Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR, Deus dos Exércitos. Jeremias 15:16

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Os sofrimentos do tempo presente - Rm 8:12-25

3ª IPC de São Paulo
Pr. Plínio Fernandes
Assim, pois, irmãos, somos devedores, não à carne como se constrangidos a viver segundo a carne.  13 Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis.  14 Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.  15 Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai.  16 O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.  17 Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados.  18 Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.  19 A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus.  20 Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou,  21 na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.  22 Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.  23 E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.  24 Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?  25 Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos.
Será que uma pessoa que foi salva em Cristo Jesus, tendo seus pecados perdoados, tendo recebido o dom do Espírito Santo e a vida eterna... será que uma pessoa por quem Jesus sofreu na cruz, levando ali as suas dores... será que esta pessoa precisa ainda sofrer neste mundo?
Será que um crente cheio do Espírito Santo sofre neste mundo? Será que uma pessoa pode ser feliz, e ainda assim sofrer?
Ou de outro modo: será que uma pessoa pode sofrer e ainda assim estar bem emocionalmente? Será que uma pessoa pode sofrer e ainda assim ser feliz? Será que uma pessoa pode sofrer e ainda assim estar de bem com a vida e de bem com Deus?
Algumas pessoas entendem que sofrimento e felicidade sejam duas realidades completamente incompatíveis e mutuamente exclusivas.
Que, se Jesus sofreu na cruz em nosso lugar, isto significa que ele sofreu para que nós não soframos mais, e então tudo quanto nos traz sofrimento deve ser expulso de nossa vida como coisas provenientes de Satanás.
O que a Bíblia nos diz sobre isto?
Neste capítulo 8 da carta aos Romanos, o apóstolo Paulo está descrevendo quão maravilhosa é a vida dos crentes em Jesus, pois os crentes em Jesus têm, morando dentro deles, o Espírito Santo.
Se cremos em Jesus como nosso Senhor e Salvador, então temos o Espírito de Cristo, o Espírito Santo de Deus, habitando em nossos corações.
E se temos o Espírito de Cristo em nós, isto significa que já não pesa, da parte de Deus, nenhuma condenação sobre nós, por causa dos nossos pecados.
Se temos o Espírito, isto também significa que agora nossas inclinações nos levam à justiça, vida e paz.
Significa também que a morte não é o fim para nós, mas por meio dela entramos naquele estado de alegria eterna, no qual também aguardaremos o dia da ressurreição de nosso corpo.
Se temos o Espírito, ele nos ajuda em nossas fraquezas orando a Deus Pai em nosso favor, e fazendo com que todas as coisas sejam usadas por Deus para o bem de nossas almas.
Se temos o Espírito de Cristo, então Deus é por nós, e se Deus é por nós, ninguém será contra nós.
Ninguém nos condenará, e nada poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus.
Mas em meio a toda esta vida gloriosa, e sem pedir desculpa alguma, o apóstolo Paulo nos diz que aqueles que estão em Cristo, aqueles que vivem uma vida cheia do Espírito, sofrem.
vs. 17,18
Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados.  18 Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.
Eu desejo meditar com vocês sobre o ensino de Deus contido nestas palavras
1. Pessoas amadas por Deus também sofrem
No texto inteiro o apóstolo Paulo está se dirigindo a pessoas amadas o Senhor
1.1 - v. 14
Pois todos os que são guiados pelo Espírito são filhos de Deus.
E por ser guiado, ou conduzido pelo Espírito, Paulo está se referindo a esta iluminação de nossa mente, de nosso coração. A esta luz interior que nos guia nas verdades da Palavra de Deus, a Bíblia, que em nosso dia a dia nos fala ao coração e mostra quando pecamos, que nos ensina que decisões devemos tomar, que palavras devemos usar, enfim, que orienta a nossa vida.
Há alguns dias uma irmã me contou que foi a uma loja fazer o financiamento de um automóvel. Mas quando ela estava dando as informações necessárias ao financiamento, o dono da loja disse que ela precisava mentir para conseguir a quantia necessária. Ela então optou por não comprar o carro naquelas condições. Se Deus quisesse que ela tivesse um carro, então ele mesmo proporcionaria todas as condições necessárias. E assim aconteceu. Ela conseguiu num outro lugar, sem mentir para ninguém. Isto é uma ilustração do que significa ser guiado pelo Espírito Santo.
1.2 - v. 15
Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai.
Os que são guiados pelo Espírito também são pessoas que têm com Deus uma comunhão deliciosa. Não são pessoas que têm medo de Deus, que pensam em Deus como alguém que está zangado com elas, ou insatisfeito. Mesmo quando repreendidas ou disciplinadas pelo Senhor, sabem que não estão sendo condenadas por ele.
Já aconteceu de você repreender ao seu filho, ou ser repreendido pelo seu pai, e ainda assim, perceber que há um clima de amor em toda a situação, de modo que, mesmo repreendido, ou repreendendo, a vontade é de abraçar, de beijar? Que há um sentimento de afeição? Porque não há temor, não há medo; aliás, o único medo é o de entristecer a quem amamos.
Assim, os que têm o Espírito de Deus não têm medo de Deus, mas amor por ele, e sentimento de que são amados, e podem chamá-lo de Pai, ou, mais literalmente, paizinho.
