr 17.25-27 – 25 Pois tu, Deus meu, fizeste ao teu servo a revelação de que lhe edificarias casa. Por isso, o teu servo se animou para fazer-te esta oração. 26 Agora, pois, ó SENHOR, tu mesmo és Deus e prometeste a teu servo este bem. 27 Sê, pois, agora, servido de abençoar a casa de teu servo, a fim de permanecer para sempre diante de ti, pois tu, ó SENHOR, a abençoaste, e abençoada será para sempre.

    As promessas da aliança sempre foram motivo de oração para a igreja do Senhor. Ore de acordo com elas.

    Fale de acordo com elas

    – Eu cri, por isso falei. Nós cremos, por isso também falamos.

    Posso todas as coisas naquele que me fortalece.

    – O meu Deus suprirá cada uma das minhas necessidades...

    – O Senhor é a fortaleza da minha vida.

    – O Senhor é o meu pastor...

    Viva pela fé nessas promessas.

Porque tantas quantas são as promessas de Deus, todas tem em Jesus o sim, para que por ele digamos o amém, para a glória de Deus.

▲Topo