 1.3 - v. 16
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
O próprio Espírito fala ao nosso coração, por meio da Palavra, iluminando a consciência, dando-nos a certeza de que somos filhos de Deus. É uma santa operação na alma, pela qual o Espírito torna real para nós tudo quanto Deus nos diz em sua Palavra.
Por meio do Espírito Santo temos a certeza do perdão eterno, do amor eterno, da salvação de nossas almas. Eu me lembro do dia em que pela primeira vez me dei conta de que sou um homem salvo – foi meditando em João 3:16; o meu coração se encheu de alegria, parecia que eu estava andando a pelo menos um metro de altura...
Então veja: é a pessoas guiadas pelo Espírito que ele está falando, pessoas que receberam o Espírito de adoção, pessoas que têm dentro do coração o testemunho do Espírito, de que são, de fato, filhos de Deus, a estas pessoas é que Paulo está escrevendo.
A estas pessoas é que Paulo diz: nós, os que temos o Espírito, sofremos.
2. O sofrimento dos amados de Deus é próprio da sua condição como de filhos de Deus
Eles sofrem justamente por causa de sua condição espiritual de comunhão com Deus.
“Sofrer faz parte do pacote”, faz parte da bem-aventurança de se ser filho de Deus.
v. 17
Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados.
Se estamos unidos a Cristo, então com ele sofremos.
2.1 - Primeiramente, sofremos à medida que nos empenhamos diariamente no fazer morrer nossas inclinações pecaminosas.
v. 13
Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis.
A nossa luta contra as velhas inclinações pecaminosas é uma constante diária, e não é uma luta fácil.
No capítulo 7 o apóstolo Paulo descreve parte desta luta diária que o homem espiritual experimenta contra o pecado:
7:15-25
Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. 16 Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. 17 Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. 18 Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. 19 Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. 20 Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. 21 Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. 22 Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; 23 mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. 24 Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? 25 Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado.
É importante frisar que Paulo aqui descreve a luta de um homem cuja mente foi transformada pelo Espírito Santo, que tem prazer em fazer a vontade de Deus, mas que muitas vezes se pega fazendo justamente o contrário. Então ele se sente carnal, e não espiritual, miserável, desventurado.
É importante frisar também que o pensamento de Paulo não termina no cap. 7. Ele segue pelo cap. 8 nos ensinando que esta luta é uma luta vitoriosa no poder do Espírito.
Mas não é uma vitória sem luta, sem conflito, sem uma tensão muitas vezes enorme.
Por isto, mesmo sendo feliz em Jesus, o salvo se sente muito entristecido por sua condição pecaminosa que nele ainda sobrevive.
E ele somente sofre com isto porque esta inconformidade com o pecado é parte deste ser uma nova criação em Jesus.
Se ele fosse uma pessoa perdida, sem Deus, sem consciência do seu próprio pecado e da santidade de Deus, o pecado não a incomodaria.
Então este sofrer faz parte da felicidade de ser alguém alcançado pela graça salvadora de Deus.
1.2 - Nós também sofremos com Cristo em favor de sua igreja.
É um pensamento que pode nos parecer estranho, mas a Bíblia nos ensina que mesmo agora, enquanto a igreja ainda não chegou à plenitude daquilo que Jesus tem planejado para ela, ele ainda está sofrendo por ela.
Cl 1:24
Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja...
Veja: há um sentido em que a obra de Jesus em nosso favor já está completa. De uma vez por todas, através de sua morte por nós, os nossos pecados foram perdoados, a nossa salvação foi conquistada.
Mas noutro sentido, Jesus ainda continua a trabalhar pela nossa salvação. Agora, como diz a carta aos Hebreus, ele está à direita de Deus Pai, intercedendo por nós a cada instante.
Em Romanos 8 Paulo escreve que o Espírito de Cristo intercede por nós com gemidos inexprimíveis. À medida que sofremos, ele sofre conosco. Ele sofre em nosso favor. À medida que a igreja sofre as dores necessárias para o seu desenvolvimento, para o seu crescimento espiritual, rumo à perfeita santidade, ele sofre com os seus escolhidos. E à medida que sofremos com ele, preenchemos, por assim dizer, o que resta das aflições de Cristo em nosso favor.
Há, portanto, um sofrimento solidário, de Cristo em favor de sua igreja, e de cada um de nós também, à medida que estamos unidos a ele e unidos à sua igreja
2ª Co 11:28-29
Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas.  29 Quem enfraquece, que também eu não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me inflame?
Mas novamente precisamos dizer: este sofrimento faz parte da própria felicidade de se fazer parte do povo de Deus, a igreja; e amar a igreja.
Pois o crente tem Cristo no coração, e então o mesmo amor que ele tem para com sua igreja. Como Jesus, o crente sofre com as fraquezas da igreja. Ele chora por seus pecados, assim como chora também pelos seus próprios pecados. Ele ora por ela intensamente. E também como Jesus, o crente não abandona a igreja. Ele a defende, ele busca sua edificação
2.3 - E há também um sofrimento que experimentamos em nossa vida comum com todo o universo criado por Deus, e que foi submetido ao sofrimento por causa do pecado
vs. 19-23
A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. 20 Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, 21 na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. 22 Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. 23 E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.
Não sabemos como será exatamente, mas quando o Senhor Jesus restaurar todas as coisas o próprio universo à nossa volta tornará a ser um todo harmonioso.
Para descrever a glória da nova criação o profeta Isaías diz que o leão comerá palha como o boi, o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e uma criancinha os guiará.  A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; a criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco.   A terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar.
Mas agora, enquanto a criação aguarda a nossa redenção, nós também sofremos com ela, e gememos aguardando a redenção do nosso corpo.
Por isto, todos os males e sofrimentos que atingem o mundo e a humanidade também nos atingem: crentes também ficam enfermos; crentes também são assaltados; crentes também são vítimas de enchentes; crentes também perdem seus filhos. Crentes também têm que ir à guerra, passam dificuldades econômicas, sofrem com a perda de entes queridos; crentes também sofrem com o sofrimento do mundo. Enfim, partilham com toda a humanidade os sofrimentos aos quais está sujeita a criação.
Mas nenhum destes sofrimentos é capaz de fazer-nos sentir que não somos amados de Deus.
Rm 8:35-39
Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? 36 Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. 37 Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. 38 Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, 39 nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Este sofrimento faz parte da própria essência de se ser cristão. Pois o cristão sabe que o seu lar eterno não será como agora. E sua alma geme, e ele anela o dia em que todo o universo será redimido deste cativeiro de angústia e dor.
3. O sofrimento dos amados de Deus é um sofrimento transitório
Note que Paulo fala dos sofrimentos do tempo presente.
Eles são muitos: sofremos por nossos próprios males e pecados; sofremos por causa da igreja do Senhor; sofremos por vivermos num mundo ainda decaído.
Mas todo o sofrimento passará.
Para usar a linguagem poética dos salmos: “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”
Como descrever a glória que há de ser revelada? Seria possível?
Ainda que numa linguagem um tanto empobrecida, para se acomodar à nossa condição decaída, a Palavra de Deus descreve o futuro eterno em termos maravilhosos, tanto dizendo as coisas que não mais existirão como algumas que acontecerão
3.1 – Não mais existirá mal de espécie alguma
Não mais morte. Não mais enfermidade. Não mais fome. Não mais pecado. Não mais guerras. Não mais desastres. Não mais traições, mentiras, maldades. Não mais trabalho inútil.
3.2 – A bênção será completa
Vida para sempre, mas não qualquer vida: vida plena de alegria e paz.
Veremos nosso Senhor face a face. E viveremos em abundante paz uns com os outros
Adoração perfeita; e andaremos na luz do Senhor, pois ele será a nossa luz.
O nosso próprio corpo, diz o apóstolo, será um corpo glorioso, diferente, não mais sujeito aos males deste tempo.
Então, diz o apóstolo, se estamos sofrendo com Jesus agora, é um sofrimento que vale a pena
Pois se com ele sofremos também com ele reinaremos. Vamos herdar com ele todas as coisas que o Pai lhe tem reservado.
Mas veja, a condição mesma para que se viva esta vida eterna de alegria, é que agora nós passemos pelo sofrimento.
“Se com ele sofremos, com ele seremos glorificados”.
Mas se não quisermos sofrer, se amarmos a vida segundo o mundo, então não haverá o fruto que salta para a vida eterna.
Acho que a melhor ilustração que nos é dada na Palavra de Deus vem dos lábios do Senhor Jesus:
Jo 16:21-22
A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem.  22 Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar.
Me faz pensar em quando a Rutinha nasceu. Primeiro vieram as dores da gestação, as náuseas, o cansaço. Depois, as dores do parto propriamente ditas. E depois, a amazonense mais bonita que eu conheço (ou melhor: a segunda, na ordem cronológica).
Aplicação
Será que podemos ser felizes mesmo em meio aos nossos sofrimentos? A resposta é “sim”. Como diz o Espírito Santo, “tende motivo de toda a alegria o passardes por várias provações”, pois o propósito dela é a preparação das nossas almas para o dia da salvação.
Então, primeiramente, seja feliz, mesmo que você passe por sofrimentos.
Em segundo lugar, persevere em meio aos sofrimentos, sabendo que através deles você está crescendo, está se tornando uma pessoa melhor. Seja forte, seja firme, seja gente de Deus.
Em terceiro lugar, tenha fé. Aproveite os seus sofrimentos para ter sua comunhão com Deus fortalecida, através da oração, da adoração, da obediência.
Logo, "aquele que vem, virá", e dará a cada um de nós o fruto de nossa perseverança.



domingo, 14 de fevereiro de 2016

Amizade com Deus - Rm 5:1-10

IPC de Pda. de Taipas
Domingo, 7 de fevereiro de 2016
Pr. Plínio Fernandes
Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;  2 por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus.  3 E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança;  4 e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.  5 Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado.  6 Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.  7 Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer.  8 Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.  9 Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.  10 Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.
Alguns dias atrás um querido irmão, residente numa cidade do interior me ligou a fim de compartilhar algumas dificuldades que tem enfrentado no trabalho – e consequentemente a família. Nós oramos, e combinamos que alguns dias depois eu e a Terezinha iríamos até eles, passar um tempo juntos.
E foi o que fizemos uns dias depois.
No Livro dos Provérbios, o Espírito Santo diz que o homem que tem muitos amigos sai perdendo, mas também que há amigo mais chegado que um irmão[1].
E esta família é uma daquelas que podemos com alegria dizer, são amigos assim, que têm estado conosco há mais de vinte anos, em todo tipo de circunstâncias, e nas idas e vindas que a vida promove, que têm sido usados por Deus inúmeras vezes em nossas vidas.
Então alguns dias depois nós fomos até eles, passamos uma deliciosa e edificante tarde juntos, ouvindo-os, orando e compartilhando a Palavra de Deus.
Um amigo, amigo de verdade, é um bem inestimável.
Hoje eu desejo meditar com vocês sobre a grande amizade, a amizade suprema de nossa vida com o grande amigo, mais chegado que um irmão, o nosso Deus e Salvador, o Senhor Jesus Cristo.
No v. 1 aqui do texto que lemos, a Palavra de Deus nos revela duas das muitas bênçãos que temos junto a Deus mediante a fé em Jesus.
Uma delas é a nossa “justificação”, o ato através do qual Deus, o juiz de todos os homens, nos declara sem culpa diante do seu tribunal. Graças a Jesus, os que têm fé estão justificados dos seus pecados.
E a outra bênção é que, uma vez justificados, temos também “paz com Deus”; isto é, à luz do v. 10, nós que éramos inimigos de Deus por causa dos nossos pecados, fomos reconciliados. Agora, em vez de inimizade, o que existe entre nós é aquilo que Abraão, nosso pai na fé, também experimentou, e foi chamado amigo de Deus[2].
Que coisa grandiosa, meus irmãos, é a nossa eterna salvação. E não poderia ser diferente, pois o nosso Salvador é grande. Cada aspecto daquilo que Jesus conquistou para nós, na cruz, é simplesmente admirável.
A regeneração, aquela misteriosa obra do Espírito Santo, pela qual ele nos faz renascer espiritualmente, e assim nos dá vida nova, arrependimento e fé...
A justificação pela fé em Jesus, mediante a qual somos declarados sem culpa...
A santificação do Espírito, mediante a qual somos separados a fim de viver para Deus, e pela qual nosso crescimento espiritual rumo à eternidade tem início...
Todas estas coisas, e muitas outras que Jesus nos concede trazem alegria e paz ao nosso coração.
Vamos meditar sobre alguns aspectos práticos desta reconciliação com Deus mediante a fé em Jesus, a nossa relação de amizade com Deus.
1. A reconciliação com Deus nos dá a confiança de sermos amados por ele
Eu gostaria de ilustrar isto com trechos de uma história narrada em João 11.
Vamos ler Jo 11:11
Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo.
Este capítulo todo nos conta a história da ressurreição de Lázaro, irmão de Marta e Maria, discípulos de Jesus que moravam numa cidadezinha próxima a Jerusalém, chamada Betânia. Os evangelhos nos dão a entender que sempre que ia a Jerusalém, Jesus hospedava-se na casa destes três irmãos[3].
Os três primeiros versículos aqui deste capítulo nos dizem que Lázaro ficou enfermo, e suas irmãs mandaram avisar a Jesus.
Jesus não foi de imediato, pois o plano de Deus era no sentido de que Lázaro viria a falecer, e depois de quatro dias o Senhor o ressuscitaria.
O que desejo destacar agora é a maneira como Jesus se refere a Lázaro neste versículo 11: nosso amigo. Era assim que Jesus o considerava; a ele e às suas irmãs, Marta e Maria.
E dentro deste contexto, algumas referências ao sentimento e ao comportamento de Jesus para com eles.
Jo 11:5
Ora, amava Jesus a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro.
Agora, alguns dias depois, quando Jesus está com as irmãs, os discípulos e alguns conhecidos, já diante do túmulo de Lázaro.
Jo 11:35, 36
Jesus chorou.  Então, disseram os judeus: Vede quanto o amava.
Veja a comoção de espírito do Senhor diante do sofrimento dos seus queridos. Jesus, Deus que se fez carne e habitou entre nós, sofreu em seu próprio coração, em sua própria alma, em seu próprio corpo, os nossos sofrimentos. Não somente sofreu as mesmas tentações que nós sofremos, mas também as nossas dores.
Por isto também o escritor da Epístola os Hebreus nos ensina que ele é um sumo-sacerdote perfeito. Ele se compadece de nós em nossas aflições, e intercede por nós[4].
O que vemos nestas coisas todas são afirmações do amor de Jesus para com seus amigos. Amor que se envolve, que faz estar juntos, que se alegra com a alegria, que chora nas tristezas, que se compadece nas aflições, que vem ao encontro nas necessidades.
Jesus é amigo mais chegado que um irmão.
2. A reconciliação com Deus nos leva a desejar sua glória e o bem dos seus amados
Jo 3:26-30
E foram ter com João e lhe disseram: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro.  27 Respondeu João: O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada.  28 Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor.  29 O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim.  30 Convém que ele cresça e que eu diminua.
João Batista foi um profeta enviado por Deus a preparar o caminho de Jesus. O próprio ministério de João já havia sido profetizado muitos anos antes, pelo profeta Isaías[5]. A sua pregação era um anúncio de que a vinda do Salvador do mundo estava próxima, e as pessoas deveria se arrepender e preparar o coração para receber a Jesus.
Com sua pregação, João estava alcançando multidões de pessoas, e elas eram batizadas em sinal desse arrependimento.
Então a promessa se cumpriu: Jesus, o Filho de Deus se manifestou. E multidões passaram a segui-lo. Da mesma forma que João, os discípulos de Jesus passaram a batizar as pessoas que se arrependiam[6].
Então algumas pessoas vieram contar estas coisas a João, como que dizendo: – “Olha, surgiu outro profeta pregando, Jesus; e tem muita gente seguindo ele. Agora você tem um concorrente, e parece que ele está ganhando...”
E ele responde usando uma figura de comparação, para explicar a maneira como entendia esta nova situação.
Ele diz que o encontro de Jesus com os seus escolhidos era como a celebração de um casamento. Jesus é o noivo, o povo de Deus é a noiva. E ele, João, é apenas um amigo do noivo.
Esta mesma figura será usada várias outras vezes no Novo Testamento para descrever o relacionamento de amor entre Cristo e sua igreja[7].
Cristo amou sua igreja e a si mesmo se entregou por ela, para purificá-la, para santificá-la, preparando-a para ser sua esposa.
Então a resposta de João foi esta:
“Eu não sou o noivo da igreja. Ela não é minha; ela é de Jesus; e é a ele que a igreja deve amar, e não a mim. Eu sou amigo dele. Só de ouvir a voz dele eu já fico contente. Convém que ele seja engrandecido, e que eu diminua”.
Que atitude de amor vemos em João. Amor a Jesus, e à sua igreja. Ele não quer ser amado em primeiro lugar; ele não quer ser um ídolo na vida dos crentes. Ele quer que Jesus seja seguido.
O amigo de Jesus não deseja ser o foco da atenção, mas que Jesus seja o centro.
O amigo de Jesus não rouba dele a glória que lhe pertence. O amigo de Jesus não disputa com outros para ser o mais amado, o mais popular, o mais bem quisto. O amigo de Jesus não quer que a sua voz prevaleça, mas que a voz do noivo seja ouvida.
Ele ama o noivo e a noiva. Mas ele não quer que a noiva seja dele, e sim pertença ao noivo.
Agora, o que João Batista fez enquanto Jesus não veio? Cuidou bem da noiva, dando-lhe a Palavra de Deus, concedendo perdão aos arrependidos, ameaçando os lobos devoradores.
Neste contexto não é difícil entender a condição que Jesus impõe para que nossa amizade com ele seja nutrida.
Jo 15:14
Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando.
Jo 15:17
Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros.
Jo 15:12
O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.
Jesus amou a igreja, e foi capaz de morrer por ela também.
Amigos do noivo amam a noiva.
3. A reconciliação nos faz ter intimidade com Deus, seja falando a ele, seja ouvindo o que ele tem a dizer
Uma das passagens mais ternas da Escritura é
Êx 33:11
Falava o SENHOR a Moisés face a face, como qualquer fala a seu amigo; então, voltava Moisés para o arraial, porém o moço Josué, seu servidor, filho de Num, não se apartava da tenda.
O contexto todo aqui é lindo. Mas vou destacar apenas isto: Deus falando com Moisés, aquele servo que pela fé não cobiçou os prazeres transitórios do pecado, mas permaneceu firme, com quem vê aquele que é invisível[8].
Deus lhe fala como qualquer pessoa fala com seu amigo, face a face. E Moisés responde, dizendo que deseja sua presença sempre. E Deus torna a falar, e Moisés fala de novo, e o Senhor responde, e atende à sua oração.
Este mesmo tipo de certeza, de resposta à oração com base na amizade, foi um dos argumentos de Jesus quando ele estava nos ensinando a orar.
Lc 11:8-9
Digo-vos que, se não se levantar para dar-lhos por ser seu amigo, todavia, o fará por causa da importunação e lhe dará tudo o de que tiver necessidade.  9 Por isso, vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.
Nos versículos anteriores o Senhor faz uma ilustração:
“Vamos supor que você esteja deitado com seus filhos, já tarde da noite, e um vizinho venha bater à sua porta, dizendo: ‘Amigo, eu preciso de ajuda. É que chegou um visitante distante, e eu não tenho nada para servir a esta hora. Você pode me emprestar uns pães’? É claro que você se levantará para atendê-lo em sua necessidade. Se não fizer isto por causa da amizade, pelo menos se levantará por causa a importunação”.
Na história de Jesus, a primeira razão para você atender ao seu vizinho necessitado é a amizade.
Então ele conclui: – “Se é assim, peçam a Deus, e ele dará; busquem, e encontrarão; insistam, e alcançarão”.
Quando existe amizade com Deus, existe a certeza de que nele, em seu amor, em seu poder, em sua fidelidade, podemos confiar.
É o que nos faz insistir em oração. Que nos faz buscar sua Palavra, ouvir sua voz, nos deleitar na comunhão, e também falar-lhe de nossas ansiedades, de nossas necessidades, de nossos desejos.
É o que noz faz confessar quem somos, pois ele é um amigo fiel.
E da mesma forma, se somos amigos, nos deleitamos em saber o que ele gosta, nos deleitamos em fazer sua vontade.
Conclusão
Eu desejo encerrar nossa meditação trazendo à lembrança mais uma palavra do nosso amigo:
Jr 31:3
De longe se me deixou ver o SENHOR, dizendo: Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí.
Se você conhece ao Senhor Jesus você conhece, você conhece também, eu seu coração, o doce significado, e o doce poder destas palavras.
Você as conhece no íntimo de sua alma. Sabe que é amado de Deus, e o ama.
Então viva este amor. Viva com alegria, pois o amor alegra o coração. Viva sem medo, pois o perfeito amor lança fora o medo. Viva com esperança, pois o amor de Deus que foi derramado em teu coração, pelo Espírito Santo que te foi outorgado, faz de você uma pessoa cheia de alegre expectativa das bênçãos que ainda virão.
Mas amado, e se você ainda não conhece este amor de Deus? Volte-se para Jesus, com arrependimento e fé, pois ele prometeu:
“Todo aquele que vem a mim de modo nenhum o lançarei fora...” [9]
Se você fizer isto, você conhecerá o amor de Deus.




[1] Pv. 18:24
[2] Is 41:8
[3] Jo 12:1, 2; Lc 10:38-42
[4] Hb 4:13-16
[5] Is 40:3; Mt 3:3; Jo 1:23, etc.
[6] Jo 4:1, 2
[7] Por exemplo, Ef 5:25-32; Ap 19:7, 9; 21:2
[8] Hb 11:27
[9] Jo 6:37

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Deus que vê - Gn 16

IPC de Pda. de Taipas
Domingo, 31 de janeiro de 2016
Pr. Plínio Fernandes
Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos; tendo, porém, uma serva egípcia, por nome Agar,  2 disse Sarai a Abrão:  Eis que o SENHOR me tem impedido de dar à luz filhos; toma, pois, a minha serva, e assim me edificarei com filhos por meio dela. E Abrão anuiu ao conselho de Sarai.  3 Então, Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar, egípcia, sua serva, e deu-a por mulher a Abrão, seu marido, depois de ter ele habitado por dez anos na terra de Canaã.  4 Ele a possuiu, e ela concebeu. Vendo ela que havia concebido, foi sua senhora por ela desprezada.  5 Disse Sarai a Abrão: Seja sobre ti a afronta que se me faz a mim. Eu te dei a minha serva para a possuíres; ela, porém, vendo que concebeu, desprezou-me. Julgue o SENHOR entre mim e ti.  6 Respondeu Abrão a Sarai: A tua serva está nas tuas mãos, procede segundo melhor te parecer. Sarai humilhou-a, e ela fugiu de sua presença.  7 Tendo-a achado o Anjo do SENHOR junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte no caminho de Sur,  8 disse-lhe: Agar, serva de Sarai, donde vens e para onde vais? Ela respondeu: Fujo da presença de Sarai, minha senhora.  9 Então, lhe disse o Anjo do SENHOR: Volta para a tua senhora e humilha-te sob suas mãos.  10 Disse-lhe mais o Anjo do SENHOR: Multiplicarei sobremodo a tua descendência, de maneira que, por numerosa, não será contada.  11 Disse-lhe ainda o Anjo do SENHOR: Concebeste e darás à luz um filho, a quem chamarás Ismael, porque o SENHOR te acudiu na tua aflição.  12 Ele será, entre os homens, como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos, contra ele; e habitará fronteiro a todos os seus irmãos.  13 Então, ela invocou o nome do SENHOR, que lhe falava: Tu és Deus que vê; pois disse ela: Não olhei eu neste lugar para aquele que me vê?  14 Por isso, aquele poço se chama Beer-Laai-Roi; está entre Cades e Berede.  15 Agar deu à luz um filho a Abrão; e Abrão, a seu filho que lhe dera Agar, chamou-lhe Ismael.  16 Era Abrão de oitenta e seis anos, quando Agar lhe deu à luz Ismael. 
A Bíblia, por ser a Palavra de Deus, nos apresenta seus personagens, crentes ou não, como realmente são.
Ela valoriza as forças espirituais de nossos “herós da fé”, mas também não encobre suas fraquezas.
Isto, para nós, é de imenso valor espiritual.
Porque nos mostra que a Palavra de Deus é fiel, inteiramente digna de confiança.
Porque nos mostra que mesmo os mais fiéis e dedicados crentes têm pecados; mas que nem por isto deixam de ser filhos da graça e instrumentos da bondade de Deus – para nós é encorajamento no sentido de não desistirmos de nós mesmos.
Mas mostram também que quando os filhos de Deus pecam, não ficam imunes às conseqüências e disciplinas do Senhor – Deus os trata como filhos.
Aqui temos a narrativa de um episódio triste na família de Abrão. Família de nosso pai Abrão. Família de nosso pai na fé[1]. O homem que tinha aliança com Deus. Família da aliança.
Ele tinha cerca de oitenta e cinco anos de idade. Dez anos antes, o Senhor lhe fizera uma promessa: Abrão teria um filho, e de seu filho sairia uma grande nação. A posteridade de Abrão seria numerosa como as estrelas do céu, ou como os grãos de areia na beira do mar, e nela todas as nações da terra seriam abençoadas.
Nós sabemos que Deus estava falando de Jesus, nosso Salvador, o filho de Abraão “segundo a carne”.
Mas naquele momento, dez anos depois da promessa de Deus, este filho ainda não nascera.
E Sara, esposa de Abrão foi tomada de incredulidade. Ela já contava com setenta e cinco anos. Estava velha. Não poderia dar filhos ao esposo.
Então tomou uma atitude que estava de acordo com os costumes do mundo de seu tempo.
Ofereceu ao esposo uma de suas servas, para que fosse concubina dele. E o filho que porventura Abrão tivesse com Agar, a serva egípcia de Sara, seria contado como filho de Abrão e Sara.
Abrão aceitou o sugestão de sua esposa, e Agar, de fato, concebeu.
Acontece que então Agar sentiu-se orgulhosa disto, e Sara, percebendo, foi tomada de inveja. Dirigiu-se ao marido queixando-se. E Abrão, por sua vez, lavou as mãos: – “A serva é sua. Faça com ela o que você desejar”.
Primeiro, Abrão foi insensível quando aceitou a sugestão insensata de Sara (sugestão, de acordo com Paulo, carnal, da incredulidade, e não da fé na promessa de Deus[2]). E agora insensível novamente, ao permitir que sua esposa tomada pelos ciúmes fizesse o que quisesse com Agar.
O fato é que a serva foi tão humilhada que fugiu de casa. Grávida. Errante pelo deserto, a caminho do Egito, sua terra natal.
E foi ali no deserto (não sabemos a quanto tempo ela estava fugindo) que o Senhor veio ao seu encontro.
Ele a fortaleceu, reanimou, encorajou-a a voltar para a casa de seus senhores, e disse que ele, o Senhor estava cuidando dela, e que também cuidaria e abençoaria seu filho.
Agar aprendeu, neste momento tão triste de sua vida, mais um nome de Deus: Ismael – o Deus que vê. Este foi o nome que ela deu ao seu filho, pois Deus a viu no dia de sua aflição.
Este episódio que nos mostra tanto os erros humanos nos mostra também como é grande o nosso Deus. Como ele sabe transformar o mal em bem. Como ele toma situações de aflição, e nelas coloca a sua bênção. Eu gostaria de destacar o que podemos aprender sobre o nosso Deus.
1. Ele é o Deus que vê todas as coisas
v. 13 – Então, ela invocou o nome do SENHOR, que lhe falava: Tu és Deus que vê; pois disse ela: Não olhei eu neste lugar para aquele que me vê?  
Este é o grande nome do Senhor revelado nesta história.
O Senhor viu Agar no deserto: sozinha, aflita, cansada, sentindo-se oprimida.
Mas não é somente ali, é claro, que o Senhor viu Agar.
Ele a estava vendo na casa de sua senhora, Sara.
Viu que ela estava sendo maltratada.
Viu quando ela fugiu de casa.
E qual pastor que busca uma ovelha no deserto, o Senhor foi atrás de Agar.
E ela chegou a esta maravilhosa descoberta: –“O Senhor me vê”.
Sim, amado. Esta é uma verdade maravilhosa para os que amam ao Senhor. Ele nos vê.
Vê tudo em nossa vida. Não há nada em nós, ou que aconteça conosco, que fique oculto, ou despercebido aos olhos do Senhor.
Como disse Ezequiel
Ez 11:5 – Caiu, pois, sobre mim o Espírito do SENHOR e disse-me: Fala: Assim diz o SENHOR: Assim tendes dito, ó casa de Israel; porque, quanto às coisas que vos surgem à mente, eu as conheço.
Como Daniel testemunhou alegremente
Dn 2:22 – Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz.
E como reconhecemos em adoração
Sl 139:1-4 – SENHOR, tu me sondas e me conheces.  2 Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos.  3 Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos.  4 Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda.
Que coisa admirável! Quando estava no ventre do grande peixe no mais profundo do oceano, o Senhor estava lá. Quando Elias estava escondido no fundo de uma caverna, sozinho; o Senhor também estava lá.
Quando você está só, isolado, ou mesmo sentindo-se solitário em meio a uma multidão, o Senhor está lá, no teu coração, e vendo tudo o que acontece.
Vê as situações em que você se sente feliz, abençoado, e também vê as situações adversas: quando você se sente rejeitado, derrotado, humilhado.
Conhece o coração daquele que o teme, e também daquele que o despreza.
Esta não é uma verdade consoladora para os que apartam os caminhos do Senhor, que andam por lugares errados, fazendo coisas erradas, dizendo coisas erradas. Não é uma verdade consoladora para os endurecidos de coração.
Para este o fato de que o Senhor nos vê é algo aterrorizador.
Mas o conhecimento que Deus tem de todas as coisas é uma verdade cheia de consolação para o crente[3].
Quando Jó estava sofrendo suas perdas, sendo acusado de pecados que não cometera, sua consciência tranquila pode dizer: – “Mas ele sabe o meu caminho...” (Jó 23: 10).
– Vocês, meus amigos não conhecem o meu caminho; eu próprio não sei porque estão acontecendo estas coisas, mas ele sabe”.
Quando nos cansamos de nós mesmos, de nossas limitações e fraquezas, quando nos sentimos fracassados e tolos, nós podemos nos lembrar de que o Senhor “... conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó” (Salmo 103:14), e que se compadece de nós, como um Pai se compadece dos seus filhos.
Em tempos de dúvida e vacilação, podemos lembrar desta verdade e orar:
“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno” (Salmo 139:23-24).
Em tempos de triste fracasso, quando os nossos corações foram traídos por nossos atos; quando as nossas obras negaram a nossa devoção, e o Senhor nos pergunta: – “Você me ama”?, podemos responder como Pedro: “... Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que eu te amo...” (João 21:17).
Quanta consolação para os humildes, para os quebrantados, para os que choram: Deus está vendo
2. Deus vem ao encontro dos oprimidos, dos quebrantados, dos humildes
O Senhor não ficou somente a observar Agar.
Ele vem ao seu encontro. Ele a ouve. Ele a consola. Ele fala ao seu coração.
Ele não é só o Deus que vê. É o Deus que age.
Não em favor de todos, mas em favor dos humildes.
É neste sentido, de que ela seja humilde, que o Senhor a orienta.
v. 9 – Então, lhe disse o Anjo do SENHOR: Volta para a tua senhora e humilha-te sob suas mãos.
Confesso, irmãos, que em primeira mão, se eu encontrasse uma amiga na situação de Agar, eu não aconselharia que ela voltasse à casa de seus senhores.
Movido de compaixão, eu diria mais ou menos assim: – “Olha querida, você não merece o que está passando. Que culpa você tem de ser uma escrava? E que culpa tem de ser fértil enquanto sua senhora é estéril? Deus não quer um sofrimento deste prá você. Então fuja. Vá para sua terra natal e seja feliz ali”.
– “Você está numa situação na qual se sente oprimido?”, diria eu, “então fuja! Saia desta casa, saia deste trabalho! Saia deste lugar! É legítimo”.
Mas o Senhor, que ama muito mais, e é muito mais sábio do que eu lhe dá uma orientação diferente. Ele diz: – “Volte, humilhe-se...”. Porque o Senhor lhe dá esta ordem?
Uma das razões, nós podemos confiar, é que cada situação de nossa vida nos é dada por Deus. Mesmo as mais difíceis de suportar.
Não foi assim com José? Ele foi odiado pelos irmãos, traído, vendido, escravizado, acusado falsamente, preso e esquecido durante anos, mas em todas estas coisas não deixou de confiar que Deus estava no controle de todas as situações.
Não foi assim que Davi entendia todos os acontecimentos de sua vida? Mesmo sabendo que muitos inimigos o perseguiam e desejavam sua morte, ele escreveu: – “No teu livro foram escritos cada um dos meus dias...”.
Paulo, e Silas, mesmo na prisão cantavam ao Senhor, uma vez que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.
Além disto, porque Deus faz de cada situação, de cada circunstância um modo de nos abençoar, se nós andarmos em humildade na sua presença.
Tg 4:6,10 – Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes… Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará.
Tiago está ecoando as palavras de Jesus, pois nosso Senhor ensinou também que “aquele que se exalta será humilhado, mas aquele que se humilha será exaltado”[4].
3. Deus vem ao encontro para abençoar os humildes
vs. 10, 12 – Disse-lhe mais o Anjo do SENHOR: Multiplicarei sobremodo a tua descendência, de maneira que, por numerosa, não será contada.  11 Disse-lhe ainda o Anjo do SENHOR: Concebeste e darás à luz um filho, a quem chamarás Ismael, porque o SENHOR te acudiu na tua aflição.  12 Ele será, entre os homens, como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos, contra ele; e habitará fronteiro a todos os seus irmãos.  
– “Vai ser um homem forte. Terá descendência numerosa. Será abençoado”.
Mas veja: a mesma bênção que seria para Agar, seria também um pesadelo para Abraão e seus descendentes; os ismaelitas, dos quais os árabes modernos reivindicam ascendência – são um pesadelo para os israelitas até os dias de hoje.
Isto deve ser um alerta para nós: a incredulidade de Sara, a insensibilidade de Abraão, a humilhação e também a humildade de Agar não ficaram gratuitas.
Jr 17:9, 10 – Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?  10 Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.
Conclusão e aplicação
Ismael – O Deus que vê.
O Senhor que acode os aflitos, os humildes – o Senhor que orienta.
O Senhor que abençoa os obedientes.
Amados, esta verdade é deleite para nossa alma: pois não há um instante em que não estamos diante dele. Por trás e por diante, de todos os lados, estamos cercados por sua doce presença. Protetora presença. Nele nos movemos e existimos. Com um peixe é feliz dentro d´água, assim somos felizes em nosso existir em Deus.
Esta verdade é consolo para o nosso coração; é encorajamento e renovação das nossas forças.
Há uma recompensa se suportarmos com paciência as aflições, pois Deus está vendo.
Há uma recompensa se perseverarmos com fé diante das tentações.
Há recompensa se continuarmos a fazer a vontade de Deus, com amor a ele, à sua Palavra, à sua igreja, aos homens criados à sua imagem e semelhança.
Há perdão para os nossos pecados, pois ele nos conhece por dentro, e se compadece.




[1] Rm 4:11
[2] Gl 4:22, 29
[3] Estou seguindo as palavras de A. W. Pink, “Os atributos de Deus”, (São Paulo, PES, 1990), págs. 16-20
[4] Lc 14:11
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